A invenção das ilhas

por Guilherme Pavarin
Fotografia: Ilha de Paquetá – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Guilherme Pavarin nasceu em São Paulo, em 1987. É autor do livro de poemas O maquinário fantasma (Urutau, 2022). Atua como jornalista, pesquisador e editor. É colaborador das publicações piauí, Quatro Cinco Um, Opiniães (USP) e Folha de S.Paulo.


A invenção das ilhas1

1Quantas metáforas cabem dentro de uma ilha? 
Quantos significados moram numa ilha fictícia? 

Platão inventou Atlântida para tratar da virtude; Cecília Meirelles fundou Nanja para se refugiar da morte; Emily Dickinson, ela mesma uma ilha, ergueu várias ilhotas para tratar de amores e espíritos. Temos também as ilhas inventadas por Shakesperare (Prospero), Cervantes (Barataria), Ursula K. Le Guin (Gunt), entre outros. 

Nesse esboço interrompido, proponho uma criação conjunta de novas ilhas —  e também a recriação de muitas dessas ilhas da imaginação.

I.

Shhhhh –
ouça,
mas ouça

II.

Toda ilha nasce
de um ou mais chiados

o bater de asas
no repouso
de uma guerra

a queda contínua
das geleiras
aos pés do oceano

(esta chuva
dentro
da chuva)

mas sobretudo
o beijo

o beijo
do fogo
antes da chama

III.

Daí o engano:
não há vulcão
que possa ser dado
como morto

se de um sismo
sonâmbulo
lavas criarem artérias
no oceano

toda água
buscará um nome
— Rocha, Terra, Pasto

e no solo virgem
quando as crianças
rirem das cócegas
nos pés descalços

sua ilha será tão clara
quanto às águas
refletidas nos olhos
dos búfalos noturnos

IV.

As coisas vãs
são as únicas
que fincam

o lírio que cai,
a máscara que escoa
pelo ralo da manhã

delas é que brotarão
as matérias de sua ilha
o inventário
de tudo que faz
uma folha flutuar

V.

Mas antes de dar nome
a sua porção de chão
procure hastear
em cascos
à deriva

(troncos, portas,
penas, flechas,
divórcios, navios)

uma asa
submersa
para o que virá

VI.

Havendo esse ontem
que levamos nas costas
como fogo bárbaro
enquanto cigarras
cantam na cozinha

haverá uma ilha
tão vasta nesta sala
tão desolada quanto
este jarro, este piso

uma terra firme para
tão tão violentos
entretantos

VII.

As palavras
elas mesmas dizem

As palavras
é que nos criam

As palavras — nossas ilhas

VIII.

Quando o mar estica sua língua
são as palavras
que tomam os barcos

incrustam suas raízes
(em nomes de amores
fugidos deuses postiços)
nas proas e nas conchas
nas caudas dos aviões
debaixo de nossas unhas

De repente temos oitocentas delas
para classificar a madureza
dos frutos
e tantas mais
para o desejo
de quem se vê
homem, bicho, mulher

IX.

Todos os dias
os continentes
se deslocam sobre o mar
na velocidade
em que nossas unhas crescem

não parece justo
alguns blocos
reivindicarem tímida
e lentamente
suas independências?

Daqui em diante, diriam,
ainda que a retirada
não seja perceptível
seremos ilhas

mas ficaremos
para todos os almoços
todos os brindes pacíficos

X.

Alguém concluirá que a ilha
nem sempre é isolada
quase nunca, física

homens e mulheres
podem gastar uma
ou muitas vidas
entre os rigores
da mente e do mar

do esforço
o nada pode ancorar
já que o que importa
aos arqueólogos
das ilhas
nunca vistas
é a busca

a busca
como soltura gentil
a busca
como quem pousa
o lençol
sobre os olhos
de um cavalo
para tirá-lo
de um incêndio

XI.

Como a mariposa solitária
que sai de um lustre

como o horóscopo de 13 de março de 1996
o dia em que nada aconteceu

sempre há como traçar no ar
um território mínimo
que circunde tão
singulares banalidades

XII.

