• 0

    Frete grátis a partir de R$ 110

Nome de batismo: Calamidade, conto de Wuldson Marcelo

por Wuldson Marcelo
Recorte do quadro

Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e graduado em Filosofia (UFMT). Autor dos livros As luzes que atravessam o pomar e outros contos (Editora TantaTinta Cuiabá, 2018), Obscuro-shi – Contos e desencontros em qualquer cidade (Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2016) e Subterfúgios Urbanos (Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2013). Além disso, é cineasta, roteirista e curador de cinco edições da Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso, entre 2017 e 2022. É membro do Coletivo Audiovisual Negro Quariterê e um dos editores da revista virtual de arte e cultura Ruído Manifesto.


I

André dirige a cena. Romualdo, Sardinha e Tevez já estão cansados de bater em Miguel.

– Agora chega, caralho! Rufar um filha da puta desse cansa a gente; reclama Sardinha.

André concorda, pois não pensa em matar o sujeito.

– Miguel, escuta bem, porra! Nunca mais apareça na frente da Angélica. Se eu souber que ficou a menos de mil metros dela, eu corto fora suas bolas, tá entendendo?

O jovem assente com um movimento de cabeça e expele sangue pela boca. O olho esquerdo fechado pelos socos. 

– E fica pianinho! Aqui foi quatro contra um pra você sentir a diferença entre você e a Angélica em força.

Quando André entrega Miguel para Mirandinha, a cidade já está anoitecida.

– Ele tá vivo! Logo tá pronto pra voltar a ser o vagabundo de sempre.

A dor da mãe se silencia diante da convicção do rapaz que acaba de espancar o seu filho. “A solução não é a violência”, é a única frase que Mirandinha consegue sussurrar, de modo quase inaudível para uma noite de calor e anúncio de tragédia. 

II

Aurélio observa o filho entrar devagar em casa, evitando fazer ruído, tal qual na flor dos seus 15 anos, quando estava perdidamente apaixonado por Simone, uma amiga de infância.

– Filho, você se lembra das tuas fugas por causa da Simone? Pulava a janela e voltava às duas da manhã tentando não acordar ninguém.

André acusa a surpresa, mas logo é tomado por um sentimento de nostalgia. Sorri para o pai, mas logo, meio envergonhado, esconde as mãos para que Aurélio não perceba as marcas nelas e o sangue seco.

– Noite agradável, filho?

– Sim!

III

Às oito horas da manhã, Angélica chega à escola. Sem sobressaltos no caminho. Nem Miguel, nem seus recados enviados por “amigos”. Permitindo-se o luxo de sentir algum alívio, ela assiste às aulas, depois de mais de três meses de intranquilidade e medo constante. O único problema é Ana Beatriz, irmã de Miguel. Antes do sinal da última aula soar, Angélica fica sabendo que a menina não foi à escola no dia.

– Diz que comeram o irmão dela na porrada. Acabaram com ele. Diz que a mãe obrigou Aninha a cuidar dele.

Angélica escuta com calma o que Nenê conta. Porém só consegue pensar que daria tudo para não ser envolvida na história. “Que não tenha nada a ver comigo. Pelo amor de Deus!”, sussurra, sem ser entendida por Nenê.

IV

André faz a entrega de lanches no curso de Trader Profissional. Suspira aliviado por hoje não ouvir piadinhas racistas. “Nesta tarde, não”, repetia como mantra antes de entrar. Agora comemora não precisar dar cabo de um dos engravatados infelizes.

Quando retorna à lanchonete, já há um novo pedido. Desta vez, precisa sair do Centro e cruzar a cidade. Na angústia de pensar no preço da gasolina, fica um tempo parado e escuta a conversa de dois entregadores.

– O filho da puta fica por aí dizendo que é isso, que é aquilo. O apelido dele é Sueco, não é? Agora, e nós? Nossa descendência foi perdida no tráfico transatlântico. Como te chamam? Negão. É um apelido genérico. Que não é apelido, na verdade. É um carimbo de indiferenciação. Já ele fala com orgulho. O lance é que, pra burguesada, você que é entregador, trampa mais de 12 horas por dia, é sempre suspeito, mesmo com uniforme e na labuta. Me diz uma coisa, e esse Sueco? Finge ser importador, vende drogas e tá sempre por cima. Entende a situação, né!?

