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Cinco poemas ao Apartamento

por Rafael Bordallo
Desenho de Ariyoshi Kondo, uma concha entreaberta, uma cor avermelhada preenche o meio.

Rafael Bordallo é carioca e psicanalista, e está construindo um sentido para a palavra “poeta”. Experimenta e testemunha a escritura todos os dias; seja no papel como nos tropeços triunfantes das palavras que escuta. Trabalhando no primeiro livro desde o ano passado.


(…) Transforma o amanhã em caça, corre atrás dela em desespero.
Inscritas, suas palavras seguem rumo: à perdição à perdição.

 (Adonis)

I

Na breve troca de roupas
plumas puídas e mortas
pelo quarto, ocultando dentro
do travesseiro afundado
o formato do sonho.

No formato de sonho
cortinas trêmulas e incertas
como pálpebras, revelando fora
a avidez perfumada oferecida
ao observador no portão.

Na grade do portão
o favo de mel 
vertendo de dentro]   
                                   [para fora
o lento e viscoso
cio da Casa.

No interior

as velas no altar;
o amontoado extinto
de cera derretida.


II

Teu rosto ornamento encaixado
na grade fria me invadia
com a brevidade da luz
refletida no espelho —
me conjuravas o sol
num feixe tépido
de incitação
angelical.

teu brilho;
o presente oferecido
ao recato treinado à recusa
de presenças no portão.
“Nada de doces de estranhos” diziam as Mãos,
talvez a precaver o que houvesse na própria Casa
a ser oferecido de bom grado.

teu presente;
e não houve mais
                                    [a suspeição
do fantasma prometido porque passei a desejar
o teu corpo mais êxtimo, teu corpo
}fronteira{
coberto da mesma matéria prima
esquecida e cúprea
                                   [do portão].

tua dádiva
no nome de quatro letras
desenhado em graveto
na tapeçaria laranja estendida,
como um convite atrevido,
ao meu caminhar.

Jano olha dentro de mim
quando olha para longe;
para as direções secretas
para as devoções selvagens.

“Palavras de Êxodo não
constroem poemas de Casa.
Poemas de Êxodo moram em
palavras de Apartamento”.


III

Meus passos assustados
tingidos na terra batida.

Olho uma primeira vez para trás
as pegadas me constatam:
há força nos rastros.

À frente: o mundo
visto de perto difere-se dos mapas —
algo sobre a escala das coisas.
Grunhem nelas mistérios inadvertidos
pelo ATLAS. Ali estava
                                               a sacola plástica e preta,
                                               largada aos incêndios..
                                              Sinto dela alguma compaixão
                                               aliviada, como se testemunhasse
                                               uma cremação.

Ao seu lado,
uma poltrona de rasgos cansados
assistia ao fogo junto comigo;
ela já estava lá. Talvez antes
do próprio fogo. Sua resignação
de objeto descartado era
de uma ternura triste.
Penso rápido
num pai desconhecido
também cansado, talvez rasgado
que gostaria de nela adormecer.

Incêndio e rasgo
justapostos,
diálogos tácitos
entre
Destruição e Descarte.

Um ATLAS aturdido
já na primeira esquina.


IV.

Mais à frente: mais mundo.
O horizonte                 comprimido
entre fileiras de casuarinas,
O horizonte                 dobrado
com o movimento das sombras.
O horizonte                 trôpego
tal qual meus passos
laranjas.

Olho uma segunda vez para trás.
Os sons distantes da Casa advertem:
partir é tão somente
apaziguar os ruídos.

Cada passo
a despetalar o plural
lírico das cigarras.

Cada metro
a decepcionar a saudação
esperançosa dos latidos.

Cada curva
a transmigrar vozes pueris
em timbres irreconhecíveis.

Cada estrada
a ebulir o chiado pressurizado
das panelas na cadência forte
de uma locomotiva
— apaziguar ruídos;
está tudo agora
cada vez mais remoto.

Os sons indômitos,
os ruídos inesquecíveis
talvez fossem no final
os que ninguém
testemunhou;

O toque do relógio, anunciando
minutos sonâmbulos.

As notas do piano, musicando
combinações tristes.
A tecelagem da aranha;
novas sedas com as quais
bordaríamos a palavra
“família”
nos panos de prato.


V.


Visto o olhar simultâneo
                                    }de Jano
Como um escapulário.
Contemplo o mundo agora com
a mesma proximidade
das coisas que habitava.

(E tudo estala
em revelação.)

                                               os túneis subterrâneos dos ratos,
                                               as veias rizomáticas dos caules
                                               as rotas migratórias dos pássaros negros
                                               em V.

Desaproximo-me;

para habitar direções espalhadas,
rotas vivas que se pontilham
a todo instante, a todo instante.

A cadência firme de maquinista,
sustenta-se agora
na inexistência dos trilhos.
Ofereço meu nome
como ele me fez;
desenhando linhas de desejo
neste mesmo chão
alastrando terra e fuligem.

Se espalha
o pó que antes cobria meus pés
agora pelo corpo inteiro.
Sou um menino laranja,
Sou um homem de terra batida.
Sou uma sombra de cobre
estendida ao chão prometido, onde
negros cabelos acrescidos
a ponto de serem trançados
dançam impulsionados
por passos firmes—

Em minha cabeça a crina trêmula e ágil
de flâmula.
Em minha cabeça o bater de asas
em parábola.
Em minha cabeça
a gaivota pousa aberta
sobre um cavalo
fugaz.

Minha sombra é meu corpo e meu corpo é
esta quimera itinerante
onde musculatura e plumagem coabitam em festa…


Desenho de Ariyoshi Kondo.

Comment (2)

  • Cinco poemas ao apartamento me fizeram ver poesia no meu travesseiro e cortina. Relógio soando e casuarinas, detalhes de uma vida. Obrigada, Rafael!

  • O primeiro verso da II com certeza é uma das coisas mais lindas que já li na vida, mas não é como se as outras partes não fossem também incríveis, sua escrita tem uma beleza muito única, obrigado!

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