Ti amo

por Hanne Ørstavik (trad. Camilo Gomide)
Arte para ilustrar o trecho de Ti Amo (Aboio, 2023), de Hanne Ørstavik.

Hanne Ørstavik começou sua carreira literária em 1994, ao publicar Hakk. Tornou-se conhecida três anos mais tarde com seu romance Kjærlighet, cuja tradução pro inglês foi finalista do prestigioso prêmio National Book Awards e vencedor do prêmio PEN Translation 2019. Desde então, publicou vários outros livros, estabelecendo-se como um dos grandes nomes da literatura norueguesa contemporâneaTi amo é a primeira obra da autora publicada no Brasil.


Quando você ficou doente, eu estava terminando de escrever meu último romance. Quando você voltou do hospital depois da operação e nós ainda morávamos naquele apartamento grande e escuro que não tinha quartos separados, era como um grande hangar, a base de uma pirâmide gigante, e você ficava lá deitado na cama com aquela ferida enorme sob a bandagem branca que ia do peito até a barriga, não havia nenhum lugar que eu pudesse ir para terminar de escrever o romance sobre aquela mulher jovem que vai para Milão para se dedicar ao desenho e à vida com o novo namorado italiano, um romance sobre ser órfã e acreditar que você não é digna de amor, que você não é desejada, uma experiência anterior à linguagem, uma experiência que essa mulher jovem só consegue acessar através dos desenhos que faz, um romance feito de imagens em que a ferida dessa necessidade de ser amada cicatriza lentamente, como galhos que vão crescendo e se conectando e cobrindo com folhas macias o que antes estava exposto e era apenas desolação e vazio.

Por isso eu coloquei o Mac e o carregador numa mochila e fui até a biblioteca na Viale Tibaldi, uma caminhada de meia hora até o parque plano e aberto onde ela fica. A biblioteca tem uma sala de leitura com quatro fileiras de mesas brancas e lâmpadas fluorescentes no teto, está sempre cheia, como tem muita gente na Itália, qualquer lugar está sempre abarrotado de pessoas, e toda vez que vou para Oslo depois de ter passado um tempo em Milão demoro a me acostumar com as ruas vazias e o número tão pequeno de pessoas, na biblioteca de Tibaldi vão muitos jovens italianos e eles escutam música alta nos fones de ouvido e falam sem parar como se seus corpos e pensamentos estivessem entrelaçados e os cadernos em que eles fazem anotações e grifos com suas canetas amarelas e cor-de-rosa fossem parte de uma escritura comum através da qual eles se conectam em um mundo secreto onde ninguém mais existe além deles. Me sentei lá com meu romance e ninguém sabia quem eu era, ninguém sabia que havia uma escritora norueguesa sentada entre eles enquanto faziam a lição de casa, ninguém sabia que eu escrevia um romance que um dia seria publicado em outro país e ninguém sorria para mim, os bibliotecários não sorriam, todos estão cansados, sujos e mal pagos, e em casa eu tenho um marido com câncer terminal, mas nós ainda achamos que tudo vai bem, acreditamos que os médicos removeram tudo o que precisavam remover do tumor que cresceu assustadoramente nas três semanas desde o diagnóstico até o dia da cirurgia, a ponto de o cirurgião ter dito depois que, se ele soubesse que estava tão grande, talvez não tivesse feito o procedimento, e agora, se isso tivesse acontecido, neste momento em que eu estou sentada na biblioteca, você estaria morto.

Termino de escrever o romance na biblioteca e tudo está sempre escuro, está escuro quando eu chego lá, escuro quando eu volto para casa, escuro dentro do nosso apartamento. Você está com dor. Você está inquieto e enjoado e sente dor ao se movimentar. Terminei de escrever o romance porque era a única coisa que eu podia fazer. Não posso fazer nada para ajudar você. Também não posso fazer nada por mim além disso. Terminar meu romance. Porque é isso que eu faço. Escrevo romances. É assim que me encontro no mundo, eu crio um lugar, ou o romance cria esse lugar para mim, nós fazemos isso juntos, e é lá que eu posso existir, no romance.

