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Carnívora, conto de Alice Priestly

por Alice Priestly
Foto de Luísa Machado para ilustrar o conto "Carnívora", de Alice Priestly.

Nascida dois anos após o bug do milênio, Alice Priestly é mineira-fluminense, criatura feérica, resistência poética, travesti não-binária e artivista. Coleciona diversas participações em antologias, escrevendo diretamente do País das Maravilhas. No momento, trabalha em seu livro-objeto, “enfim, estacionei”, composto por haicais e artes de sua autoria; na produção de seu primeiro romance, “Máscaras”, uma obra LGBTQIA+ de horror cósmico; e na elaboração de “Aryastrid”, um cenário steampunk subversivo de RPG de Mesa. 


A cabana exalava o odor do orvalho acumulado por décadas entre as vigas de madeira e as mobílias acolchoadas. Com delicadeza, as unhas da mulher passeavam sobre a pelagem do animal. Um urso empalhado. Especificamente um urso polar. Seus pelos recobriam a sala tal como a cera refletia a luz no chão. “Um verdadeiro milagre ainda espelhar tanto brilho”, concluiu. O local não recebia visitas desde o início de seu tratamento psiquiátrico e a decadência dos móveis se evidenciava perante os olhos de qualquer um.

— Tamanha crueldade por um tapete tão mal cuidado! — pensou ela, em voz alta. Encontrava-se sozinha naquele instante — por mais que aguardasse a reação de um interlocutor. Quando sua consciência espreitou a solidão, virou-se à porta. Observou o serviçal adentrar o carro e dar partida rumo à cidade, sem sequer se despedir. “Sem educação… ainda vou te ensinar modos”, ruminou. 

Àquela altura, suas principais preocupações se resumiam à friagem soprada pela brisa típica do Alasca. As mãos, já enluvadas, se assentavam dentro de um dos três casacos que ela vestia. Explorou a sala, mas, de fato, não se ateve a detalhes após decidir acender a lareira. As cinzas esquecidas na caixa de fogo e a falta de familiaridade com o apetrecho não colaboravam. Levou uns quinze ou vinte minutos ali, até que uma chama surgisse. 

— Bem… é apenas você e seus pensamentos, querida… Você e seus pensamentos… — expressou certo receio em suas palavras. A voz trêmula denunciava suas inseguranças. Seria o medo da solidão? A impotência diante da distância quilométrica que a separava da civilização urbana? O pânico em ter apenas sua mente como ouvinte durante uma semana inteira? Não sabia ao certo. Lembrou-se das recomendações de sua doutora: “Refletir demais lhe deixará angustiada. Evite, se possível”. Logo, procurou se familiarizar com o ambiente, subindo as escadas. 

Os estalos das brasas a acompanharam até o segundo andar. Carregou suas malas ao quarto e se dirigiu à cama. Prostrou-se entre o edredom e as mantas. Não haveria momento melhor, se não aquele, para descansar. O assobio do vento ao lado de fora, os flocos de neve debruçados sobre a janela, os raios azulados peneirados pelas nuvens, o aconchego da sonoridade proveniente da lareira… há alguns anos não sentia tamanha paz. Afinal, esta era a intenção de tal viagem, não era? “Desligar-se da correria medíocre que vazava pelas telas dos eletrônicos… da pressão e da cobrança.” Tentava se convencer de que era essa a realidade, embora fosse incapaz. Ela nunca foi boa em mentir para si mesma ou para qualquer um. Previa as falhas, mas ainda se agarrava àquele carcomido grão de fé suspenso em suas mentiras. Acreditava, de fato, que superaria seus pesadelos abandonando a verdade e se anestesiando com falácias. Seus pensamentos, no entanto, eram impeditivos e, assim, dormiu antes que tais bobagens se tornassem açoites de sua própria flagelação. 

*** 

Algumas horas se passaram e a temperatura caiu, ou melhor, despencou. No exterior, o vento recobria a humilde cabana com uma nevasca severa, digna de assustar até o mais experiente dos locais. Somando-se aos roncos das paredes e do teto, os relinchos da tempestade incorporavam uma sinfonia estrepitosa. Mesmo assim, tal melodia não a perturbou. Não que não se importasse. Na verdade, se ocupou, naquele momento, com outra urgência: um frio crescente e interminável alastrando sobre seus membros. Um frio que atravessava as cobertas e as vestimentas. Um frio que fincava suas presas no interior de suas veias e, como uma metástase, se expandia por todo o corpo.

