Uma biografia cheia de “nós”

por Lara Rodrigues
Fotografia: Jardim da Praça da República – Guilherme Gaensly (Acervo Instituto Moreira Salles).

Lara Rodrigues é mineira, de Uberlândia. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. Em suas pesquisas, a literatura, o cinema e a psicanálise se sobressaem. Embora seja ainda tímida no fazer literário, costuma se (ar)riscar na escrita.


Sou bastante reclusa. Amo a paz e a calma que a solitude traz. Não me dou bem com aglomerações e nem com barulhos estrondosos. Por isso, sou devota de meus ídolos musicais no baixinho do volume do meu fone ou da minha caixinha de som e sem grandes desejos de cultuá-los ao vivo, em shows ou em meio a multidões.

Mas com a Zélia Duncan é diferente. Eu iria a qualquer show. Enfrentaria qualquer turba. Só pra vê-la em carne e osso. E se puder sonhar alto, eu largaria a timidez, seria louca louca como nunca me permito ser, iria ao camarim pra encostar em sua pele, ver que ela existe, decorar seu rosto, talvez desmaiar com a sua voz falando e seus olhos assim de perto me olhando tudo de uma vez.

Eu nem sei como foi que essa coisa com a Zélia surgiu. Foi de mansinho, uma musiquinha aqui, outra acolá, quando vi, por anos seguidos, seus álbuns estavam em primeiro lugar de músicas mais ouvidas por mim nas retrospectiva do Spotify.

E quando eu soube que a ZD estava publicando um livro pela primeira vez, fiquei eufórica. Mas transformei o meu privilégio de poder comprá-lo, e ler quando quisesse, na minha felicidade clandestina. Demorei a obtê-lo e, quando o fiz, demorei a ler. Fui de pouquinho em pouquinho, num medo gigante de que acabasse. Terminei a obra só agora, quase um ano após o lançamento. E acabei tendo vislumbres do porquê a arte dessa mulher foi se tornando um hiperfoco que me deu a mão em momentos cruciais.

Eu acho que comecei a ter um contato mais direto com as músicas da ZD depois do meu mestrado que, em si, foi um período difícil. Tive que lidar com questões densas de diagnósticos tardios de saúde mental. Vejo, hoje, que a minha dissertação foi uma busca incessante e inconsciente pela alegria – tão faltosa em mim naquele tempo, mas que seria uma certa forma de cura.

Um dia, o meu orientador, o Prof. Paulo de Andrade, me disse o que aprendeu com uma amiga: que diferente da depressão, a alegria não é egóica, pois se volta pra fora, pro outro, é compartilhada. E acho que é isso que vejo nas músicas da Zélia. Na MPB como um todo, principalmente no samba.

É isso que aparece em Benditas coisas que eu não sei. Trocas. Alegria. Sem romantismo. A Zélia é muito consciente do mundo a sua volta. Tá lá na obra a angústia do governo que nos aterrorizou nesses últimos 4 anos. A pandemia da Covid-19. A misoginia que toma conta de todos os lugares. Só que isso tudo sem o vitimista tão comum na atualidade, em que jovens, principalmente, se colocam como “gostosos/cultos/brilhantes demais pra esse mundo que não os merecem”.

A Zélia não faz isso. O que ela faz é mostrar que apesar dos pesares, os afetos ainda tão aí, as trocas existem e nos mantém sãos. Seja correndo maratonas com o Dr. Dráuzio Varella. Seja encontrando seu irmão na metade de uma corrida e a sua irmã na outra metade. Seja por todas as parcerias de que participou, convidando outros artistas ou sendo convidada. Seja no desprendimento em oferecer música e produzir um álbum inteiro com outras cantoras, mulheres, latinas, como no projeto Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz.

A Zélia fala de tudo um pouco em seu livro, do início da carreira, de composição, de letra, de melodia, da experiência do palco, de ser e de ter plateia e, nisso, tem muita gente citada. “Nós” é o pronome que se sobrepõe nessa biografia. E todas as páginas, até as melancólicas, tem uma alegria sobreposta. Eu acho que a ZD me chama por conta disso, de sua positividade, seu transbordar pro mundo, pra fora, sua coragem em se doar toda, de todas as maneiras, sempre dizendo “sim” – mesmo quando não tem certeza se consegue. Isso é viver e é tão bonito!

Eu gosto também de ouvir a Zélia falar. Gosto do seu quadro Zoio no Zoio (presente no Youtube e no Instagram), em que fala sobre tudo com esse jeito aberto de quem não se paralisa frente às indignações. Ela convoca pra briga, com clareza e elegância. E sem fru frus, é suada, depois da corrida, é do jeito que ela quiser. Porque o que importa é o que se tem a dizer.

O seu livro publicado em 2022 possui essa vibe do Zoio do Zoio, é a ZD crua e nua, falando de tudo um pouco, nos enredando e cativando a cada referência, citação, leves autocríticas e segredos que nos fazem rir, como o tal rocambole de Pernambuco que foi consumido sem talheres, num “pós-tudo”, como ela diz, em um quarto de hotel.

“Músicas, memórias, fantasias felizes” foi o que me acompanhou e alimentou a minha felicidade (não tão) clandestina. Agora é estar atenta, enquanto ouço um álbum e outro, às novidades que a Zezé sempre traz para nós!


Fotografia: Jardim da Praça da República – Guilherme Gaensly (Acervo Instituto Moreira Salles).

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