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Ernestinho

por Leonardo Garzaro
Foto de Luísa Machado para ilustrar o conto

Leonardo Garzaro é escritor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O Sorriso do Leão (Rua do Sabão, 2021), teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe.


Disseram que naquela terra havia um homem que guardava nomes, e encontrar a cidade, a rua e a casa foi mais fácil do que concebera antes da partida. Quando foi preciso pedir informações, sentiu que anunciava o destino por mera formalidade, os carroceiros, vendedores e donos de estabelecimentos já cientes de onde ia, como se lhe conhecessem a necessidade pela expressão ou por ser simplesmente para onde todos se dirigiam. Respondiam apontando o braço de forma genérica, mas eficiente. Bastava ir naquela direção e perguntar novamente, um pouco adiante, sem necessidade de se detalharem os nomes que os políticos haviam escolhido para as estradas, desvios e pontes. A jornada era longa, e o jovem cavalo, recém-adquirido, oferecia montaria confortável. Apesar de avançar por sítios novos, dos quais só ouvira falar, a naturalidade com que as indicações dos caminhos eram oferecidas davam-lhe a agradável sensação de estar nas cercanias da cidade natal.

Era uma casa modesta numa rua movimentada, inundada pelas vozes elevadas dos mascates e passos dos pedestres. As pedras do calçamento eram antigas e bem colocadas. De cabeça baixa, reparou nelas, bem como na sujeira dos calçados: envergonhou-se da condição na qual se apresentaria. Um cavalo elegante amarrado do outro lado da rua, a barra das calças e os sapatos enlameados… Bateu as pequenas mãos contra o tecido como se pudesse assim limpá-lo, desejoso de imediatamente abandonar a posição diante da porta e buscar nas lojas próximas uma roupa apropriada. Por fim, desistiu. Ergueu o rosto apenas o suficiente para bater à porta e dobrar a maçaneta, passando da luz da rua para a penumbra do ambiente, dobrado sobre o próprio corpo, tentando diminuir-se: haviam-no alertado de que ninguém responderia ou viria abrir-lhe a porta. Explicaram que era preciso proceder como se chegasse à residência dos parentes próximos.

— Licença…

Conforme os olhos se acostumaram à pouca luminosidade, distinguiu a longa mesa de madeira. Sentado detrás dela, o homem a observar as páginas abertas de um enorme livro. Havia uma estante, três ou quatro pesados volumes lá acomodados e, além desses, algumas peças de coleções diferentes, cadeiras de distintos formatos, doadas por distintas generosidades. Aproximou-se reparando na madeira do piso, uma vez mais nos desastrosos sapatos, e se sentou na ponta da cadeira, sem fazer peso, pronto para partir ante a mínima indicação de desagrado do guardião de nomes: parecia jovem, vestia um terno bem cortado. Reparou que o enorme livro continha incontável sequência de nomes, uns sobre os outros. Perguntou-se se, ao final da cena, seu nome estaria ali registrado.

— Eu… Eu preciso de um novo nome… Eu me chamo Ernesto. As pessoas me chamam de Ernestinho…

O guardião de nomes enfim ergueu os olhos, e encarou-o demoradamente. Fixando o tampo da mesa, reparando numa minúscula marca de tinta ali depositada por descuido, iniciou a narrativa em voz contida, dedilhando as palavras para contar que era o encarregado de uma fábrica de couros, responsável não pela parte técnica, embora dela algo entendesse, mas pela gestão dos funcionários. Cabia-lhe controlar os horários de chegada, saída e almoço, pagar os salários, decidir sobre os adiantamentos sempre solicitados. Tinha de ser firme, impor autoridade e disciplina aos curtidores de couro, homens rudes que trabalhavam encharcados, vendo como adversários qualquer tipo diferente deles, em especial um homem como ele. Fora este seu trabalho de toda a vida e, além do trabalho, os pais vivendo no mesmo terreno, o casamento com uma moça conhecida da família, pouco estudo, nenhum filho, como único problema o cachorro da vizinha que latia muito e somente de madrugada, lhe atrapalhando o descanso. Ninguém além dele, aliás, incomodava-se com o cachorro: adoravam o bicho, não escutavam seus achaques na madrugada, a esposa chegando a sugerir que Ernestinho sonhava com aquilo. Por fim, deixou de se importar, apesar do sono entrecortado: com o bom trabalho e a boa casa, atribuía aquilo à impossibilidade de a vida ser perfeita. Todo homem precisava de algo para se queixar; cabia-lhe suportar o cachorro da vizinha…

O trabalho na fábrica e as relações com os curtidores eram facilitados pela presença de Jasão, o responsável pela técnica, ele sim o entendido. Primeiro funcionário da fábrica, ali desde que a primeira pele fora tratada, contava com o respeito dos curtidores, mesmo dos mais jovens e impertinentes. Controlava-os com o olhar. Tinha alguma idade, mas, ainda assim, poderia derrubar dois homens sem sequer suar. Talvez suando um pouco. Jasão tratava Ernestinho com absoluto respeito e deferência, chamando-o de doutor Ernesto. Fazia questão de ser repreendido caso se atrasasse — gostavam de um futebol e um gole de aguardente durante a pausa para o almoço, e às vezes perdiam ali alguns minutos a mais — e os demais tomavam-no como exemplo. Graças a estes dois pilares, Jasão e Ernestinho, a fábrica se mantinha disciplinada e lucrativa, entregando um produto de qualidade.