Com as pontas dos dedos, procurou apoio para se erguer sobre o colchão. Sua cabeça latejava ardentemente, como se tivesse sido vítima de um golpe na nuca. Pegou mais uma coberta e foi à sala, preocupada. Sentia aquele frio a acompanhando como uma sombra. 

A lareira esbanjava a chama crepitante. A calefação apresentava suas funcionalidades. De relance, verificou as três janelas que se estendiam por uma das paredes — todas fechadas. Sem dúvida, tudo estava em harmonia. 

— Não tô acostumada com o clima… ou é só excesso de sensibilidade, eu acho — pronunciou, na expectativa de se sentir menos solitária.

Nada havia mudado perante seus olhos, com exceção do tapete. Notou que a pelagem do urso estava mais nítida, límpida, quase como se alguém tivesse feito o favor de limpá-la. Estranhou, mas foi forçada a ignorar: o frio ainda a atormentava. “Aquecer o corpo de dentro para fora… talvez com um chá?”, imaginou. Acatou a ideia, esperançosa. 

A cozinha era um cubículo que se alongava ao fim de um corredor abaixo da escada. Provavelmente não caberiam duas pessoas ali e, por um instante, a mulher comemorou sua solidão. Repudiava contato físico, ainda mais em ambientes claustrofóbicos. Assim como na lareira, levou uns quinze ou vinte minutos para atear a chama do aquecedor e ferver a água. 

Caçou desesperadamente uma maneira de sentir qualquer fagulha de quentura e, agoniada, inclinou a mão sobre o fogo intenso. O espanto recobriu sua face — era incapaz de sentir até mesmo o calor da chama.

— Esse frio é mesmo… mesmo real? Meus remédios, isso… isso, meus remédios. São eles, com certeza… — disse, incrédula, aos papos consigo.

Os ossos tremelicavam por todo corpo. Bufava, ofegante, já suando frio. Um riso desconcertado escapava por sua boca. Negava-se a se perder logo em suas férias, em seu descanso. O chá a ajudaria e, se não melhorasse, procuraria contatar algum serviço de saúde da região. Até deveria ter verificado o celular antes — mal sabia as horas. No mínimo, tentava se entorpecer em meio a racionalidade. “Com certeza é um sintoma das medicações… com certeza”, afirmou num sorriso desamparado. Os pensamentos inclinaram-se para uma reflexão conturbada e colérica, ao ponto do rosto, mesmo gélido, se avermelhar. Pressionou o cobertor contra o corpo e se ocupou com os uivos da nevasca e a tremura das faíscas.

Após um momento, ouviu um estrondo vindo da sala, seguido de passos pesados e desconexos. O chiado do bule reverberou pelo ambiente. Ensurdecedor. Quase derrubou a xícara no susto, mas não demorou muito para que despejasse quaisquer ervas dentro dela. 

O corredor permanecia idêntico e não havia qualquer movimentação anormal na sala. Foi então que, repentinamente, uma decadência se abateu sobre as costas da moça. Uma síncope que jogou seus sentidos ao chão e lhe permitiu notar apenas o esplendor dela — a presença. A presença que espiava pelas paredes, pelos alicerces e pelos parafusos, de tal forma que qualquer suspiro era o suficiente para excitar sua ira. A presença que reverberava ordens sobre sua pressão, prevendo os movimentos destoantes de suas vítimas. A presença que dilacerava as estranhas dos instáveis, colapsando as bases do seu discernimento. A presença que não sentia remorso por quem a incitava ou a acolhia — apenas prazer. Tal presença tomou, como uma cólera, a astúcia da senhora, que preferiu, instintivamente, correr do que permanecer estática.

Com a cabeça coberta e os olhos virados aos pés, foi, amedrontada, sem repensar suas ações. Em uma marcha acelerada, atravessou o corredor e chegou à sala. Notou que as pantufas não eram envoltas pela pelagem do tapete. A sua parada não durou sequer cinco segundos e uma baforada gélida preencheu sua nuca. O hálito era tão decrépito que preferiria sentir o cheiro de cadáveres submersos no formol. Como uma reação involuntária, partiu em desespero para a escada, ouvindo passadas na marcação de seu calcanhar. Jogou-se contra a porta do quarto e a trancou, sem tempo de encarar o que a perseguia. 

