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Meu vulto tem mais humanidade do que eu?

por Caio Sarack
Foto de Luísa Machado para ilustrar a crítica de Caio Sarack a

Caio Sarack é crítico, professor e mestre em Filosofia pela FFLCH-USP.


Depois das grandes guerras do século XX, tanto a primeira quanto a segunda, os seres humanos tiveram de lidar com a impossibilidade de descrever horrores tão exóticos, mas ao mesmo tempo tão familiares. A arte, a Filosofia, a História e todas as ciências humanas daquele século tentaram formular questões para aqueles que pareciam ter perdido completamente a capacidade de falar experiências tão extremas e, depois, compreendê-las como um nó da história de suas vidas.

Um dos principais filósofos dessa época, o judeu alemão Theodor Adorno, calcou com poucas palavras o que parecia ser um diagnóstico de época inescapável: não há poesia depois de Auschwitz. Tanto seus críticos quanto seus herdeiros tentaram e tentam recolocar essa afirmativa absoluta: uns desconstroem, outros evidenciam, alguns adaptam, esses decolonizam, aqueles desdenham e por aí vai. Mas para a leitura de um texto-testemunho das atrocidades vividas neste período tão paradigmático que foi a primeira metade do século XX, a poesia – parece que nisso todos concordam – não está presente tal como antes: agora, o que lhe ocupa o lugar não é mais a mesma coisa, ainda que a suscite, tal como um vulto.

O livro de Charlotte Delbo, Auschwitz e depois (Carambaia, 2021), chega num momento em que as suas histórias, que pareciam estar completamente escancaradas em nosso imaginário, passam a ser repostas com esse ou aquele matiz ideológico: desde o absurdo violento do negacionismo à reabilitação de teorias conspiratórias que foram tomadas como motivação para o terrível acontecimento nazista. A escritora-ex-prisioneira faz parte de um coletivo de sobreviventes do terror daquela época que tomaram para si a tarefa de desnudar o humano demasiado humano que emergiu dos campos de concentração.

(…) não foi Auschwitz que nos fez calar, mas Auschwitz é o resultado de um silêncio que se construiu social e historicamente no nosso mundo.

Imagine, leitor e leitora, como seria possível compartilhar experiências que estão no limite de qualquer comunicação. É preciso explicar um pouco: não estou dizendo que não é possível acompanhar os acontecimentos, isto é, que não haja registros fotográficos, fílmicos, descritivos do terror racionalizado daqueles campos horríveis. Ao contrário: os relatórios, os manuais e tantos outros registros dos próprios oficiais que trabalhavam nos campos podem nos dar a dimensão do que eu quis dizer de “terror racionalizado”.

É isto uma comunicação?

Compartilhar experiências não é o mesmo que descrevê-las. Tente você mesma descrever a um amigo uma experiência de violência verbal que enfrentou no transporte público ou caminhando pela rua, perceba que dizer tudo o que ocorreu em ordem não será jamais o mesmo que criar o vínculo com quem escuta para que ele perceba (sinta consigo e contigo) o que foi experimentado.

Esse evento cotidiano de violência guarda consigo um germe do que se perdeu no século passado: outro filósofo também alemão e judeu, Walter Benjamin, escreveu em seu texto sobre a contação de histórias, nele o autor escreve que perdemos – antes mesmo das experiências sobre as quais Charlotte Delbo nos conta em seu livro – a capacidade de compartilhar experiências. Já na Primeira Guerra, em que os corpos se reduziram a pó e partes nas trincheiras, em que vivemos as bancarrotas de países inteiros para as especulações e bolhas financeiras, já naquela época a humanidade se tornou um vulto de si mesma: algo entre uma memória nostálgica dos tempos dos impérios e o desejo de dar o golpe final e traiçoeiro que liquidará todos os adversários.

Podemos depreender disso o seguinte: não foi Auschwitz que nos fez calar, mas Auschwitz é o resultado de um silêncio que se construiu social e historicamente no nosso mundo. Este silêncio pode ser a indiferença que transforma outros seres humanos em objetos colonizados (digo aqui sobre a escravização e condescendência com as violações nas colônias) ou mesmo o ódio de um derrotado que quer aniquilar o país que lhe subjugou, mas não tem meios para isso. Isso tudo antes de Auschwitz. E depois?

Como é possível que um evento tão intrínseca e friamente violento possa ser resultado de algo? Que equação seria essa que poderia, ao ser efetuada, dar a conhecer os processos que deram num horror fora de qualquer previsão? Mesmo os mais ortodoxos ou deterministas jamais imaginaram a sistematização da morte como houve na Alemanha dos anos 1940.