André dá partida na moto, ganha velocidade e sai cortando os automóveis. O dia será difícil, como todos os outros e os futuros, com Migueis e Suecos a deixá-los mais intragáveis e temíveis.

V

Mirandinha passa a manhã toda em frente à delegacia, sustentando a dúvida de denunciar ou não a agressão sofrida pelo filho. Uma violência covarde, grita para si mesma, trancafiando a dor que a situação não permite que exploda. “O pai dele saberia como agir. Mas tenho até medo de pensar nisso”, esconde o rosto com as mãos. “Onde eu errei?”, pergunta-se como a derradeira reflexão antes de tomar o rumo de casa, pensando na preparação do almoço, para que Ana Beatriz não precise assumir todas as obrigações.

VI

Angélica sobe as escadarias da Igreja Nossa Senhora do Rosário. Ela teme que a situação piore. “Por que esse cabeça de bagre tinha que se envolver?”, censura o irmão, sempre esquentado e dividido entre o trabalho honesto e os amigos que ainda pensam estar numa gangue. A alguns metros de casa, percebe que está sendo seguida. Três garotas apertam o passo para alcançá-la. Angélica se sobressalta, mas permanece firme, desconfiando que a provável abordagem deve ter algo a ver com Miguel.

– Ô, guria! Angel! Para aí; ordena a menor das jovens, que parece liderar as duas altas, de mais ou menos 1,70m. 

Angélica para e as encara sem medo. A menina se aproxima até ficar a uma distância mínima do rosto da irmã de André.

– Olha, a Ana Beatriz não está zangada com você. Ela entende a situação. 

– Que bom! Eu…

– Cala a boca!; a jovem interrompe, – O André, pelo que eu soube, desfigurou o Miguel. E tudo isso por uma santinha igual a você. Não sei o que ele viu. Tão sem sal, tão sem graça! Né, meninas?

As outras duas concordam sem dizer uma palavra.

– Eu nunca dei qualquer brecha a ele e…

– Cala a boca!; a garota aumenta a intensidade de sua revolta.

De repente, Aurélio surge na esquina, sacolas de compras na mão direita. 

– Meu pai!; informa Angélica, já correndo em direção ao homem.

– São suas amigas, filha?

– Sim. Melissa, Kelly e Ana Celeste. Vamos, pai? Tchau, meninas!

Os dois se afastam para a indignação silenciosa da líder.

– O meu nome é Débora, não Ana Celeste!; diz uma das jovens altas, que recebe um olhar fulminante de desprezo da menor delas.

VII

Aurélio visita Mirandinha, para surpresa da mulher e de Ana Beatriz. Angélica decide não acompanhar o pai, justificando ter tarefa da escola para fazer. Ela não quer que o pai veja Miguel, porém não tem força para convencê-lo a não ir. O único argumento plausível seria a verdade.

Aurélio está alheio ao constante assédio sexual de Miguel contra Angélica. Principalmente a ameaça de estupro relatada por Papagaio e Mariana, casal de namorados que ouviram o jovem jurar que Angélica seria dele, mesmo que a tivesse que pegá-la à força.

O pai de André se senta confortavelmente no sofá da mãe de Miguel. Duas pessoas que se conhecem há décadas, vivendo no bairro Bandeirantes. A mulher esconde sua dor, mas o homem percebe algo de errado com a amiga. Mirandinha evita olhar para Aurélio. Ela sabia o que Miguel andava fazendo com Angélica. Ana Beatriz havia contado, com um misto de desilusão e nojo. 

– Pelo teu jeito, ainda preocupada com Miguel fazer parte da turma daquele Sueco? Pena que o compadre não está aqui. Que Deus o tenha! Nós dois já tínhamos dado um jeito nele.

Mirandinha, ao ouvir Aurélio, e a despeito da lealdade do amigo, soube, mais do que nunca, de onde veio a fúria e a teimosia das “crianças”.

– Meu marido não era tão bom assim, né, Aurélio? Digo, corrigir moleques com violência não é o certo! Ainda mais pra um policial.