Afobada, bloqueou a porta com uma cômoda e enxugou o suor das mãos. O chá ainda repousava na xícara, mesmo com o disparate. Virou uma golada na esperança de que o calor a amparasse. Os olhos se esbugalharam, descrentes. Gaguejou. A bebida não estava quente ou sequer em temperatura ambiente. Estava, minimamente, gélida, álgida, frígida. Sentiu a gengiva contrair-se e as raízes de seus dentes trincarem. Por si só, cuspiu todo o líquido, lamentando sua decisão de ingeri-lo. A reação foi breve, pois a porta começou a estremecer com batidas repentinas. Primeiro, os toques se assemelhavam aos de uma senhorinha ao visitar os netos, calmos e suaves, depois, com o tempo, a potência e o ritmo se tornaram equivalentes aos de uma alma atormentada clamando pela abertura dos portões do inferno. A cômoda se rebatia entre a porta e o limiar dos seus pés, afastando-a.

As batidas já cintilavam o trinco da porta. Aos poucos, recuou até a janela. Ao conseguir tocar a vidraça, voltou-se. O vidro estava embaçado, mas conseguia limpá-lo rapidamente com as luvas. Debruçou-se acima do peitoril, aproximando o rosto apavorado para calcular a altura da queda. “Com sorte, a neve amortecerá meu salto.” Quando se colocou de prontidão, os batuques cessaram. A porta quietou-se. Agora, apenas a nevasca ecoava seus gemidos pelo deserto branco.

Todavia, enxergou lá, logo abaixo dela, uma silhueta prostrada e coberta por um líquido rubro. Assumiu que se tratava de um cervo, desfalecido e destroçado por garras severas que realocavam todas suas entranhas — pobre coitado. Segurou o grito com uma mão e se tornou a aproximar a face da vidraça. Um delíquio irrompeu sobre seus ombros novamente, cedendo seus sentidos àquela presença. A presença de um caçador voraz que destrincha cada centímetro do corpo de suas presas. A presença que apenas a ideia de contemplá-la bambeia as pernas e ridiculariza qualquer plano de fuga. A presença de uma criatura de pelagem albina, que caminha no seu próprio tempo, aguardando sua vítima ter qualquer expectativa de salvação antes de vê-la sofrer. Se apresentou sobre suas quatro patas, ainda envolta pela tempestade. Os calafrios da mulher desapareceram, os burburinhos da tempestade se calaram e o vidro foi recoberto por flocos de neve, bloqueando totalmente a visão do lado de fora. A moça agonizou, inquieta, almejando descobrir o que havia além. 

Enquanto se debatia, uma fenda se abriu na vidraça, implodindo estilhaços para dentro do quarto. Ali, viu o frio encravando suas garras sobre a pele, quase como se fragmentasse cada centímetro do seu corpo. Cambaleando, apoiou-se nas paredes e fitou a criatura, lá embaixo, destroçando o cervo. A troca de olhares durou alguns segundos, até que ela constatou um rompante: uma enxurrada que roubava não apenas os sentidos, mas qualquer senso de moral e ética, deixando-lhe desnuda dos comportamentos sociais — deixando-lhe fria. Tamanha frieza se tornava, lentamente, fome. Uma fome que a fazia pressionar a barriga ao ouvir seu estômago se contorcendo. Uma fome que romperia as dores que a atormentavam. Uma fome que lhe traria calor, segurança e, principalmente, sanidade. Quando notou, já estava lá embaixo. As próprias mãos cobertas por sangue anunciavam a responsável pela caça — a verdadeira fera. O odor pútrido penetrava suas narinas. Com náuseas, ajoelhou-se, lançando sua garra sobre a presa. Conforme repuxava e arrancava as vísceras daquele corpo, atentou-se que não se tratava de um cervo, mas de um humano. O corpo de um conhecido, totalmente desfigurado. Ali, sua extensão humana se esvaiu enquanto seu corpo bestial se estruturou. Os fragmentos gélidos foram expulsos e, ao menos uma vez, ela rugiu de alívio, saciada. Ao pingo de consciência remanescente sobrava uma última perturbação: por mais profano que fosse, não havia prazer maior que o daquela teatralidade canibal. 


Foto de Luísa Machado.

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