amarelo inexorável

por Gabriel Cruz Lima
imagem de georgia ayrosa para texto de gabriel cruz lima. folhetim na ordem do dia, capítulo i - enquanto dormem os meninos

Gabriel Cruz Lima é jornalista pela Faculdade Cásper Líbero e graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. É autor de “O Último Romântico” (BAR Editora, 2020). Assim como o São Paulo Futebol Clube, não tem nenhuma premiação expressiva na última década. Entretanto, a torcida permanece.


Soliane saiu de casa com dois pares de tênis e balinhas para o hálito. Nos pés, o primeiro deles, preto imune ao barro da caminhada até o ponto de ônibus. E ela vai assobiando aquela lá do Jorge Ben, fone de ouvido no máximo, relaxada e ansiosa para o bloco de carnaval com a mocinha da faculdade.

Cumprimenta a cobradora e se senta no banco logo atrás da catraca, esticando as pernas por baixo do assento, como quem chama pela menina de antes. Soliane vai agateando os olhos assim esparramada, de bala na boca, a cobradora perguntando sobre o genro da Marta, se ele ainda se faz de solteiro, da padaria nova do tio Alcino, como a velha Maria tem andado com as dívidas do jogo do bicho e se ela, por fim, anda bem. Estamos todos muito bem nesse momento.

Disso Soliane desenrola tudo tintim por tintim enquanto vai trocando de tênis. Limpa com um lencinho umedecido o preto e guarda-o em uma sacola de mercado para não sujar o interior da mochila. Mais a fundo, de dentro do zíper, ela pega o tesouro embalado em papel pardo, dinheiro do estágio muito bem gasto. Coloca duas meias limpas com um coração e vários gatinhos, repara, repensa se não teria sido melhor o chinelo, mostrar o pé, as unhas vermelhas pintadas dois dias antes. Pensamentos se desfazem feito bolhas de refrigerante, a abertura do embrulho revela a coisa mais daora do mundo, é um tênis novo, limpinho. Agora sim: o doze molas amarelo.

Bate nos bolsos, checa a mochila, olha as ruas lotadas de placas e policiais, tudo certo para dar confusão, e ri acenando com a mão de despedida, chacoalhando a balinha de menta para a cobradora. Ali na calçada enquanto checa se não esqueceu nada, Soliane se arrepende de não ter nem oferecido o doce para a amiga. Coça a testa e ri do despropósito de um gesto involuntário, mas muito do mal educado. Deixa-se nesse estado de riso frouxo, mete mais drops pra dentro, papel e tudo, pois segundo constava na memória, aquela celulose é papel manteiga, super comestível. Apesar de nunca ter sido comprovada a veracidade da informação, também não duvidava da sabedoria da Anastácia ou Juliana que diziam, sim, pode comer isso aí sem problemas. Toda toda, ri da graça de se estar consigo e do sabor muito muito forte.

Coração tem sabor de menta mesmo. A balinha tinha sido comprada no dia anterior ao bloco de carnaval com a esperança, não, com a certeza, de um beijo safado. O hálito estaria em dia, o cabelo arrumado, a saia de tule esperando para se enrolar na outra saia de tule. De preferência, se assim fosse possível, uma saia jogada por cima da outra, porque queria tanto, de maneiras imensas, se enrolar no confete dela.

Como quem não quer nada, um dedo junta no outro e junto de um tô chegando com um coração, Soliane colocou a música para pensar nas duas. O Belo falava umas coisas bonitas, assume essa vontade louca, embarca nessa adrenalina. E mal ouvindo o pique do rebolo e do saxofone da parada do metrô, ela se pegava ainda mais de riso frouxo, gostando da ideia de assumir para amiga um sentimento novo e sem nome, mas desde muito antes obscuro e lindo. 

Ouvia Marisa Monte também, em que aquele coração acostumado com a solidão tinha encontrado alguém com quem se aventurar seria possível, ir para o Guarujá, Ubatuba, quem sabe até Paraty. Nordeste? Só quando ficassem juntas. Sonhos têm limites.

