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Amor de uma semana só

por Yvonne Miller
Desenho de Ariyoshi Kondo para ilustrar a crônica de Yvonne Miller.

Yvonne Miller nasceu em 1985 na Alemanha, mas prefere o calor do Nordeste brasileiro, onde mora desde 2017. Cronista e contista, tem textos publicados em várias antologias e é uma das organizadoras e coautoras da coletânea de contos cearenses Quando a maré encher (Mirada, 2021). Pela Aboio, publicou Deus criou primeiro um tatu – Crônicas da Mata (Aboio, 2022).


Dona Fausta cachimbava na varanda quando escutou um baque bicudo no vidro. No próximo instante, o acidente aéreo se manifestou aos seus pés. Penas verdes, asas em desângulo, biquinho curvado, maritaca-estendida-inconsciente sobre a madeira. Dona Fausta logo soube o que fazer: Vou levar pro meu amor. 

Recebeu o nome de Esmeralda. Cheia de personalidade ela, Dona Manuela lembra bem. De manhã, não dava bom dia. Virava a cabeça, afastava-se nuns pulinhos, olhava de relance por cima da asa pra espiar a reação da outra. Ah, é, minha filha? Pois eu também sei fazer isso. E lá ia Dona Manuela, de cabeça virada, fingindo desinteresse. Da porta do banheiro olhava pra trás, de relance, pra espiar a reação da outra. Continuava no chão do quarto, uma bolinha verde emplumada sobre o cimento queimado. Mas era só ela começar a escovação dos dentes que Esmeralda chegava junto ao seu pé. Puxava a perna da calça com o bico, se dispunha a escalar o tecido. Mas nem precisava fazer esse esforço. Dona Manuela logo se abaixava, a escova na boca, para oferecer o dedo indicador. Levava Esmeralda ao ombro; era onde passava grande parte do dia. Na casa, no carro, no mercado; aonde Dona Manuela fosse, Esmeralda ia também. Dona Fausta chegou a se enciumar com tamanho chamego: “Se eu soubesse, teria dado pro vendedor de dindim!”.  

No sábado, dia em que Esmeralda completou sete dias com Dona Manuela, foram à feira. Manuela escolheu cenoura, macaxeira, beterraba; tudo que ainda não dava no sítio de Fausta. Inclinada sobre a mesa das hortaliças, uma rajada de vento pegou Esmeralda desprevenida. Soltou o tecido da camisa, abriu as asas, foi puro instinto. De repente, se lembrou que um dia soube voar. E voou. Por cima das hortaliças e raízes e frutas e ervas, voou. Do céu ainda olhou pra trás. Por cima da asa, de relance, espiou pela última vez a dona do ombro-lar.  

“Esmeralda!”, Manuela gritou. Em vão. 

E um vão se instalou no seu coração, nas manhãs solitárias, sem bom dia e sem plumas verdes no chão; sobre os ombros desocupados, estranhamente espaçosos.  

“Oh, meu amor, você quer outra?”, Dona Fausta acolheu.  

“Não quero, não”, Dona Manuela firme sorriu. “Foi um amor de uma semana só.”  

Serra de Baturité, agosto de 2023


Desenho de Ariyoshi Kondo.

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