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castelos de areia

por Giovana Proença
artes-site

Até hoje admiro a minha própria coragem. Cinco anos se passaram e toda noite, antes de deitar e me permitir cair no abismo inconsciente do sono, a imagem de minha partida voltava em flashes difusos. Longe de parecer um filme, sem close ou trilha sonora. Lapsos desconexos apareciam e sumiam na mesma velocidade, deixando-me a mercê como espectadora de algo que não parecia ter ocorrido em minha própria vida. Talvez com alguma outra, uma dessas moças que vemos nas novelas, eternamente dispostas a atirar-se nas mais delirantes aventuras. Nunca com mulheres como eu. Relatos parecidos com a minha história, nos tempos de antigamente, me causariam certo ultraje. Mas se me lembro bem, despertavam uma certa curiosidade, fruto talvez de algum princípio de desejo muito bem adormecido. Como elas tiveram coragem?

Quando comento sobre meu grande episódio em mesas de restaurantes ou nas rodas de bar, quase sempre entre novas relações, costumo suscitar dúvidas aos atentos ouvintes. A primeira quase sempre é da onde eu estava partindo. Automaticamente pensava no inventário do que deixara para trás: um sobrado de dois quartos, uma cama de casal de cabeceira de mogno, a possibilidade de filhos para ocupar o segundo quarto, e um homem que levantava mais cedo para comprar o pão integral que acompanha o café, que ele me trazia em louça amarela todas as manhãs. Carlos, o homem com quem havia completado Bodas de Zinco, nossa década de vida conjugal. Contentava-me a responder apenas que parti do Rio, onde morava com meu marido – a parte do “ex” morria em algum lugar da garganta.

Eram esses estandartes que me vinham a cabeça quando meditava acerca do que abri mão no dia que me precipite ao encontro de Léon. Uma noite de ano novo como a mesma que via agora, a Lua na varanda, nada especial a diferenciava enquanto tudo desabava e eu entrei no táxi acompanhada de duas malas. Pensava apenas no filho que nunca teríamos, os nomes já decididos, se fosse menina Clara, menino Pedro. As manhãs pela orla da praia, os banhos de mar em Copacabana. Pelas mesmas ruas que o táxi cortava, Carlos e eu planejamos nossa pequena felicidade familiar. E agora eu a considerava insuficiente. Poderia dizer que pensei na vergonha de meus pais, o que diriam eles às pessoas! Na tristeza de Carlos que apenas uma hora antes anunciou que viria me buscar às oito para a confraternização, o mesmo Carlos que me beijara afetuosamente cedo ao trazer o café, o homem com quem eu troquei juras de uma vida até que “a morte nos separe” no Reveillon passado. Mas a iminência de meu encontro com Léon era uma névoa.

Tive ainda muitas chances de desistir dessa insanidade. Mas eu já havia me banhado nos mares da loucura a que fora acometida. Atirei o celular em uma lata de lixo no terminal rodoviário, temia ligações que em breve chegariam. Comprei a passagem com leve tremor. Eu poderia ter abandonado os planos que tracei com Léon como quem silencia o destino. Ao invés disso, passei a virada do milênio naquele 31 de dezembro de 2000 em um ônibus, contando o nome de cada uma das cidades que me levariam até ele.

Cinco anos já se passaram e ainda me emociono, tomada de um arrepio pela visão dele me aguardando na plataforma de desembarque do Tietê. Parte de mim duvidava que ele apareceria, no meio da madrugada, para me buscar. Estava preparada para voltar novamente ao Rio, na bagagem o abandono e nunca contar a ninguém sobre meu lapso. Mas nada disso foi preciso, lá estava ele, a camisa de algodão e barba por fazer. Nada me impediu de beijá-lo, sentindo a excitação de uma onda de liberdade crescente que transbordava, fruto do amor, eu supunha.

O terminal estava quase vazio, sentamos em cadeiras de plástico distantes de todos os outros habitantes da metrópole. São Paulo era toda nossa. Caminharíamos pela Paulista, ele me levaria aos tão caros lugares de sua infância, aos museus que eram seu refúgio, às reuniões do partido onde eu conheceria a exaltação da política. Me levaria ao campus da universidade, se formara há dois anos mas continuava a passear de bicicleta por suas ruas. Minha saudade da praia? Desceríamos para Santos aos finais de semana. Nossos grandes planos concretizados em nossa aventura. Nesse mesmo dia, assistimos ao despontar do Sol na varanda do apartamento dele. Agora nosso, uma vez que nunca mais chamei outro lugar de lar desde que lá coloquei os pés naquele primeiro de janeiro.

Tempos depois, ao pensar na catarse do fluxo de liberdade dos auspiciosos primeiros tempos com Léon, lembrei-me de minha primeira libertação, meu casamento com Carlos em uma pequena igrejinha. Minha abertura para abandonar o enclausuramento que foi minha primeira vida familiar, à rigor de meus pais. Trocar aquele ar sufocante por nosso sobrado foi o alívio de voltar a respirar, eu tinha um homem que me amava e me permitia ser amada. Nem ao menos um bilhete, ele deve ter sentido profundamente. Gostaria que ele pensasse que eu estava morta. Melhor do que ficar e ir definhando aos poucos sucumbida ao peso de deixar uma chance de felicidade escorrer. Na cama de Léon a mais fria garoa paulistana era mais quente que todas as noites do calor carioca.

Quando conheci Léon, uma parte de mim estava morta. No dia anterior, Carlos havia recebido os exames. O peso das palavras no envelope em cima da mesa pairava suspenso sobre nós. Em tentativa de deixá-las para trás eu caminhava pela Praça Mauá. Algo no meu íntimo diz que eu poderia ter vagado horas sem rumo e nada me desviaria de minha inquietação. Foi aquela voz. Grave, mas não só isso. Uma força, um arranjo compassado que não sabia explicar compeliu- me a proximidade. Eu ouvia expressões como “força trabalhadora”, “um operário para presidente”, “poder do povo”. Mais do que um aspirante a revolucionário, colocava seu coração no comício.