O portão e as grades. Ela toca o interfone.
“Entrega pra quem?”
“Vim visitar a Michelle. É a Soliane”

“Sim, mas o que você veio fazer aqui?”

“Visitar a Michelle. 701”

Sem se expandir em um boa tarde, questão de respeito próprio, apenas acena com a cabeça. Do hall do elevador, o atabaque do Olodum direciona Soliane até a campainha. 

“Eu sabia que você não ia me abandonar”

Ato seguinte ao abraço, Soliane vê a cabeça da amiga lhe varrendo à medição, como quem investiga, com os olhos moventes em seu corpo, a qualidade da indumentária. Bingo, repararia no tênis, modelo ainda inédito no Brasil, importado sem muitas delongas além da espera pelo pacote, e sentiria toda a inveja acumuluda no amarelo foda das molas. Ao que repara Soliane, entretanto, a cabeça de Michelle se detém nos pés por um segundo, se muito, sem contemplação ou piada, só sobrancelhas erguidas.

Ao sentar no sofá da sala, de frente ao clipe ligado no máximo, cantando eu não resisto um minuto sem você, Soliane se deparou com uma verdade, apesar das diferenças, estava bem tranquila sozinha com Michelle. Vê aquele espaço sem paredes, também dela, conjugado de móveis modernos em um apartamento antigo, chão de taco quadriculado e plantas à revelia, a pupila dilatada com o atabaque subindo ladeira acima. A bem da verdade, queria mesmo o apartamento para as duas, um cafofo no centro de São Paulo, feito para conversas longuíssimas. Quem sabe elas não esbarrassem no assunto daquele dia lá atrás, que poderia ser a fagulha de tantos outros dias lá na frente, coisa boba, miúda, e pronto, já ficariam entocadas em saliva e gozo pelo restante do Carnaval, curtindo o supremo quereres de se amar profundamente alguém. 

Uma mão rasga o sonho. Michelle se prostra entre a televisão e Soliane, oferece uma latinha da mais amarela e redonda possível, sabor glacial. Junto, balança um saquinho branco, conteúdo de pó.
“Mi, não sei se eu estou tão afim de experimentar essas coisas novas.”

“É só MD com cerveja, não pega nada. Esse drink é conhecido como Sasha Meneghel. Você coloca duas pitadas do pó debaixo da língua, quando começar a ficar muito amargo, você vira a lata. O gelo neutraliza o gosto ruim e dobra o efeito.”

“Mas isso não pode dar ruim?”
“Nada nunca aconteceu comigo por causa dessas besteirinhas. E hoje é dia de triunfar sobre a morte. Carnaval é sobre desafiar o corpo e a mente até o limite.”

Soliane pegou o controle da televisão e aumentou o volume, com a esperança de negar sem ofender, o subentendido doeria menos no coração dela.

Ao perceber a esquiva, Michelle toma o controle da mão de Soliane e deixa a imagem rodando no mudo.

“Vamo ou você vai arregar?” 

Nem bem dizendo sim nem não, Soliane viu dois dedos através do ar direto à goela. Ato contínuo, a cerveja vai descendo redonda, lavando a contrariedade e nublando a invasão do céu da boca.

Enquanto aquela cosquinha gelada ia descendo, Soliane se embaraçava e se perguntava do local pré-estabelecido das coisas, se haveria um motivo, além da amizade das duas, para a coerção da amiga sobre ela. Entre elas era assim mesmo, provações, provocações e melindres, normal Michelle colocar aqueles dois dedinhos na boca dela. Ainda que não tivesse certeza da sua vontade, também não poderia afirmar não querer experimentar o sabor de Sasha. 

