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A bandeja e o déjà-vu, conto de Raphael Luiz de Araújo

por Raphael Luiz de Araújo
Foto de Anna Carolina Rizzon para ilustrar o conto "A bandeja e o déjà-vu", de Raphael Luiz de Araújo.

Raphael Luiz de Araújo é Doutor em Letras pela USP com especialidade em Literatura Francesa. Também é tradutor de literatura e professor de Ensino Médio em São Paulo. Escreveu Prófugo, vencedor do prêmio Off-Flip de Literatura 2021 na categoria Conto. Tem participado há alguns anos da oficina de escrita avançada da escritora Noemi Jaffe e contribuiu com o conto Roda para a coletânea recém-lançada, Terra Firme e Outras Histórias, da editora Paraquedas. 


Ana perdeu de vista o que restava da bandeja, os cacos de vidro e os guardanapos ensopados, os pedaços de baguete feito esponjas numa lagoa de vinho rosé. Não sabia explicar como foi parar ali no chão, a mão esquerda sangrando e a outra à procura de apoio, entre as mesas sete e nove de um pequeno Café num país estrangeiro. Era a primeira vez que derrubava um pedido, mas parecia que de novo, um acidente previsível, déjà-vu bem debaixo do nariz. O estardalhaço silenciou a conversa dos clientes e todos os olhos choveram em cima da garçonete, incluindo os do patron, pouco surpreso com a cena.

Mal ecoou a bandeja, Ana já correu para o banheiro a fim de estancar o sangue na mão. Com a luz acesa, a sensação de déjà-vu: a caminho da mesa dezesseis, ela tropeça e lança a bandeja para a frente, espatifando duas taças e uma garrafa de vinho. A caminho da mesa dezesseis, ela tropeça e lança a bandeja para a frente, espatifando duas taças e uma garrafa de vinho. A caminho da mesa dezesseis, ela tropeça e assim seria até a torneira derramar um redemoinho de água vermelha na pia. O caco de vidro na palma da mão foi expelido, mas o líquido descendo pelo ralo embaralha a cena repetida com outras desconhecidas: ela está sendo demitida pelo patron, o casal da mesa dezesseis se apresenta no festival de música, havia um rato na parede (ou no teto?) do apartamento. O déjà-vu é uma porta esquecida aberta, a luz acesa de um cômodo vazio, a página pulada de um livro. Será que ela bateu a cabeça quando caiu?

De volta ao salão, o chão limpo pelo outro garçom, uma moeda esquecida no local da queda. Ana se abaixou para apanhá-la e percebeu uma pomba lá fora bicando a rolha do vinho como se fosse um pedaço de pão. Ao lado do bicho encardido, balançavam os pés do casal da dezesseis à espera da garrafa de rosé, agora reduzida a pedaços no lixo. Não estava claro, no meio da fumaça do cigarro, se o sentimento era de pura impaciência ou de pena da jovenzinha estrangeira, talvez tenha que pagar o prejuízo com o próprio salário.

O redemoinho de água e sangue do banheiro escorria pelos ouvidos de Ana com a valsa que executariam durante o festival de música, e ela sabia que conhecia de algum lugar aquela canção, também não era estranho o ruído do rato dentro da parede ou no teto do apartamento, muito menos a voz monótona do patron no momento da demissão. Será que bateu a cabeça? Ela ergue os olhos para um braço de sol que se infiltra no salão, por entre as folhas dos plátanos lá fora, e diz para si mesma que derrubar bandejas pode ocorrer com qualquer garçonete apressada, o que a incomoda de verdade é que alguém ali dentro, o tal do déjà-vu, esse alguém talvez já soubesse o que ia acontecer e mesmo assim fazia questão de não avisar, e ela até pensou em dizer isso ao patron, que foi culpa do presságio atrasado, uma profecia tão preguiçosa que chegou depois da própria realização, o que decerto soaria absurdo, essa ideia de lembranças-do-que-não-foi que ficavam ali ainda caçoando da sua distração. Também não seria possível explicar aquilo para o casal da mesa dezesseis, imerso na mesma fumaça espessa, cortinas dos bastidores para o festival. O único consolo é que, pelo menos agora, entre um e outro giro do torvelinho que sai da torneira, Ana já tem em mãos uma bandeja nova com pães e vinho intactos, basta se desculpar para os pedaços de gente no meio do nevoeiro de nicotina, a manga de um paletó lilás, o topo de um cabeça ruiva e o pé de um sapato surrado. Excusez-moi. Merci.

Um aceno e um sorriso do vendedor de souvenirs lá fora, diante de um lençol esticado com sabonetes, camisetas estampadas, perfumes de lavanda. Lá dentro, uma voz chamando pela garçonete: fritas, croque monsieur e salada caesar para a mesa cinco, disse o patron, articulando bem cada palavra para que a brasileira entendesse, e pedindo para ela tomar cuidado dessa vez. D’accord, patron, Ana respondeu, voltando-se para o salão com a devida cautela para não tropeçar no mesmo lugar do tombo de há pouco, a morada do déjà-vu, entre a mesa sete e a nove, e se dirigiu a um trio de turistas rosados em torno do mapa da cidade com um bon appetit.