Ele também me notou, soube disso muito antes dele me confessar. Éramos apenas nós dois e seu discurso que era um campo desconhecido para mim na época, embora agora ele resida em minha língua. Quando tudo acabou, eu continuava lá, estática. Sem dissolver o ar de encanto, ele veio até mim e perguntou se eu era da chapa. Neguei. Perguntou se eu me interessava por política, neguei outra vez. Riu, e me chamou para tomar uma cerveja. Aceitei.

Paulistano, leonino, chamava-se Léon em homenagem a Trotsky. De mim, nada disse, nem ele mais nada perguntara. E eu o ouvi divagar por entre todas suas teorias, filósofos e sociólogos que citava como se fossem amigos íntimos. Quase senti que participei de todas as passeatas, todos os movimentos que ele conheceu nos anos de universitário. Me deixei encantar por todo aquele excesso de idealismo e desprendimento que chamei de liberdade. Eu própria me sentia livre, era a primeira vez que entrava em um bar. Me via tomando uma bebida que nunca experimentara. Eu era agora uma daquelas mulheres devassas que passavam na televisão, um tipo de moça para qual minha mãe arregalava os olhos pela afronta. E foi Léon que acendeu essa chama contida em um beijo leve na boca. Nos próximos dias descobriria minha própria selvageria em um motel, estabelecimento que nunca imaginaria pisar, a mulher que eu era. Meus pudores foram caindo como equilibristas mal sucedidos às tentações daquele homem.

Continuamos a nos corresponder quando ele retornou a São Paulo, furtivas ligações no horário em que Carlos estava no escritório. Eu lia os livros de filosofia que ele me falava, sem entender muito bem, como quem estava diante do amante despido, queria explorar todos seus gostos. Me permitia amar Léon como quem louvava um Deus, como multidões adoraram o próprio Trotsky. Meu casamento para ele não era um empecilho, necessidade da vida burguesa, ele o chamava. Assim de repente, todos os projetos que eu edificara com Carlos ruíram como castelos de areia. Eu não me dava por satisfeita com aquela vida tão concreta, vazia das idealizações que mantinham um homem vivo.

Escondia no íntimo o quanto a descoberta da infertilidade de meu marido contribuíra para o enterro de nossas esperanças. A impossibilidade de um filho para preencher o quarto ao lado do que eu dividia com Carlos sufocava meus dias vulgares, eu a culpava por abrir a cova de meu casamento. E eu lançava cada pá de terra com a vulgaridade de minha relação com Léon. Ele me dava algo a acreditar e eu o amava por isso. Quando me chamou para viver como sua companheira, foram dias em meditação. Caminhava pelos cômodos da casa, reconstituindo memórias ainda não vividas. A ideia da experimentação tangível não despertava nenhuma emoção. Quando a constatação me atingiu, não pude me ver escolhendo um caminho diferente do que me levava até Léon.

Frequentávamos bares e espaços alternativos de uma São Paulo que nunca imaginei existir. Aprendi a me vestir como as moças elegantes que via nesses espaços, surpreendi-me com um novo corte de cabelo, na altura dos ombros. Pela primeira vez eu tinha um trabalho. Conheci o mundo intelectual, hoje cito uma gama de nomes como Judith Butler e Simone de Beauvoir nas conversas de bar com as meninas, resultado de minhas leituras de cabeceira. Comemorei as eleições de 2002 na Avenida Paulista com Léon abraçando-me, lágrimas nos olhos. Tive amantes, uma coleção de casos furtivos. Tinha muito ainda o que viver, segundo Léon. Ele me sorria de longe, enquanto eu dançava com outro homem nas festas em que nos permitíamos. Aqueles três primeiros anos foram marcados pelo reinventar. Conquistara enfim, a liberdade que me parecia tão longínqua

“Será que o pardal que voa livremente sente inveja do pássaro na gaiola?” escrevo em meu caderninho vermelho, presente de Léon que cismou a incentivar meu suposto talento poético. Ele apareceu, calças de linho e camisa branca. Dois anos que tinha um trabalho fixo, era professor em uma pequena faculdade na capital. Dirigia um utilitário prata que emitia mais gases do que o jovem Léon aprovaria. Seu ardor pouco a pouco era extinto ou os ideais apenas não resistem ao mundo. De qualquer modo, nossa mudança para um apartamento maior, insistência dele, estava programada para o próximo mês. Os novos planos nos alcançavam, atropelando-nos sem que pudéssemos perceber. Sinto uma certa tontura.

Léon pergunta se não quero dar uma passada na confraternização, podemos ficar pouco, insiste. Respondo que ele pode ir, sem preocupações, ficarei bem. Ele promete voltar antes da meia-noite e me beija com ternura. Respiro fundo, repousando a mão direita no ventre. Se saísse de casa agora chegaria no Rio às duas horas. Madrugada e calor exalante, tocaria a campainha de nosso sobrado “Carlos, voltei. E trouxe nossa Clara. Ou Pedro, ainda não sei”, riria. Divertindo- me com o cenário, rumo para a cama. Na falta de um banho de mar, um descanso fará bem.


Giovana Proença é taubateana e estuda Letras na FFLCH-USP. Com experiência no teatro, atualmente colabora para a revista literária Frente&Versos. Escritora de primeira viagem, publica contos e se arrisca na poesia.  

Comment (2)

  • Maravilhoso. Parabéns. Em tempos tão turbulentos que a ignorância nunca chega ao pico, escrever contos e poesia é espetacular.

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