Antes que Soliane pudesse se confrontar com Michelle, a amiga tira do mudo a televisão, já atirando outra lata de cerveja. Da cozinha, caminha uns poucos passos e se senta ao lado da amiga: papear. Soliane ouve sobre o ninho do passarinho macuco, seus hábitos e como o dinheiro da pesquisa andava curto para desenvolver a iniciação científica. Ouve sobre a morte de um gato de uma conhecida, ouve o Thiaguinho cantando sobre aquela conhecida ignominiosa, namorada de anos de outro cara. Michelle canta em coro com o Péricles sobre como o Brasil estava se transformando drasticamente e talvez, dessa vez, as coisas dessem certo.

Soliane ouve esses assuntos, bunda pinicando, entretida com a mandíbula travada e com a balinha de menta colocada para dentro, ignorando aqueles assuntos muito sérios, porque ela não conseguia considerar verdadeiros os dramas de Michelle. Apartamento no meio da cidade mais rica do país, pago sabe-se lá deus por quem, com dinheiro de onde. Amava sim, e muito, mas não respeitava a visão garça.

Amava mesmo. Como daquela vez em que Michelle a entregara um panfleto na universidade indicando todos os lugares do campus, os laboratórios, bibliotecas, outros lugares, lugares para comer e também, porque não, lugares para ser comida. Soliane riu bastante do chiste, meio sem saber se aquilo se diria para uma estranha, mas uma vez dito, se supunha intimidade e se riria também. Um carrossel de luz neon pinga de Sasha Meneghel. As duas almoçaram juntas por um ano, foram a festinhas, comícios, protestos, comentaram sobre outras pessoas, defenderam quem gostavam e criticaram os inimigos imaginários. Da roda de uma amizade premente, dois sofás se sobrepõem. O primeiro beijo é sempre o sucessor desse último.

O problema é a ideologia da pedra quando arremessada para frente: sempre atinge lá atrás. Pouco a pouco, bunda a bunda se aproximam no tempo. Um gosto de língua anterior, familiar, tão desejado e, sim, assimétrico, explode em menta gostosa. Saliva água até as primeiras mãos pousadas na coxa uma da outra. Soliane para diante do corpo, vê os olhos de Michelle, e deles antecipa todas as dores a viver, puxa um zíper, crava os dentes no pescoço, faz o possível, porque é tudo sempre na ordem da possibilidade e vergonha. Michelle passaria daquilo? Soliane pergunta:

“E aí, vamos ou não?”

“Vamos sim, só me dá um minutinho.”

Enquanto Michelle se retira ao quarto, Soliane saca o celular, se olha pelas lentes da câmera e desfaz a nesga de um cacho solto. Bonita demais, bicho. Na bochecha-queixo, permanece purpurina renitente, marca do porvir. O tênis amarelo manga ainda intacto, limpíssimo. A perna palpitando o axé do Chiclete com Banana na televisão, não dá pra ficar sem te ver, vontade de abrir o quarto e arrebentar a saia de tule fio a fio. 

E ela vem toda de branco, toda molhada, linda e despenteada, que maravilha. Igual na música ouvida mais cedo. Michelle é incisiva:

“Precisamos nos apressar, o bloco já deve ter andado. Você bem que podia levar sua mochila pra gente colocar mais umas cervejas para montar a Sasha Meneghel, né?”

Nem bem dizendo sim nem não, Soliane viu as seis cervejas restantes e o pó de pirlimpimpim direto a dentro da mochila, combinando o par de tênis pretos do início do dia a dois glitters vermelhos de pintura.

A temperatura ideal para o funcionamento do corpo humano é de alguns muitos graus. E se esse termômetro continuasse sua progressão aritmética com tanta entrada de gente, da estação até a altura do bloco era capaz de superaquecimento e pimba, desmaiava ali mesmo no colo de Michelle. Tanto melhor, ela não iria nem para a rua e voltariam as duas para o apartamento quatro estações atrás, ver filmes e fingir ver filmes.

Grau a grau a temperatura sobe, Michelle conversava demais com os estranhos. Esse Kiko de bonézinho e roupa de marinheiro, dono de uns dentes brilhosos, falando sobre os brincos de foice e martelo muito lindos e necessários a essa altura do Brasil, se aproximando com as palavras, mãos e línguas do lóbulo, dali a pouco da nuca, sabe-se lá aonde levaria essa conversa toda. Com certeza não chegariam nem à próxima estação, desembarque das duas, ali mesmo já se engoliriam. Soliane vê, revê, se encosta em outro corpo, planeja e desmaia.