O serviço do salão exige que ela siga adiante, mas eles permaneciam, os rastros de um futuro que ela não tinha botado lá insinuavam-se. Tamanha a vontade de prevenir outras quedas, ela descobre memórias do que não viveu. Agora sabe, sem saber, que o casal de músicos não deixaria gorjeta quando fosse embora, mas simpatizaria com ela e voltaria ao Café outras vezes antes da apresentação no festival de música. Numa dessas ocasiões, eles se chamam Hugo e Lucie, oferecem uma taça de vinho rosé e perguntam do Brasil, estiveram na Bastilha em 2005 e viram o então ministro músico brasileiro com o famoso cantor da Guiana Francesa. Em outro momento, apresentam-se na praça ensolarada, cantam a bendita valsa musette que não sai da cabeça, a ruiva enfática no acordeom, o homem com um terno e orelhas gigantes, para frente e para trás, como um plátano prestes a desabar.

O patron poderia ser mais compreensivo. Não bastassem todos esses meses sem entender o idioma direito, pulando de lugar para o outro, primeiro de faxineira, depois de au pair, até virar garçonete e descolar aquele apartamento caindo aos pedaços – só cabia no seu bolso justamente por ser minúsculo. Não bastasse o rato, novo companheiro de quarto, ameaçando o estoque de comida e coberto de doenças, agora havia o risco de ser demitida. Entre os vultos que passam por Ana, no redemoinho de água e sangue, o patron também teria dito que c’est pas possible, a bandeja é pequena demais ou os pés de garçonete são muito grandes. Por que não consegue atravessar o salão de maneira decente. E perguntas se atropelam, fortuitas, será que ele vai ter coragem de descontar do salário, o que fazer se for mesmo para a rua, mas o patron sempre tão dócil, ela só pode mesmo ter batido a cabeça.

As dúvidas são interrompidas por dois homens jovens na mesa onze. Migalhas de crepe de chocolate, resto de licor de anis, um charuto fumado até a metade. A conta, por favor, eles pedem. Tem um rato no meu apartamento, Ana responde. O quê? Um rato, ela repete, dentro da parede ou no teto, não tenho certeza, ainda não vi, mas sei que está lá. Você já tentou veneno, pergunta um deles, óculos de sol e camisa de time de futebol. Funcionou lá em casa, garantiu, e continuou a conversa em árabe com o amigo.

Rumo ao balcão, Ana apanha palavras francês, um pas de problème ou um c’est ça, c’est ça, mas o ruído das bocas logo evapora entre os lustres do salão, entre os galhos e as folhas dos plátanos lá fora. Circulando pelos corredores de clientes e assentos estofados que contornam o Café, é como se já fosse madrugada e ela subisse os quatro andares do seu prédio, pela espiral dos jogos de escada, que talvez gire no sentido oposto do sangue diluído na água da pia do banheiro, a garçonete saindo do ralo, agora para procurar o rato dentro da parede ou no teto, raspando e chiando, roendo uma baguete, uma batata e uma cebola, polvilhando o chão com patas sujas de cuscuz marroquino. O ruído regular e o bicho escondido, à deriva no meio da noite, assim como Ana depois da demissão. Na outra calçada, o vendedor de souvenirs, boné na cabeça e um dente de ouro. Aqui na mesa dezesseis, começa com J o nome do cantor na capa do livro de partituras, que serve de apoio para a acordeonista bolar seu cigarro, a cabeleira ruiva escorrendo sobre um rosto triangular, dividido ao meio pelo nariz pontiagudo, ela pergunta se Hugo quer mais um. Pourquoi pas, ele responde, e dá um peteleco numa bola de cera invisível que acabou de tirar de orelha, a outra mão desenhando semicolcheias e pausas caderno de música sobre a mesa.

Na linha paralela riscada pelo déjà-vu, na mesma página pulada pelo leitor distraído, a luz acesa daquele cômodo vazio, aquela porta que ainda não foi trancada, Ana já sabe que os músicos estão de férias, mas não queriam perder a oportunidade de um cachê enquanto conhecem melhor o sul do país. Visitariam o ateliê do famoso pintor de natureza-morta, o pequeno museu com esculturas suíças e quadros cubistas. Fariam fotos da montanha que fica atrás da cidade e tem nome de santa. Ainda tentariam descer para Marselha e depois subir para Avignon, rumo ao festival de teatro que começaria em poucas semanas. Mas antes vão tocar na praça central, sem quase trocar palavras durante o show. O repertório apenas, dedos e cordas vocais, como a descarga elétrica pelos nervos de Ana, pelos músculos contorcidos ainda, quando passa outra vez entre a sete e a nove, lugar do acidente que, como o primeiro vagão de um trem, trouxe outras cabines cheias de janelas, uma pedra que tomba no lago espalhando círculos ao seu redor.