– Ora, comadre! Primeiro que o tal de Sueco não é moleque. Bicho tem até barba. E corretivo serve pra endireitar. Se bem que nunca bati no André e muito menos na minha princesa; responde o policial militar da reserva remunerada, ex-tenente-coronel Aurélio Cavalcante.

VIII

Miguel, de olhos abertos, na cama, sem se mexer por causa da intensa dor, somente balbucia uma sentença, que Ana Beatriz consegue ouvir e se arrepiar de medo.

– O Sueco vai acabar com esse filho da puta do André.

IX

Angélica aguarda André para lhe falar algumas verdades. É preciso que ele compreenda o tamanho da encrenca em que está metido.

“Não sei como tem guria que gosta de um traste como o Miguel. Quem são aquelas três?”. Aurélio chega em casa, interrompendo os pensamentos da filha.

– Há uns 30 anos, mais ou menos, aprendi que cerveja é bom antes do almoço e antes do jantar. Só uma garrafa. Mas azeda o paladar. Fora isso, minha filha, álcool é pra acabar com a vida da pessoa.

– Que exagero, seu Aurélio!; sorri Angélica para o pai.

X

André está em um bar no Centro Histórico de Cuiabá. Recomenda cuidado a Romualdo, Sardinha e Tevez.

– Escuta aqui os três, cautela e atenção total. Não sei como é a relação do Miguel com o Sueco, se são amigos e tal, mas o Papagaio disse que o filho da puta protege quem anda com ele. Tanto que o Papagaio já se mandou pra Juiz de Fora com a Mariana, pra não pagar de dedo-duro, saca? Agora, essa porra do Sueco sabia o que o vagabundo do Miguel tava fazendo com a Angélica, então eu não ia esperar pra resolver. Da minha família cuido eu!

– Pra nós já tá tudo certo! Tenho um camarada que me arranja dois oitão, que vou dar pro Sardinha e pro Romualdo. E eu já tenho um berro, mano!; informa Tevez ao amigo. 

– Beleza! Eu peguei um dos revólveres do meu pai. 

Nesta hora, três viaturas da PM param na praça. Os jovens se olham, principalmente André e Tevez por estarem armados. No entanto, os policiais se dirigem a um dos bares para uma batida. 

XI

Na manhã seguinte, na escola, Angélica fica frente a frente com Ana Beatriz. Algumas alunas e alunos param ao redor delas, como que esperando um acerto de contas, uma vingança.

Ana olha para a amiga que, diferentemente do encontro com as três garotas desconhecidas, se encolhe, não conseguindo transmitir segurança. A irmã de Miguel avança e surpreende Angélica, abraçando-a. 

– Eu estou atrasada para te acolher, né!? Sinto muito por tudo que você passou!; sussurra no ouvido da amiga.

Os presentes observam a cena decepcionados e se dispersam aos poucos

O caminho até a sorveteria é silencioso. Elas se olham como se buscassem reconhecer uma à outra após uma longa separação. Pedem a mesma mistura de sabores: banana, café e milho.

– Peculiar o seu gosto, madame; diz Angélica à amiga.

Risos e uma conversa banal sustentam o clima até a hora que Ana Beatriz se sente confortável para revelar à Angélica o que sabe.

– O Sueco vai atrás do André. Você tem que contar pro teu pai toda a história. Não esconder nada. 

Angélica fica em choque por um medo triplo: de estar traindo o irmão, de Sueco ameaçar a vida dele e de contar para o pai o que havia escondido por vergonha.

– A culpa disso tudo é minha, Aninha!

– Não é, Angel! É desse Sueco que levou o Miguel pro mau caminho. Ele não era assim. Mas…

– Mas o quê, Aninha?

– Sinto que meu pai e tio Aurélio podem ser piores.

Angélica olha incrédula para a amiga, até meio ofendida. Porém não tenta defender o pai e nem a recrimina. Alguns fragmentos da infância passam pela sua mente, cenas de saídas misteriosas dos homens e o não dito e olhares de censura regendo a relação entre eles e as mulheres, isto é, a mãe e a tia Mirandinha. Elas se despedem com o mesmo ritual, um abraço demorado e um “durma bem, Aninha”, “durma bem, Angel”.

