• 0

    Frete grátis a partir de R$ 110

Algumas ideias sobre First Cow e Kelly Reichardt

por Luiz Afonso Morêda
foto de luísa machado para considerações de luiz afonso moreda sobre kelly reichardt e seu first cow

Luiz Afonso Morêda é estudante de cinema e cineasta. Teve a cabeça contaminada pela escrita depois de dois anos estudando jornalismo na faculdade e procura expurgar isso escrevendo sobre cinema. Vive num trânsito entre Recife e São Paulo, e é movido por aquilo que experiencia no caminho.


Mostrar como ato de criação

Os primeiros cineastas da história já eram tal qual inventores, alquimistas. Buscavam uma verdade oculta no registro do real, do tangível. Uma expressão íntima. Se com o passar dos anos o registro das imagens em movimento se tornou uma arte narrativa e a ele foram incrementados os mais diversos dispositivos, a ideia do cinema como arte do mostrar permanece. Dos irmãos Lumière a Steven Spielberg e Guillermo del Toro, passando por Maya Deren e Stan Brakhage, a prerrogativa é sempre a mesma: para haver cinema, é preciso que se mostre alguma coisa. No caso de Kelly Reichardt e seu último longa, First Cow, a mensagem é ainda mais clara, a criação se tornou o próprio ato de mostrar.

A história vem depois: primeiro se mostra, depois o resto

Em pleno século XXI, deparar-se com um filme que se utiliza da janela clássica, quadrada (proporção de tela 4:3) é sempre curioso. Geralmente se trata de uma escolha meramente virtuosa ou aleatória, mas não é o que acontece em First Cow. Trata-se de um filme que busca a todo momento evidenciar esse caráter específico do cinema, o caráter de mostrar alguma coisa.

A câmera evidencia a sua própria presença o tempo todo, evidenciando que ela de fato está lá, filmando alguma coisa, revelando um pedaço do mundo, da realidade, de modo que todo um possível discurso da obra, baseado nos acontecimentos da trama, uma possível ideia conivente ou não com um sistema socioeconômico, uma ideia de sujeito, de nação, de classe passe obrigatoriamente por essa atitude humilde da cineasta de mostrar. Primeiro se mostra, depois o resto.

O navio, um rio; o cachorro, um menino

First Cow conta a história de um cozinheiro americano e um imigrante chinês nos Estados Unidos que, supostamente, em 1820, se tornam amigos e em seguida decidem fazer biscoitos com o leite roubado da única vaca da região, propriedade de um homem rico.

A obra inicia-se com um prólogo formado por uma sequência que dura aproximadamente cinco minutos e contém cerca de 15 planos, todos fixos. Primeiro, o plano de um navio singrando por um rio: as águas são de um azul brilhante e ondulam calmamente. A embarcação está distante e a câmera acompanha pacientemente o seu movimento, desde quando ela surge no plano até a sua saída. Depois ela mostra um cachorro cavando um buraco, ali pela margem, onde é só terra com algumas árvores ao fundo. Depois um menino — quem acreditamos ser o dono do cachorro — mexe com algumas pedrinhas no chão, enquanto passarinhos cantam.

Os próximos planos são do menino seguindo o cachorro até o lugar em que cavava, onde o jovem começa também a cavar curiosamente. A montagem alterna entre os planos dos dois com alguns planos em que a câmera mostra o ambiente que os cerca. Então, vemos a descoberta da dupla: restos de dois cadáveres humanos. Após isso o filme é apenas um flashback que tem essa sequência inicial como desfecho, como sugerido pela epígrafe de William Blake: “O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia, o homem, a amizade” [1].

A solenidade como proposta estética: uma forma não agressiva

Uma narrativa que anuncia o próprio final antes mesmo de começar não está, em absoluto, muito interessada em contar uma história. São por outros meios, e não simplesmente a dramaturgia, que ela emociona. A narrativa foi diluída em cinema. Germaine Dulac, no começo do século passado já dizia que a narrativa era uma “base demasiado frágil para o estabelecimento das qualidades especiais do cinema”. Tinha razão. Os planos iniciais de First Cow já anunciam que se trata de um filme contemplativo. O ritmo da obra se assemelha mais às águas calmas daquele plano inicial do que à confusão de River of Grass (1994), primeiro longa de Kelly Reichardt. Aqui, ela pega na sua mão e te lembra de respirar.

A janela clássica, 4:3, assim como a textura granulada que simula uma película trabalham juntas para evidenciar aquilo que parece ser a questão basilar do filme, e que é também a questão basilar do cinema: o ato de mostrar. É algo que fica claro também, para além desses dois aspectos mais imediatos, na decupagem. Não se trata exatamente de uma decupagem econômica, com poucos planos, mas sim de um esforço nítido em fazer desses planos os mais sintéticos possíveis. Num viés bressoniano, busca evidenciar alguns gestos essenciais, ao mesmo tempo que parece acreditar no plano como algo feito para comportar vários elementos simultaneamente, evidenciando a relação dos corpos com o espaço – e com as coisas.

