Sob um sol de neblina, por Sandra Modesto

por Sandra Modesto
Arte: Small house with a red roof, de Tadeusz Makowski.

Sandra Modesto é mineira de Ituiutaba. Tem três livros publicados: Acenda a luz, prosa poética (Editora Kazuá, 2015), Tudo em mim é prosa e rima (Editora Autografia, 2019), e Era Sábado (Kotter Editorial, 2022). Tem textos em várias antologias.


Acordei mergulhada em lembranças da casa onde vivi. Resolvo visitar a antiga morada. Por muito tempo eu fui menina, em pouco tempo eu cresci. Por longos instantes densos, frívolos e fortes, permaneci intacta. Tanto tempo que eu nem sei encantar. Entrei aos treze e deixei aos trinta. Minha casa feita de sonhos, de esconderijos. Silêncios e vazios ocultos. Quais são os espaços estranhos e nem assim, em vão, fizeram meu coração dilacerar e correr para casa da avenida vinte e sete?

Em busca dos restos eu caminhei por algumas horas, vagarosa com jeito entre a curva do meu corpo sem juventude. Esperei avistar uma moradia antiga. Mas houve desesperança. Sabe minha casa? Não tem mais cores fortes na entrada, nem rede, aumentaram a construção. Quando observei um cômodo pequeno onde meu pai recebia as pessoas velhas necessitadas em busca do caminho da aposentadoria, onde a gente colocava uma garrafa de café, biscoitos fritos e pão de queijo quentinho…

Ah, o velho aconchego virou um escritório Estranho, sem vida, portas fechadas e sem harmonia.

Uma chuva ameaçou meu passeio ao passado. Veio-me à memória aquela menina medrosa, minha mãe dizendo que se o sol se fecha, os respingos choram na terra. Por isso que eu sempre gostei de luz natural. Eu sou solar. Rasgada de amor por histórias do amanhecer. Se a noite chega eu me fecho e a insônia ameaça. Mas adormeço em presságios e aponto uma sutil alegria ao acordar.

Entendo que a casa do passado está apenas nos meus álbuns de fotos antigas.

Abracei minha vida do agora. Numa cidade onde passa um rio, um povo esperançado, sem muitas oportunidades, às vezes escorregando lá, de repente, sorrindo ali.

Aqui eu quero morrer.

Mas sem neblinas.


Você acabou de ler uma crônica de Era Sábado (Kotter Editorial, 2022) livro de Sandra ModestoGostou da passagem? Adquira-o clicando aqui!

Mais sobre a obra

As crônicas abraçam o cotidiano. Nesse livro que mistura conflitos e relações marcantes. Era Sábado reúne textos intercalando passado e presente. Permeados no Brasil de 2017 a 2021. Pelos olhos da autora que narra em primeira pessoa, em terceira pessoa, desafiando porquês. Por caminhos ora lírico, ora denso, em uma narrativa imensa pelo espanto da palavra. Entrelaçando o universo feminino e as perdas no país pandêmico. Os escritos de Sandra Modesto identificam- se com a coragem do sonho de uma mulher de 60 anos, onde o etarismo é o preconceito cruel de uma sociedade machista e desumana. 


Arte: Small house with a red roof, de Tadeusz Makowski.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

faz um PIX!

Caso dê erro na leitura do QRCode, nossa chave PIX é editora@aboio.com.br

Comprando durante a pré-venda, você garante o livro com 10% de desconto e ainda leva o nome impresso nele! Clique aqui e saiba mais.

faz um PIX!

Caso dê erro na leitura do QRCode, nossa chave PIX é editora@aboio.com.br

Comprando durante a pré-venda, você garante o livro com 10% de desconto e ainda leva o nome impresso nele! Clique aqui e saiba mais.

DIAS :
HORAS :
MINUTOS :
SEGUNDOS

— pré-venda no ar! —

Literatura nórdica
10% Off

Shopping cart close