Shhhhhh.

Comecemos, aqui,
pela questão inversa

uma interrogação
que chia pela fresta
de uma rachadura
no ventre do céu

— quais ilhas
você levaria
para um livro?


[Breve preâmbulo]

a invenção do navio é também a invenção do naufrágio

a invenção da ilha é também a invenção

da embaixadinha


A ILHA DO NANJA

Não há maior distração, na Ilha do Nanja, que contemplar as inconstâncias do céu
(Cecília Meireles)

1.

É preciso um passaporte
vencido, inútil

uma foto de um jardim
a cobrir como véu
um rosto imigrante
de séculos, vidas atrás

Na capa cabe exibir
hortênsias, uma estátua
só vista na neblina
cavalos deitados na areia

Acima de tudo
é preciso de unhas
insuspeitas

A alfândega de Nanja
exige que o autor
do passaporte
comprove ter feito
tudo o que mostra

Esta jasmim é sua?
— a Guarda Real pergunta
enquanto examina
com luvas
as manchas nos vãos
de cada dedo, cada página
como quem busca
a origem
de todas as metáforas

A essa etapa
a alfândega de Nanja
separa nós, turistas,
em três categorias:

( ) Moderadamente sensível
( ) Bastante sensível
( ) Perigosamente sensível

Os primeiros
são os que precisam
de alguma vigilância

2.

Em Nanja, ninguém
tem o outro
por estrangeiro

É comum que
banhemos os reflexos
alheios nas poças termais
onde as vinhas azuis
se agarram como noivos
aos calcanhares do vulcão

No doce vapor
vemos presépios, ananases,
laranjais, fontes secas,
tigres mansos, taças de flores

No doce vapor
dançamos entre sombras
compomos refrões
para vitórias magras
e temidos naufrágios

E ao pisar fora dali
todas as palavras
— as pausas, os refrões —
tudo, tudo se esquece

A poesia feita em Nanja
é para todos os efeitos
uma reserva natural

3.

Em Nanja
as areias agora
são ocupadas
por cães piratas
de barrigas molhadas
estendidas ao sol

Quando se acaricia um
dezenas o cercam
como uma guarda
solene de Ítaca
à espera não do afago
mas do coro
perdido das sereias

Uivam, uivam
mas não há tristeza
Uivam, uivam
aos barcos pesqueiros
lotados de mel e sal
que vêm e vão
no horizonte

Uivam à beira da praia
e a todos saudamos
sem saber quem somos

se estamos vivos
ou mortos

se estamos mortos
mas vivos

(em Nanja,
todos estão em
algum regresso)

4.

Como os dias
dentro de um dia
há em Nanja
muitas Nanjas

Suas ilhotas
se espalham
pelo Atlântico
feito folhas caídas
na manhã cheia

Há quem viva
para sempre
entre elas
mas o atrativo
de Nanja
é também sua saída

Em Nanja
todos sabem
(ainda que ninguém diga)
a ilha não é porto
a ilha não é exílio

a ilha é se muito
um convite
a se mover
pelos humores do mar

O mar que leva e traz
nossas dúvidas
para fora de si

O mar que é
o próprio verbo
a nos encarnar

o mar
o mar
o mar


A ILHA MAIS CÉLEBRE

Emily nunca nomeou uma
das suas muitas Ilhas

(perdão, Nunca)

como se os Nomes
pudessem macular
a Pureza que imaginava

Mas existiu uma delas
uma Ilha célebre
ainda que pouco conhecida

uma Ilha
vinda das Meias tiradas com os Pés
debaixo do cobertor

do Gole de Água morna que nos salva
de um engasgo
do Silêncio
deste Naufrágio

a ilha como a Canção de um Pássaro
forjada nas cidades submersas
para embalar o Sono Tardio
de quem escreve na Cama
e Nunca, Nunca publica seus Versos


Fotografia: Ilha de Paquetá – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

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