No balcão, bandejas empilhadas refletem o salão sob os feixes de sol, se ela derrubasse outra dessas será que escaparia da alucinação que sequestrava sua vida, criando uma brecha temporal onde vai ser e não vai ser demitida, tem e não tem noites de insônia, conhece e não conhece o dueto francês, bateu e não bateu a cabeça. Talvez fosse preciso repetir tudo como da primeira vez, quando, a caminho da mesa dezesseis, ela tropeçou e lançou a bandeja para a frente, espatifando duas taças e uma garrafa de vinho, mas não seria capaz, os aromas tão conhecidos que agora caminharia às cegas, apenas guiada pela gordura nos pratos, a mostarda de um assado, o grude da cerveja no chão. Havia também os clientes e seu perfume adocicado, cítrico e com suor, o som dos talheres na porcelana, as vozes no mesmo chiado de ondas na praia. Às vezes ela afunda no mar de pessoas, se afasta do patron por qualquer coisa, arruma um jeito de ficar fora de seu campo de visão para reaparecer alheia a opiniões de que deveria ou não ter feito, se isso ou aquilo, alternativas às quais não pode voltar, mesmo arrependida, presa num déjà-vu.

Atrás do balcão, a cabeça do patron de um lado para o outro, supervisionando o que acontecia no Café, o pomo-de-adão adjacente quase furando a pele do pescoço, a testa que se prolonga até o meio do crânio. Aos sábados ele aparecia uma hora depois das portas abertas, o banheiro deveria estar limpo, o piso do salão varrido, as baguetes em pedaços, a pilha de cardápios no púlpito da entrada. Um detalhe fora do lugar, balançava a cabeça. Estivesse tudo em ordem, silêncio e olheiras. E Ana não era assim tão negligente com pedidos nem com pessoas. Fora do trabalho, quando um desconhecido acenava na rua, mesmo que não fosse claro se o gesto era para alguém que vinha logo atrás, preferia responder e errar pelo excesso de educação, também não era exigente, nunca ligou para os caroços das uvas, para as cascas das frutas, comida vencida anteontem, nem para quem espreme o meio do tubo da pasta de dente, não teria problemas caso precisasse morar com alguém, e talvez fosse mesmo necessário, as gorjetas cada vez mais raras, as bandejas e as taças que deram para desabar por aí, cortar as palmas das mãos que servem as pessoas. Que encontraria dificuldades já sabia, alguns falaram de adaptação, outros do frio e da conta de gás. Ainda estava aprendendo o francês, mas não faltou a nenhuma aula, sabia as diferenças dos sons nasais, do tu para o vous no tratamento das pessoas, dizia voilà quando trazia para a mesa um ragu fumegante. De tanto dar o valor das contas aos clientes, não achava mais tão difícil assim os números acima de sessenta nem se detinha em longos cálculos para entender que soixante-dix-neuf era setenta e nove, ou quatre-vingt-onze significava noventa e um. Se divertia com as pequenas surpresas da língua, descobrir que sou pobre de marré deci era morar no bairro do Marais ou à beira de um pântano ou então que apenas desejava dar logo o fora dali. Tomar ônibus, pedir informação, ir à farmácia, talvez fosse mesmo questão de tempo para se habituar, mas um tempo para frente, não aquela repetição, a impressão de patinar com bandejas sem sair do lugar, de estar sempre prestes a cair.

A cinco reclama do outro pedido atrasado, os mesmos turistas rosados em volta de cervejas e amendoim. Um euro de gorjeta na mesa vazia dos garotos que falavam árabe. Lá fora, a barraca do vendedor de souvenirs, ele já pediu a garçonete em casamento algumas vezes desde que ela começou a trabalhar no Café. Na quinze, o que restou de uma tábua de charcutaria e queijos. Ana recheou de veneno um pedaço de brie que ainda havia na geladeira do apartamento, espalhou outros granulados pelo chão e debaixo da geladeira, pela pia e em tudo o que estivesse no caminho do rato invasor. Dormiu mal naquela noite, os ruídos regulares dentro da parede ou no teto. Pela manhã, na frente da pia, o pequeno roedor marrom a esperava com as patas para cima, espumas e um fio de sangue ainda úmido no focinho. O corpo do bicho rolou com morosidade para uma pá de aço encardido, deixando sua marca melada no chão.

Vocês tocam valsa, Ana perguntou ao casal diante do livro de partituras. Tocamos o que o público pede, respondeu Hugo sem levantar os olhos, com uma distância que desaparecia quando ele estava no palco e encarnava o famoso cantor belga, à medida que Lucie abria e fechava o acordeom no ritmo da valsa de mil tempos. É a mesma canção do festival de música, também a mesma que circulava nos ouvidos de Ana, no fundo do déjà-vu, e que ainda insistia em girar como o redemoinho de água e sangue na pia do banheiro, como se as escolhas estivessem todas definidas de antemão, sem espaço algum para vontade própria naquela cidade estrangeira, coberta de plátanos e tons amarelos, e agora também do rosé derramado com taças e pedaços de pão, entre as mesas sete e nove, sob os olhos do patron.


Foto de Anna Carolina Rizzon.

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