XII

A moto de André voa pela Avenida Fernando Corrêa. Ele entrega um lanche numa loja do shopping center. Quando sai, percebe que uns homens observam sua moto, estudam-na como se precisassem decifrá-la. André não se mexe, apenas observa ao redor. De onde está, nota um Toyota Corolla preto, com três homens e uma garota dentro.

– Sueco. Filho da puta!

Um dos homens rasga a roda traseira da moto com um canivete. Neste momento, conduzindo pela certeza de matar ou morrer, André sela o seu destino.

– Romualdo, fala pro Tevez que a gente vai pegar o Sueco e vai ser hoje. 

André precisa esquematizar um plano, pois não é possível encarar o Sueco sem esperar que algo dê errado. O jovem liga para o patrão e inventa uma desculpa para se ausentar. 

– Chefe, uns filhos da puta jogaram tachinhas na rua, aqui no Jardim das Américas. Vou levar a moto para conserto, porque caí e ela deu uma avariada. Meu tio Oscar tem uma oficina. Logo ele resolve.

André aguarda os capangas desgrudarem da moto e Sueco partir para começar a se movimentar.

XIII

Aurélio escuta atentamente Angélica contar sobre os três meses de angústia, de medo, de noites mal dormidas provocadas por Miguel e o que comentam sobre a violência cometida por André.

– E vocês cresceram com esse maldito!; Aurélio bate na mesa.

Angélica se apavora, sabendo que agora não tem volta, e, pelo olhar do pai, confirma as palavras de Ana Beatriz, “sinto que meu pai e tio Aurélio podem ser piores”.

– Hoje, você dorme na casa da Cássia. Na tua tia, você estará em segurança.

– Posso convidar a Aninha?

Aurélio vê o rosto preocupado da filha. A companhia da amiga de infância a acalmaria com certeza.

Ao buscar seu revólver, percebe que uma das armas não está no cofre.

– Porra, André! Como esse guri descobriu a senha?

XIV

Mirandinha autoriza Ana Beatriz a passar a noite fora de casa. Lê nos olhos do amigo que o pior está por vir.

– Poupe meu filho, por favor! Eu não tenho defesa contra vocês. Seria a polícia, mas…

– Mirandinha, ele é filho do Alberto, meu parceiro, meu irmão. Vamos endireitar o Miguel nem que seja na porrada.

A mulher esboça um sorriso, lembrando que o marido, morto em serviço, e o grande amigo foram acusados de pertencer a um grupo de extermínio. Sem provas concretas, o caso foi arquivado. Agora ela está diante dele, tentando implorar pela vida do filho, porém sem sentir convicção. “Que mãe eu sou!?”, lamenta-se, deixando escorrer uma lágrima imperceptível para Aurélio e Ana Beatriz.

XV

André é parado numa blitz falsa. Sargento Antenor recolhe a arma e conduz o jovem à delegacia. André, sentado num sofá, toma café e não presta depoimento.

Antenor se aproxima de André.

– Eu sou amigo do teu pai. Liga pros teus parças e cancela a merda que vocês iam fazer. Quero todos os queimantes na minha mesa em menos de uma hora.

XVI

Meia-noite de uma quinta-feira do mês de setembro. 2022. Bairro Jardim Cuiabá.

Aurélio estaciona numa das ruas. Espera. Logo um Fiat Argo encosta atrás dele. Descem dois homens e uma mulher. Uns segundos depois, surge uma picape, trazendo mais dois ex-policiais.

– Virando a esquina, quase próximo à clínica oncológica, tem a residência de um sujeito que enriqueceu vendendo móveis. Até aí tudo bem. O ponto é que o filho dele é traficante. Um playboy que vende droga na alta roda, superviolento na periferia. Mas é o sujeito da grana e dos contatos. Na mansão tem seguranças. Então vamos com tudo. 

Aurélio se dirige à ex-major Ingrid, separa-a do grupo e conversa ao pé do ouvido com ela. Ingrid entra na picape e vai cumprir a missão que lhe é designada.

XVII

Cássia serve o jantar para as meninas. Adolescentes de 16 anos. Aninha e Angel se encaram, temem o resultado da noite. De dormir com um fio de esperança e acordar com alguma tragédia batendo na porta da tia. 

