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Cacos, conto de Carina Bacelar

por Carina Bacelar
Foto de Anna Carolina Rizzon para ilustrar o conto

Carina Bacelar nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Redatora e jornalista, é formada em Comunicação Social pela PUC-Rio e foi repórter por oito anos, com passagens pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Participou de algumas coletâneas de contos de e lançou de forma independente no final de 2021 seu primeiro livro de ficção, As despedidas (reeditado em 2022 pela Marisco Edições).


Quebrou sem querer os olhos naquela manhã, e foi porque os cacos juntos no chão da vista que a queda, assim como as mães porque os filhos, a morte porque a vida. 

Foi porque as mãos moles dele segurando a ponta do pau. O pau para cima e para baixo, a mão sem tônus, peluda, branca. O cheiro de vida moribunda que não apareceu no nariz, mas ela viu, fedia em suas retinas. Cheiro de lixo, de resto, de animal velho que vai virar carne na caça. De porra seca no lençol. Apesar disso, o movimento. Para cima, para baixo, a mão branca há 10 anos enfiada dentro dela, a viagem inútil porém contínua. Ela dura na cama com o dedo dele consentido é o cabo de madeira que circula pelo ar, que mantém a direção porque o movimento alheio. O círculo de ouro também no dedo dele, encostando no pau. 

Foi também porque a poça de água suja, parada, sob os pés dela. O verde enrugado, descascado, os pontos pretos da água suja sobre a falência da tinta. Uma folha amarela molhada sobre a água. Sentia o nojo entre os dedos, mas eles estavam dentro do tênis. Ela não estava protegida da água podre, só seus pés. O contrário: a água suja penetrou nela como um choro invertido. Com a investida do sol, a água secaria. E o que se tornaria? Lama pequena? Aí não seria mais água, seria só a lembrança da água, o pós-água, abandono úmido. Não podia permitir que seus pés estivessem ali, tão próximos do fracasso. 

Foi, enfim, porque dois pedaços: o lago à esquerda e o lago à direita. Os hemisférios e ela, a linha seca. Seca porque fora, fora porque sobre algo longo demais para afundar, mesmo com o peso dos dois corpos. Porque o cabo de madeira em movimentos circulares na mão dele, porque apenas uma poça de água suja sob seus pés, acomodada sobre a tinta velha e verde do casco. 

Quando terminou de cair, ela levantou, puxando com seu peso curto a reverência do barco, estraçalhando sob os pés os cacos antes presos nos olhos, multiplicando-os até que se tornassem incontáveis, até que fossem pó desde o princípio. Até que monstruosos porque invisíveis. 

Então, com os olhos incinerados, tomados pelo pó dos pedaços, ela abriu o peito para o vento, procurou o rosto dele entre as duas mãos que seguravam os remos e disse:
(sem ter visto que, enquanto a queda, sua mão direita fugiu com o dedo esquerdo da forca metálica. Porque fuga, isso lhe escapou dos olhos. Porque sem forca, o ar encontrou suas palavras)


Foto de Anna Carolina Rizzon.

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