Coisa curta, como deve ser. Antes da queda, Soliane sente o pulso envolvido pela mão de Michelle. Como a amiga não consegue frear a gravidade, Soliane dá com as costas e mochilas e pernas na barra do metrô. Se não chega à plenitude de se estatelar e, carregada por Michelle, voltar ao sofá das duas, Kiko pelo menos já se afastara mediante pedidos por ajuda, e meio sem saber da gravidade do tumulto, um bafafá de solidariedade e respeito dirigiu as duas ao ambulatório mais próximo. 

Ali, já sem tanto abafamento, sentada no meio fio, cercada por um contingente policial sem identificação, certificando que o doze molas ainda brilhava, uma enfermeira oferece um curativo e um copo de água lacrado para Soliane. Com o joelho já enfaixado pelo enorme band-aid e a embalagem aberta, Soliane molha a mão e passa os dedos nos pulsos, na nuca, para dar credibilidade ao desmaio muito sério sofrido por ela. Olha para o céu e vê a figura de Michelle com os braços cruzados, mochila em uma das mãos. Uma hora teria de se desculpar pelo atraso, pelo fardo, pensa nessas coisas sem atenção, e se interrompe:

“Deve ter sido o calor, Mi. Desculpa.”

“Eu só consegui tirar o MD do meio daquela confusão. Tinha algumas cervejas estouradas lá dentro, nem deu pra limpar tudo, ainda tá molhado. No seu tênis pegou só um pouco. De um rasgo na sacolinha plástica.”

Soliane abraça a mochila meio triste pra caramba com um dos tênis, traçando o mapa noturno das palavras de Michelle. Ela não disse do Kiko, da preocupação com ela, se estava bem, nem as desculpas aceitou. Olhando assim sentada para o alto, inclusive, os lábios da amiga pareciam mais curvados, sinal de braveza, quem sabe. Atraso ao bloco, não estavam na muvuca, as coisas reprisando naquele solzão e ela querendo ir embora e se confessar, pedir perdão para Michelle. Apesar das impressões, a amiga estende a mão e as duas vão por aí em busca de outra Sasha Meneghel.

Como é bonito quando Michelle sorri e ela se lembra. Já fazia mais de um mês da última despedida, e mesmo assim a amiga ficava na cabeça, pingando silabicamente. O hiato fortalece o desejo, e amor se agrava nas horas vagas, minutos longuíssimos de televisão, bolo de aipim, férias. Não mandava muitas mensagens para macerar esse sentimento tão dela: a distância refaz o sonho.

“A polícia quer falar contigo sobre o que acharam na sua mochila.”

“O MD era nosso. A Sasha Meneghel, tudo o mais que você ensinou.”

“Eu tentei explicar isso pra eles, mas pelo visto o lance é só com você mesmo. Mas é rapidinho, você vai ver, não dá nada pra gente.”

“Pra você não vai dar nada. Mas e eu?”

“Você está comigo, prometo que não vai acontecer nada. Qualquer coisa eu ligo para os meus pais, eles são liberais, vão entender tudo, você vai ver.”

“Na moral, vai se foder.”

E soltou a última sílaba já com a mão enorme às suas costas. Um policial sem identificação respira ao ouvido de Soliane e manda acompanhá-lo até a viatura. Antes, bem antes, confisca o tênis amarelo como prova dos autos, o preto joga no lixo, rouba uma balinha de menta, faz piada com os colegas do choro dela. De agora em diante, como ontem, é assim.


Da redação: este é o segundo de uma série de 16 textos do autor Gabriel Cruz Lima. Durante as próximas oito semanas, a Aboio publicará os capítulos seguintes, na melhor tradição do folhetim, toda sexta-feira, às 19h.

As ilustrações são de Geórgia Ayrosa.

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