– Eles sabem guerrear. Talvez não amem ninguém, talvez amem demais; disse Ana Beatriz.

Angélica observa a amiga, que está mais taciturna do que o normal.

– A nossa vida vai mudar, Angel.

Elas se abraçam e não conversam mais. Deitam-se e seguram a mão uma da outra.

XVIII

Miguel consegue ficar em pé e, finalmente, come por conta própria. Mirandinha olha para o filho, quer dizer tanta coisa, repreendê-lo, entregá-lo para polícia protegê-lo. Mas sabe que isso não passa de ilusão. Miguel pediu pro Sueco a cabeça de André. Essa é a vida do filho. Uma relação de amizade com um filhinho de papai traficante. Ele, que foi criado ao lado de um agente da lei. Pai policial. Mirandinha não pode se dar ao luxo de ser ingênua, de acreditar que não foi a brutalidade de Alberto que corrompeu o filho. Tudo que lhe foi ensinado sobre ser homem, não levar desaforo para casa e pegar aquilo que lhe pertence. 

Lá fora, há barulho. Mirandinha respira. Aurélio não irá perdoá-la. Assim como Alberto não perdoaria a surra que André deu em Miguel. Um corretivo se paga com um corretivo. Umas bofetadas, uns hematomas para deixar lembrança. Agora, pedir para matar, que executem um filho. Aí não! Imperdoável.

Ingrid, de máscara, lidera mais dois homens. Entram e rendem Mirandinha, que não chora, e conduzem Miguel até o quintal. 

– Ingrid, é você?; pergunta Mirandinha.

– Eu sinto muito, mulher!

Injetam heroína nas veias do rapaz. Overdose. Miguel está morto. 

– Então estão de volta à ativa? Policiais fora da lei, matando marginais, limpando a cidade; Mirandinha grita.

– Calma, Miranda! Eu… Me desculpe! Só… cuide da Aninha.

Assim como entraram, os três assassinos partem sem deixar vestígios. Uma operação limpa. Aurélio nunca deixa de cobrar uma dívida ou uma ofensa.

XIX

O ex-tenente-coronel está pronto para liderar a invasão. Sente a adrenalina de outrora.

Um dos homens, o único policial da ativa, estoura o portão. Um segurança já é morto na entrada. O grupo de extermínio chega à sala e abate os dois seguranças que protegem o interior da residência. O empresário e a esposa são amarrados e deixados no banheiro de baixo. Sueco está no quarto com uma garota.

– Sueco, sai daí! Aparece! Não faremos mal aos teus coroas. Infelizmente, os segurança já eram. Ninguém mais precisa morrer! 

Aurélio tenta ser cuidadoso com as palavras. Entrar no quarto pode levar à morte de um de seus companheiros. Apesar da raiva e da adrenalina, é preciso avançar com calma.

– Eu tenho uma refém aqui comigo! 

– Sério, Sueco! Uma refém que você acabou de comer? Essa não cola.

Silêncio. Aurélio diz aos ex-policiais que precisarão invadir antes que enviem o Bope. 

Porém Sueco abre a porta e se entrega.

– Deixem meus pais em paz, seus filhos da puta! E se vão me matar, não me matem aqui. Só isso que peço!

– Você não está em condições de fazer exigências, seu merda!

Aurélio, retirando a máscara, pede paciência aos seus homens. 

– Tudo bem, pessoal! Aqui não tem câmeras. Vamos levá-lo para o Ricardo, lá no Novo Horizonte. 

Aurélio encara a garota. A mesma que estava com Angélica.

– Ô, baixinha, você é amiga da minha filha. Melissa, não é? O que faz com um merda desse. É viciada? 

– Não, senhor! É… É Suzana… Meu nome. Não é Melissa!; responde a menina, quase aos prantos.

– Como assim?

– É que a Angélica é uma brincalhona. 

– De agora em diante, vou ficar de olho em você. Vai se endireitar! Largar o vício e não andar mais com marginal. Vou te dar uma chance e você será uma boa garota.

O tom malicioso de Aurélio não passa despercebido pelos ex-colegas de farda.

Um ex-cabo, que trabalhou sob o comandado de Aurélio, leva Suzana para casa, enquanto os outros conduzem Sueco para o lugar de desova.