O romance estava quase pronto quando você ficou doente. Eu só precisava seguir adiante, num primeiro momento achei que seria difícil e até errado trabalhar nele, como se eu me distanciasse da minha própria pele e assumisse uma postura técnica e distante. Mas na época alguma coisa aconteceu entre nós dois que permitiu que o romance finalmente se desenrolasse. Quando você ficou doente, foi como se fosse necessário para você me mostrar, de um jeito novo, que eu era importante, mais do que isso, que eu era o que de mais importante existia na sua vida. Você quis se casar comigo. Formalizar nossa relação. Será que sentíamos que o casamento podia nos proteger, como se com isso pudéssemos criar um laço que te impedisse de morrer? Será que acreditamos que o casamento seria como um fio de seda vermelho que nos uniria e se a morte viesse te buscar ela não conseguiria te levar porque você estaria preso a mim?

Sentir que você realmente me queria foi decisivo para a escrita do romance. Te amo. Te amo mais do que tudo. Você sempre me disse isso. Mas antes do casamento faltava alguma coisa, algo difícil de definir. Algo que simplesmente nunca se expressava. Nunca ficava claro. Faltava você. O que você queria e desejava. O importante não foi o casamento em si, mas o seu desejo, poder finalmente ver, de forma transparente, o que você desejava e o que significava para você estar comigo. Você escolheu estar comigo. Você me queria.

Experimentar essa clareza foi fundamental para que eu pudesse fazer com que Val, a jovem mulher do romance, se encontrasse em Milão. Para Val, ver esse brilho nos olhos de outra pessoa foi como acender um farol que finalmente iluminasse a escuridão das águas do fiorde onde ficava a casa em que ela nasceu, uma luz que dava as boas-vindas ao que era novo e possível dentro dela. 

E agora estou aqui escrevendo isto.

Este não é o livro que eu imaginava escrever depois de terminar Romance. Milão. Os meus romances começam quase sempre com um lugar. É o que vem primeiro. Eu vejo e sei onde o romance vai acontecer. E o romance seguinte a Romance. Milão não deveria acontecer aqui, no apartamento que é a nossa casa, no escritório com vista para os telhados das casas e San Lorenzo. O romance deveria acontecer em outro continente, numa cidade que eu mal conheço. É lá que meu novo romance me espera. Mas o tempo todo eu soube que não poderia escrever esse romance antes que isso acabe. Em primeiro lugar: que fique claro o que vai acontecer com você. Que você fique bem de novo. Os primeiros dois meses depois da operação criaram uma pequena possibilidade para que isso acontecesse. Mas quando a primeira ressonância detectou metástase no fígado, microscópica, mas ainda assim metástase, eu entendi que você ia morrer e soube que o novo romance não sairia antes disso.

Por que eu não posso escrever esse romance antes que isso acabe? Porque escrever esse romance é descobrir alguma coisa, é investigar questões que não saberei quais são antes de você ir embora. Preciso mergulhar no texto e descobrir, enquanto escrevo, do que se trata. E não consigo fazer isso agora. Eu não sei o que estou sentindo. Eu não sei o que vou sentir. Quais serão as minhas questões? Eu não sei.


Você acabou de ler um trecho de Ti amo (Aboio, 2023), romance de Hanne ØrstavikGostou do que leu? Adquira-o clicando aqui.

Mais sobre a obra

Um câncer terminal levará seu marido dentro de um ano. Ele ignora a morte. E ela se volta à escrita na tentativa de preservar a própria força vital. Para a escritora Natalia Timerman, que assina a orelha do livro, Hanne Ørstavik escreve “na imbricação entre vida e literatura”.

Um dos maiores nomes da literatura norueguesa contemporânea, Hanne Ørstavik estreia no Brasil com o encantador e contundente Ti amo. A prosa comovente que a consagrou como uma autora aclamada em diversos países foi traduzida por Camilo Gomide, direta do norueguês.

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