Diante do homem desfeito, do outro lado da mesa, Ernestinho com o papel timbrado, a caneta na mão direita aguardando que Jasão contivesse as lágrimas e assinasse.

Havia, contudo, o mercado. Ernestinho notou um primeiro sinal de que o ano seria diferente quando o patrão questionou a soma das horas extras pagas, pedindo que detalhasse os motivos de cada minuto de trabalho além do contratado, acusando os trabalhadores de propositalmente atrasarem a produção. Seguiu-se toda sorte de cortes de custos, cabendo a Ernestinho garantir que bebessem menos água durante a jornada e que se contentassem com um almoço parco no refeitório. Alegava-se que as políticas federais de câmbio haviam tornado a fábrica obsoleta de um ano para o outro, mesmo que nada houvesse mudado. Nas lojas da região surgiam botas e luvas baratas, de péssima qualidade, mas que ainda assim os consumidores preferiam.

No dia em que o patrão chamou-o e determinou que demitisse um décimo dos funcionários, começando por Jasão, foi como se lhe tivessem entregado uma faca e a ordem expressa de matar o próprio filho, que ainda não nascera. Por que o patrão não demitia Jasão ele mesmo? Porque era este o trabalho de Ernestinho. Se não fosse capaz de fazê-lo, podia se considerar dispensado, com a honra de ter sido comunicado diretamente pelo proprietário. Naquele dia, deixou a fábrica sustentando um fardo cujo peso testava o limite de suas forças. Percebendo seus modos e expressões transtornados, o rosto pálido, as poucas palavras, colegas de trabalho e familiares perguntavam-lhe o que havia consigo, se podiam ajudar em algo. Ernestinho apenas os afastava e baixava ainda mais a cabeça, sem responder. Demitir Jasão… Poderia demitir toda a fábrica, mas não aquele homem. Se Jasão ganhava mais do que todos, era porque seu trabalho valia mais do que o de todos. Mas era fazer ou deixar que outro executasse e ainda assim ser dispensado. A noite insone foi ainda perturbada pelo cachorro da vizinha, que parecia possuído por uma força maligna no meio da madrugada. Demitir Jasão… Como poderia?

Não poderia abdicar da tarefa, conforme o patrão lembrava-lhe a cada novo dia de indefinição. Seis noites insones, seis dias mal posto no próprio corpo. No sétimo dia após a ordem, pálido, o cabelo despenteado, viu o patrão ignorar-lhe. Conversava, entretido, com um jovem promissor, recém-formado no curso técnico-administrativo: imediatamente Ernestinho mandou preparar os papéis. Recebeu Jasão a portas fechadas, o outro despreocupado com a convocação, imaginando que a expressão aterrorizada de Ernestinho guardava qualquer problema que o experimentado curtidor resolveria com facilidade. Com a voz baixa, incapaz de encarar Jasão nos olhos, explicou a questão da desvalorização cambial, que de fato não entendia, mencionou a gratidão que sempre sentiriam pelos anos de serviços prestados à fábrica, garantiu que todos os direitos lhe seriam pagos corretamente. E anunciou a demissão.

O rosto paralisado de Jasão… O sorriso e a segurança do homem a se desmancharem…

Primeiro Jasão pediu para ver as contas, afirmando ser impossível a fábrica estar em prejuízo, incapaz de pagar-lhe o salário: conhecia aquele negócio. Depois, ameaçou abrir ele mesmo um curtume, fazer concorrência à fábrica, praticar preços abaixo do custo. Por fim, falou da neta que sonhava ser médica, afirmou que sem o emprego não poderia custear o curso preparatório… Chorou. As mãos enormes sobre o rosto, as costas convulsionando, a dor pulsando o corpo com força tamanha que parecia possível derrubar as paredes. Uma barragem que rebentava, levando o gigante consigo. Diante do homem desfeito, do outro lado da mesa, Ernestinho com o papel timbrado, a caneta na mão direita aguardando que Jasão contivesse as lágrimas e assinasse.

Quando finalmente tomou ar e se controlou, Ernestinho entregou a caneta, apontou o local onde deveria assinar e passou o recibo. Entregou as cópias dos documentos e o encarou. Estava feito.

