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“A Família Addams” e uma moral ao avesso

por Caio Naressi
Cena do filme

Caio Naressi é cofundador do FotSom e cineasta independente desde 2015. Atualmente realiza um doutoramento em cinema pela Universidade de Montréal onde pesquisa a possibilidade da transcrição da memória autobiográfica em animação.


Vou aproveitar a época de Dia das Bruxas e o lançamento do novo filme da Família Addams em animação para discutir o primeiro longa, que passou um pouco em silêncio a meu ver. 

Por mais que seja um filme voltado para o público infantil, acho interessante olharmos com atenção ao que as crianças assistem e consomem e que também podemos, sim, assistir. Quando nos alimentamos culturalmente de algo, não pensamos na implicação que aquilo tem. Não podemos esquecer da magia poderosa da Disney ao criar e recriar universos e mitologias que hoje fazem parte da forma como pensamos. Precisamos estar atentos ao que consumimos, nada está isento ao nosso inconsciente.

Portanto, o primeiro filme em animação da A Família Addams (Greg Tiernan e Conrad Vernon, 2019) não fez sucesso, não foi comentado e não teve nenhuma grande repercussão nas mídias. Ou talvez eu não tenha notado nenhum movimento mesmo. Porém, é um filme que discute fabricação de fake news, modelos tradicionais vs. outros modelos, ecologia, desconstrução do patriarcado e uma eterna busca de quem nós somos. Veja, não deveria ser um filme para passar desapercebido. Principalmente por ser um filme indicado para o público infantil e que consegue abarcar essas diversas questões. 

Os já conhecidos Addams, que convivem no nosso imaginário há bastante tempo, se encontram de mudança para uma nova cidade. Na verdade, a história começa antes do  nascimento de Vandinha e Feioso. Expulsos de uma outra cidade, por serem considerados “monstros”, os Addams se veem obrigados a mudar de casa. Em busca de um lar onde possam viver de acordo com o que consideram uma vida saudável, decidem se mudar para Nova Jersey. Lá, encontram o famoso casarão abandonado que se tornará a mansão Addams e dará início às diversas histórias que já conhecemos.

Dentro dessa mansão, o que encontramos são formas de vidas que fazem oposição àquilo que nós, espectadores, acreditamos ser moralmente aceito. As brincadeiras entre crianças e adultos envolvem quase-morte, objetos cortantes e violência (e os adultos têm todo o direito de brincarem e se divertirem com e como as crianças!). Já os elogios, são insultos. Há aí uma inversão clara de todos os nossos signos. Menos para o amor e a união, que continuam valores intransponíveis. Os Addams vêm para quebrar o que a sociedade construiu em toda a história como bom e mau. O mau se torna bom e o bom, ruim. A inversão é a regra. É claro que isso não é novidade do novo filme, isso aparece desde sempre na franquia, mas questionar a ordem hoje em dia é sempre de muita importância. 

Em uma época em que temos o exemplo de Greta Thunberg dizendo não à escola, podemos ver Vandinha pedindo pelo contrário. O modelo escolar, em sua enorme maioria, oferece um processo de formatação de humanos que nos condiciona a continuar servindo ao Estado de maneira alienada, não construindo cidadãos que possam contestar o que, teoricamente, está dado. Greta percebeu isso, mas Vandinha quis experimentar a escola para poder ver como vivem e o que fazem aqueles que são da sua mesma espécie e que possuem uma forma de vida tão colorida e tão diferente da sua. Ali, há também o encontro da necessidade de se pertencer a algo comum. Porém, Vandinha questiona todas as normas da escola. Em uma aula de biologia, por exemplo, ela e sua colega deveriam dissecar um sapo. Tal qual Dr. Frankenstein, Vandinha dá vida a todos os sapos mortos da aula de biologia. Ao contestar as normas, Vandinha ressalta que os animais não estão aqui para nos servir, por mais asquerosos que eles possam parecer. A vida deles também é importante.

Será também esse um sinal da inversão de valores dos Addams em comparação ao humano ocidental? Aprender a entender o outro, sem assimilar, sem julgar e sem impor nada ao outro: todos somos diferentes e, como diria Deleuze, a repetição do igual é ela mesma anti-natural.

Existe algo dentro da lógica da Família Addams que distorce, mas que ao mesmo tempo representa a sociedade que habita fora da ordem deles. Feioso está prestes a passar por uma prova de sua masculinidade em um exercício de luta em que precisa mostrar habilidade com uma espada e, assim, ser consagrado um Addams. A formalidade desse rito de passagem é dada em um evento familiar de peso que levaria para aquela cidade milhares de familiares Addams. Feioso perde, Feioso não é capaz de lutar “como um homem Addams”, Feioso tem outras paixões na vida que não fazem parte da continuação da propagação de uma imagem patriarcal dentro da sua família. E nem por isso ele é menos Addams que os outros.

Além da dinâmica da família, há aquela da cidade que começa a se construir em volta da mansão Addams. Um reality show, desses de reforma total de um cômodo, resolve construir uma cidade inteira, uma cidade perfeita, nos moldes perfeitos da sociedade norte-americana. Quem encabeça a ideia é a própria apresentadora do programa que pretende que seu plano seja, claro, perfeito. Porém, na construção da cidade, eles acabam drenando um pântano, modificando a estrutura ecossistêmica da cidade em benefício dos valores antropocêntricos. O que acontece é que a mansão Addams, antes envolta por uma neblina no cume de um morro, acaba sendo revelada devido a essa modificação. Então, todos os habitantes da cidade ficam assombrados com aqueles outros que, veja bem, habitavam ali antes mesmo dessa nova comunidade. 

Uma guerra se inicia entre a apresentadora de TV, que busca sua perfeição, e a família Addams que não entende por que todos não podem viver em harmonia, cada um em sua diferença. Após uma tentativa falha de reformar a mansão Addams, padronizando-a de acordo com a cidade, a apresentadora parte para a criação de Fake News. A ideia é espalhar, entre os celulares dos moradores, fatos inverídicos sobre a família que morava ali antes deles. Os chamam de monstros aterrorizadores. Entretanto, se analisarmos de perto, veremos que os Addams não fazem mal a ninguém, eles vivem sua forma de vida, e o julgamento que fazem do modo de vida colorida dos outros não passa nem próximo da ideia de eliminação daquele outro, mas de aceitação e compreensão. Será também esse um sinal da inversão de valores dos Addams em comparação ao humano ocidental? Aprender a entender o outro, sem assimilar, sem julgar e sem impor nada ao outro: todos somos diferentes e, como diria Deleuze, a repetição do igual é ela mesma anti-natural.

A família Addams talvez seja um bom representante da nova lógica que precisamos adotar da aceitação e da comunhão entre todos. Natureza e homem. Todos são importantes, uma vez que todos são diferentes e é daí que surge a riqueza que deveríamos sustentar: a de múltiplas identidades, porém respeitando o bem coletivo. A escola, como força de um Estado, padroniza tudo e, atualmente, já percebemos que o sistema que nos foi imposto viver está falido e nos leva diariamente rumo à extinção. Precisamos buscar alternativas, precisamos pensar em desacelerar. Precisamos aprender a enxergar o mundo como os Addams o enxergam, para conceber um novo lugar onde a vida seja mais possível.

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