segredos

por Felipe Fleury

Felipe Fleury é formado em Direito, é funcionário público e mora na cidade de Petrópolis/RJ. Tem poemas publicados no e-book do concurso de poesias da Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ-2018), nas Revistas Literárias Contempo, Contexto, Mallarmargens e Ruído Manifesto, além de ter sido selecionado para integrar a antologia, “quantos players hoje – poemas do árcade ao console”, organizada pelas Editoras Patuá e Fractal. Coorganizador dos saraus poéticos: Saracura e Sarauema.


Segredos

Diante do teletrabalho,
ouço crianças brincando lá fora.
É a vida em meio à morte
nesta tarde sanguínea.

Por sorte, não sei fazer
duas coisas ao mesmo tempo
– tapo os ouvidos, ou fecho os olhos? –

O diabo anda à solta
e conhece demasiados segredos.

Só as crianças estão a salvo,
porque ainda não sabem
todas as palavras:
asco, ódio, opróbrio, por exemplo.

Fecho os olhos e sei que,
quando um arco-íris morre,
nascem outras borboletas.

Segredo que o diabo desconhece.


Sem sombra

Penso nas pequenas deslembranças
para esconder as grandes demais.

Faço este verso mais longo só para ocupar minhas mãos:
que não escavem sob as raízes
memórias que não procuro.

A noite, embora escura,
não é seara do esquecimento,

é onde a memória trabalha em silêncio,
é quando a poeira da consciência
se amontoa sobre os meus ombros.

Ando então até ser de manhã,
– para cegar-me à luz do sol e enxergar
apenas o que os meus dedos tateiam –

pisando sem deixar rastros
chegando sem fazer sombra,

sem me saber,
nem sabendo o que se perdeu
antes do último passo.


Amniótico

Imagina a palavra,
se não grita.

Imagina se entala
no cimo da garganta,
entre o céu da boca e a língua,
no silêncio claustrofóbico
e úmido da saliva.

Imagina um paralelepípedo.
Imaginou? É isso.

Imagina agora por que chora
o recém-nascido.


Pássaro noturno

Escrevo no ar um poema,
a caligrafia melhor do que a minha,
anáforas, paranomásias, aliterações
que nunca sonhei.

Defronte das árvores,
que aplaudem aos farfalhos,
escrevo no ar um poema.

Escrevo no ar um poema,
grafado no rumo do vento,
dono do destino dos versos
que escorrem por meus dedos.

Defronte das árvores, contudo,
depois do silêncio das folhas,
minhas mãos tornam-se mudas
e meus versos o que sempre foram.

O poema vai-se nas asas do vento,
fugaz como um pássaro noturno,
voando alto, ao res da noite,

só para me perder de vista
enquanto tece o meu esquecimento.


Tríptico

[ruídos]
Procurar o poema nas ondas curtas,
em alguma estação entre as estáticas,
girando o botão ao ouvido,
como a desvendar o segredo de um cofre.

[silêncios]
Quando sintonizar o silêncio,
é preciso escutar com atenção,
pois é dele que a palavra irrompe,
úmida, exígua, transitória,
feito uma pedra atirada à mansidão da água,

[efêmeros]
(a palavra) a perpassar nas suas ondas,
como o tempo concêntrico sempre
a extinguir-se nas suas margens.


Foto de Luísa Machado.

4 Comments

  1. Um poeta incrível. Admiro demais a escrita de Felipe Fleury.

    1. Muito obrigado, Thainá!

  2. Belos poemas!

    1. Muito obrigado

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