Quando o guardião de nomes deixou de fitá-lo e apanhou a caneta, ele engoliu em seco, temendo receber um nome tão cruelmente horrível que o faria desejar novamente ser o Ernestinho…

Jasão deixou a sala incapaz de se sustentar, caminhando lento, dobrado sobre si, como um espancado. A ele se seguiram outros seis funcionários, que entraram na sala à espera do golpe, sem poder responder ao firme olhar de Ernestinho. Reagiam entre ameaças e lágrimas, entre acusações vazias à direção da empresa ou à moral de Ernestinho, mas nada se comparava à reação do primeiro. Não mais o abalavam: após executar a pior das demissões, sentia-se melhor do que nunca, pleno de si, forte como se estivesse montado nas costas de Jasão e, da imensa altura, comandasse os homens. Deu a notícia ao patrão e entregou os documentos assinados, orgulhoso de si, o queixo erguido. Aceitou os cumprimentos pela sentença executada, concordou que a partir dali um glorioso futuro se anunciava para a fábrica, avisou que sairia mais cedo. Simplesmente avisou.

Naquela noite, possuiu a esposa como nas histórias que os homens contavam, exigindo do recato da mulher as disponibilidades e extravagâncias que juravam só existir no porto. Quando o cachorro da vizinha lhe cortou o sono, ergueu-se da cama, cruzou o quintal, pendurou-se no muro e atirou o sapato na direção do bicho, acertando-o. Na manhã seguinte, anunciou aos pais que se mudaria dali: cansara de viver no terreno alheio. Declarou ainda que não mais deveria ser chamado de Ernesto, muito menos de Ernestinho: sempre odiara o nome, nada tinha a ver consigo. Gastou as economias familiares no cavalo que sempre sonhara cavalgar. Concedeu-se, como chefe do departamento pessoal, extravagantes trinta e cinco dias de férias remuneradas, utilizados para, montado, ir ao guardião de nomes. Apresentou a demanda: precisava de um novo nome, o antigo nada lhe dizia. Trazia consigo as críticas dos familiares e os elogios do patrão, entre as pernas a força do jovem cavalo: nada daquilo lhe valia sem o novo nome…

O guardião de nomes encarou-o demoradamente, sem nada a dizer, levando-o a se perguntar se, em algum momento, pronunciaria qualquer sentença. Diziam que rebatizava gentes com interesses políticos, que em breve se lançaria candidato a deputado federal numa chapa imbatível. O caminho até ali se mostrara infestado de comércios que lhe faziam referência; vendia-se o mel do guardião de nomes, o pão preferido; a cachaça, que antes era a “do rei” ou “do padre”, então homenageava o nomeador. Por um instante perguntou-se que tipo de homem tinha diante de si, o que o colocava à altura de guardar os nomes, por que ele e não qualquer outro — não seria o certo ser um doutor do estrangeiro a fazê-lo? Quando o guardião de nomes deixou de fitá-lo e apanhou a caneta, ele engoliu em seco, temendo receber um nome tão cruelmente horrível que o faria desejar novamente ser o Ernestinho…

— Jasão. Este o nome.

Após o elegante desenho da primeira letra, surgiu a palavra toda. Soube que nada se esperava dele, exceto que se retirasse. Voltou à rua passando as sílabas pela língua e, quando montou o cavalo, percebeu que sorria: Jasão. Este seu nome! Cutucou o cavalo com os calcanhares, conclamando-o a acelerar apenas para sentir os músculos do dorso do animal se movimentando entre suas pernas. Ansiava voltar o mais depressa possível, mostrar aos curtidores de couro e à família que Jasão lá estava, sempre de cabeça erguida, pronto para, sozinho, garantir o funcionamento da fábrica. O outro poderia tê-los decepcionado, envergado sob o peso do nome: o nome jamais se dobraria. A vasta planície, o sol excessivo, as feras ocultas, e mesmo o patrão, com suas teorias mercantilistas, se submeteriam, como sempre, ao invencível Jasão.

Quando chegasse, mandaria matar o jovem cavalo e usaria o couro para fabricar, ele mesmo, as mais confortáveis botas: o animal seria grato. Certamente, já se sentia honrado por ter Jasão sobre o lombo.


Você acabou de ler o conto Ernestinho, parte do livro O guardião de nomes, de Leonardo Gargazo, que será lançado em agosto pela Editora Rua do Sabão. Acompanhe a Rua do Sabão nas redes sociais para não perder este lançamento!

Adendo: A quem interessar, uma tradução do conto, por Emyr Humphreys, está disponível gratuitamente na Latin American Voices / Voces Latinoamericanas. Confira clicando aqui!


Foto de Luísa Machado.

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