Memória

por Kalew Nicholas
Foto de Leopoldo Cavalcante para o poema "Fatos" de Kalew Nicholas.

Kalew Nicholas é poeta, redator e estudante de jornalismo. Interessado na interseção entre letras e melodias, é autor de livros-disco de poesia, disponíveis nas plataformas de streaming.


Fatos

“A memória guardará o que valer a pena.
A memória sabe de mim mais que eu;
e ela não perde o que merece ser salvo. […]
A memória: meu veneno, minha comida.”
— Eduardo Galeano,
em Dias e noites de amor e guerra

Quando o fato se anuncia,
sou medo — medo durante o dia
de que a arte do fato reduza a nada
o que na noite anterior era cantoria.
Ao me atingir, sou fogo em cinza:
o espanto ao ver que desmancho
ao dissipar o que, pra mim,
era real-poesia, da tela à tinta.

Daí o medo de ler esses diários
e a curiosidade ao que consta nos autos:
saber que toda realidade é frágil 
e que a memória
meu veneno, minha comida
passou da hora de ter lastro,
distante destas estalactites
que construo ameaças desde o alto.


Luz

Eu olho pras estrelas
e gosto do que dizem as luzes,
mesmo que eu saiba
que esses astros já morreram.
Ignorá-las
seria tornar vã a sua morte.

Sangue do meu sangue,
osso dos meus ossos.
Eu rasguei a cicatriz
pra ver se, sangrando,
eu te encontrava na ferida;
eu exalo um odor pútrido
após tanta hemorragia.
Mas qual é a razão de tanta dor?
Compensar que o mundo queimava
enquanto eu sorria? 

A relva cresce sobre túmulos
como se a vida,
cansada da inadimplência,
expulsasse a morte-inquilina.

É aí que te encontro:
ao descobrir que luz é luz
e ainda brilha.


Corte

Ajo com calma após o estrago:
observando o sangue escorrer da minha mão
primeiro analiso a faca que abriu o buraco;
vendo que permanece intacta e limpa,
a devolvo à gaveta de sacolas plásticas e, líquida,
espera-se a plaqueta, restando glóbulos vermelhos
onde distingo hemácias e hemoglobina.
Com a outra mão, toco a ferida grave.
Cicatriza rápido? Agora não, só depois que arde.
E se arde demais basta apertar bastante,
que se não deixa de ser dor
pelo menos vira arte.


Caixa fechada

Eu vi a morte no olhar da minha vó
ao atender o telefone após o toque.
Nas suas lágrimas, se esvai a mulher forte,
enquanto param as máquinas e lançam-se à sorte:

o telefone, suspenso no ar
segurado pela minha segunda mãe,
transformou minha progenitora
no gato de Schrödinger —

ao mesmo tempo viva e morta
a caixa abriu junto com a porta
e a catarata anunciou a morte do gato.

A lágrima, quando chove pela manhã,
é sempre por morte.
A ligação atendida às sete da madruga
é sempre por morte.
O parente distante quando te liga ao acordar
é sempre por causa de uma morte.

Sempre lidei bem com fatos
e negação não foi a primeira fase do luto.
Chorei nos braços do meu tio,
chorei no chão do quarto,
chorei pra minha vó, pro meu vô
e até pro meu rato.

Se a caixa fechada é a incerteza
(nunca explicada pela ciência)
eu preferia viver pra sempre naquele segundo
do telefone no gancho e minha avó atenta.


Foto de Leopoldo Cavalcante.

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