Que ferramentas podem ser utilizadas para apontar este cenário sem que se perca a sua violência própria?

Charlotte Delbo em seu livro descreve a fórmula matemática sem esquecer os seres humanos que a materializam, mas entre os manuais de controle dos prisioneiros e suas escalas de trabalho forçado, há ainda um ser humano?

A esta altura, lembro de um exemplo que sempre trago em minhas aulas quando falo sobre a primeira metade do século XX. Peço aos estudantes que me deem a fórmula matemática da velocidade média e eles, pela simplicidade da pergunta, me respondem com rapidez: “delta S sobre delta T”. Continuo a conversa pedindo para que me expliquem o que isso significa e, então, uma estudante me diz: ”É o valor da variação do espaço dividido sobre o valor da variação do tempo, por exemplo, se eu caminhar 10 metros em 5 segundos, minha velocidade média será 2 metros por segundo”. Rabisco a fórmula na lousa e lanço outra pergunta: “vamos pensar isso na realidade, numa empresa de entregas, ela será melhor avaliada quanto maior for sua velocidade média de entrega, certo?”.

Conhecemos, leitor e leitora, os fortíssimos princípios sociais da eficiência e do cálculo utilitário que regem nosso tempo; a resposta de minhas alunas e alunos sempre é afirmativa.

Professores e professoras, somos sempre intimados a chamar a atenção da sala, afinal, competimos com redes sociais, vídeos de danças sincronizadas e memes, por isso, depois de concordarem que esta empresa seria mais valiosa fosse sua “velocidade” de entrega cada vez maior, Charlotte Delbo me ajudaria muito ao contar a eles uma história sobre esta tal eficiência logística:

“Chegam depois de dias e depois de noites
atravessando países inteiros
chegam com os filhos mesmo os pequenos que não deveriam estar na viagem.
Trouxeram os filhos porque ninguém se separa dos filhos para aquela viagem.
(…)
Ao partir da França da Ucrânia da Albânia da Bélgica da Eslováquia da Itália da Hungria do Peloponeso da Holanda da Macedônia da Áustria da Herzegovina das margens do mar Negro e das margens do Báltico das margens do Mediterrâneo e das margens do Vístula.
Desejariam saber onde estão. Não sabem que é aqui o centro da Europa. Procuram a placa da estação.
É uma estação que não tem nome. Uma estação que para eles jamais terá nome.” (p.16-17)

Charlotte Delbo em seu livro descreve a fórmula matemática sem esquecer os seres humanos que a materializam, mas entre os manuais de controle dos prisioneiros e suas escalas de trabalho forçado, há ainda um ser humano? Dos textos de Delbo (são poemas, prosas, cartas sem destinatário? O que são? Enfim, textos.) é possível extrair uma verdade experimentada pelas sombras, não pela ferocidade, pelo susto de um golpe como naqueles filmes de terror de grande bilheteria, em vez disso, acompanhamos os gestos humanos que resistem à revelia da razão e da consciência.

“A distribuição do café pela manhã, da sopa às onze horas, do pão às cinco horas. Passávamos o tempo acompanhando na parede o desenho formado pelas sete grades da janela, cuja sombra se deslocava lentamente, de uma parede para outra. Quando no canto da esquerda, no reboco descascado, já não restavam mais do que três ou quatro grades prestes a se apagarem, o dia tinha terminado, anoitecia. Era o momento em que ia embora a sentinela que andava de um lado para outro no pátio, o momento em que a prisão se animava. De uma janela para outra, de um extremo para outro, começavam as conversas, depressa antes do revezamento da noite. Cada um falava com uma voz que conhecia, por cima das outras vozes que se cruzavam.” (p. 165)

E se o vulto daquele ser humano (pais, mães, filhos, engenheiros, químicos, donos de lojas, alfaiates, maridos, esposas, amantes, extrovertidos, irritadiços, pacientes, conservadores, comunistas…) tomou conta e o tornou sua sombra?

“Minha mãe era mãos um rosto
Puseram nossas mães nuas diante de nós

Aqui as mães já não são mães de seus filhos.” (p. 27)

Auschwitz e depois nos mostra um ser humano querendo se esquecer de sua humanidade, porque experimentá-la em meio a esta violência pode custar a vida de todos que virão, de todos que choram e chorarão hoje… e depois.


Foto de Luísa Machado.

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