XX

Aurélio chega em casa, maculado por uma ação que prometera a si mesmo nunca mais realizar. André está sentado à mesa, aguardando notícias do pai. Aurélio abre a geladeira e pega duas long necks oferecendo uma a André.

– Uma noite fizemos uma diligência no Pedregal para averiguar a ocorrência de roubo de veículos, mas a ideia, na verdade, era dar fim no Bigode, um traficante do bairro, porque ele matou uma menina que devia grana pra ele. Teu tio Alberto perdia a razão quando envolvia mulher e mortes brutais, sem sentido. Porém não tínhamos mandado de prisão contra o vagabundo, então o combinado era forjar uma reação violenta. Só que os caras realmente estavam armados até os dentes. Não tínhamos a informação que o Bigode estava envolvido com tráfico internacional de armas. Alberto foi o primeiro a rodar. Mais três policiais morreram naquela “boca”. Eu peguei o Bigode e jurei nunca mais fazer isso, agir na ilegalidade.

– Pai, me desculpa!

– Não tem essa de desculpa. Primeiro, você se envolve com gangues. Isso eu consigo abafar. Você me promete trabalhar, estudar pra ser delegado. Acredito e incentivo. De repente, vem a bomba. Você está andando novamente com a mesma galera e torturando o filho do Alberto, teu amigo de infância, e, pra piorar, jurado de morte. 

Pai e filho se olham. André pensa em se defender usando Angélica, mas ele sente que há algo de errado na justificativa, como se não pudesse mais esconder de si mesmo o prazer de torturar Miguel.

– Escuta, André, se você não se endireitar, você vai ser um novo Sueco. Ou o Bigode. Toma rumo na vida, rapaz!

Aurélio se levanta e liga para Angélica.

– A tua irmã está na casa da Mirandinha. Miguel teve uma overdose.

André percebe que a verdade não está nos olhos do pai. Não admira Aurélio por isso. Sente falta do pai zeloso que faz o jantar. Mas terá que fingir não saber quem mandou matar Miguel e quem foi o responsável pelo sumiço de Sueco. 

XXI

Mirandinha recebe Aurélio e os ex-policiais, todos colegas de Alberto. Ingrid abraça a viúva e expressa suas condolências. No quarto, Aninha e Angel veem no noticiário uma matéria sobre a tragédia que se abateu sobre os Abramson de Camargo, cujo filho Christian, vulgo Sueco, está desaparecido. Aproximando-se da porta aberta, André balança negativamente a cabeça e declara às meninas:

– Algumas famílias têm sobrenome chique. Outras nem essa pompa toda engana que são uma calamidade, geradas no inferno. E a nossa, como é?

Angélica olha para o irmão e depois para Ana Beatriz. Ela não responde à pergunta de André. A jovem desliga a TV, oferece a mão à amiga e desce para o velório de Miguel. O único pensamento que tem na mente é justamente aquele que quer distância: Aninha dizendo “a nossa vida vai mudar, Angel”.

Ao descer as escadas, depara-se com o pai. Ela sorri para Aurélio, que consola Mirandinha, que parece estar em outro lugar, apesar das lágrimas.

Angélica observa a tia Cássia servindo as pessoas presentes, tornando tudo tão íntimo e penoso. Policiais e ex-policiais por todo o canto. Alguns colegas da escola dela e de Aninha, professores e antigos amigos do bairro de Miguel. Nem sinal da gangue de Sueco ou do próprio Sueco.

Refletindo sobre o que o irmão havia dito, Angélica percebe um equívoco. Calamidade não é o sobrenome, mas o nome de batismo de cada uma delas e deles, que compartilham a mesma denominação, quase como um título, uma marca de nascença.

Angélica se aproxima de Ana Beatriz e a abraça.

– Não vamos dormir. Seremos sempre vigilantes, até podermos escapar, Aninha.


Arte: Fight between wolves and dogs, de Frans Snyders.

Comment (3)

Leave Your Comment

faz um PIX!

Caso dê erro na leitura do QRCode, nossa chave PIX é editora@aboio.com.br

DIAS :
HORAS :
MINUTOS :
SEGUNDOS

— pré-venda no ar! —

Literatura nórdica
10% Off