É a partir dessa proposta estética, dessa evidência constante dos corpos e espaços, que o filme se cria. É a partir dessa proposta estética que vemos a tal primeira vaca, ou o navio e o cachorro do início, a frigideira, os biscoitos. Todos os signos que compõem First Cow, que sugerem as mais diversas ideias, são antes de tudo figuras que reforçam a ideia de mostrar como ato de criação. A criação de Reichardt passa por essa posição da cineasta como mostradora (ou reveladora) de algo, como a artista que tem como instrumento a câmera e faz do registro, mesmo que ficcional, a base de sua arte – ainda que haja também um interesse na ficção, em fantasiar sobre um passado, em criar uma história (a trilha sonora em alguns momentos do filme deixa isso bem claro). Contudo, a narrativa só surge depois. Ela surge, sim, mas apenas como desdobramento de algo anterior. Em primeiro lugar, as imagens.

De um filme como esse, espera-se que surjam comentários acerca do sentido da narrativa, afinal, trata-se da história de dois amigos que montam um negócio lucrativo a partir de matéria prima roubada. Seria a obra conivente ou não com o sistema capitalista?, por exemplo. Para essas inquietações, as palavras supostamente ditas por Claire Denis quando perguntada por que suas personagens femininas não eram empoderadas podem ser esclarecedoras: “Que merda é essa? Eu sou uma artista, não uma assistente social”. O discurso de First Cow de Kelly Reichardt, sua visão de mundo, filosofia, posição política ou sei lá o quê, está, antes de tudo na sua relação com o campo do visível. Ela volta, de certa forma, a uma essência do cinema e a um cinema passado – penso não só nos Irmãos Lumière mas em Dziga Vertov, Humberto Mauro ou mesmo em André Bazin e Sigfried Kracauer. Aliás, este último dizia que “o cinema tem uma preferência declarada pela natureza em seu estado bruto” e “uma vocação natural para o realismo”, o que parece ter em Reichardt uma herdeira direta.

A narrativa e Michael Cimino

Além de voltar formalmente a uma essência do cinema, o longa de 2019 busca voltar também às origens dos Estados Unidos. A vaca não é o símbolo do país, nem o maior produto de exportação ou algo do tipo, mas ela é como um símbolo do desenvolvimento e poderio econômico construído pelos EUA. É também talvez o símbolo máximo da guinada especista que continua a destruir o meio ambiente. Kelly Reichardt não parece querer simplesmente vender uma tese, ilustrar um discurso. Assim como há uma humildade na sua postura diante do real, que primeiro mostra pra depois de fato compor alguma coisa, há também algo parecido no campo da narrativa: ela retorna a um EUA sem vacas (!), procura registrar justamente o início do fim, entender como tudo deu errado para, só então, começar a pensar uma possível solução.

A música suave, meio folk, que surge algumas vezes durante First Cow, se une ao ritmo meditativo da obra, que, é certo, não deixa de ser também sobre amizade. Na verdade, o longa inclusive tem, na figura dos dois amigos no meio da natureza, uma espécie de senso de compreensão que se assemelha a Thunderbolt and Lightfoot (1974), primeiro longa de Michael Cimino. Os dois lidam com uma ideia de desesperança, mas parecem enxergar na relação do ser humano com tudo aquilo que lhe cerca uma possibilidade de superação, uma aceitação da realidade do total e da totalidade do real, da convivência. A câmera de Reichardt, assim como a de Cimino, evidencia essa relação, ou melhor, relações: o homem com aquilo que está fadado a conviver (os animais, a vegetação); o homem com aquilo construído por ele mesmo (o navio, os biscoitos – é sempre bom lembrar que só se pode construir a partir do que já existe, isso serve para criação de Reichardt, que depende de uma matéria pré-existente, mas também para criação de objetos utilitaristas); mas é especialmente na relação do homem com outro homem, e na relação dessa relação com as demais, que os filmes vislumbram uma ideia de futuro.

Nesse sentido, é de se notar que First Cow confira a todas as figuras humanas um mesmo valor, dos indígenas ao revendedor rico, todos são apenas humanos e nada mais, não há nenhum discurso moral quanto a isso. Igualmente notável é a inverossimilhança que permeia toda a obra (o fato de haver um chinês em 1820 nos EUA, familiarizado com a cultura estadunidense e falando inglês e alguma língua indígena). Todas essas questões confluem na ideia de aceitação de um todo orgânico.

Então, é sobre o mostrar não só como ato de criação mas também de aceitação. Apontar uma câmera para um bosque, abaixar a cabeça diante de uma árvore e simplesmente confiar na função primordial de seu instrumento de trabalho, a câmera: eis um ofício de cineasta. Kelly Reichardt faz isso como ninguém.


[1] Tradução do professor Paulo Vizioli em William Blake: Poesia e Prosa Selecionadas. Edição Bilíngue. Editora Nova Alexandria. No original: “The Bird a nest, the spider a web, man friendship”.


Foto de Luísa Machado.

Leave Your Comment

faz um PIX!

Caso dê erro na leitura do QRCode, nossa chave PIX é editora@aboio.com.br

DIAS :
HORAS :
MINUTOS :
SEGUNDOS

— pré-venda no ar! —

Literatura nórdica
10% Off