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O prêmio da guerra: morrer como um homem ou a reinvenção da masculinidade em Tigerland

por Gustavo Duarte
Cena do filme Tigerland para ilustrar o texto

Gustavo Duarte, 28 anos, nascido em São Paulo. Como poeta, uma passagem fracassada pelo largo São Francisco e o livro “Lar de Orates“, editora Giostri. Professor autônomo há oito anos, atuante em projetos de educação popular e redação pré-vestibular.


Sobrevivente do inferno, Mano Brown, cuja “palavra vale um tiro”, já dizia que o guerreiro de fé – programado para morrer – “não agrada o injusto e não amarela, mas morrer como um homem é o prêmio da guerra”. Em Tigerland (2000), antes de serem enviados para o Vietnã, um pelotão de recrutas tem que passar pelo treinamento avançado de infantaria Fort Polk, o purgatório onde o diretor Joel Schumacher questiona, entre tiros, a fé das palavras de Brown.

O ano é 1971, o lugar é Louisiana, a certeza é a morte. Nessa altura da guerra do Vietnã, os Estados Unidos sofriam um massacre sob a mira dos vietcongues. Já não havia soldados para reposição. As tropas americanas contavam mais garotos do que homens. O campo de treinamento tornava-se, assim, preparação para morrer.

Jim Paxton (Matthew Davis), soldado, aspirante a escritor e narrador do filme, estava convencido de que a experiência valia a pena, que diante da morte encontraria grandes lições de vida, como aprendera Hemingway. Mas um homem, Roland Bozz (Colin Farrell), o soldado anti-herói de Tigerland, retorna compulsoriamente de sua fuga para abalar as convicções de todos.

Um homem pronto? Um covarde? Um personagem? Um homem absurdo num mundo absurdo? Um tolo lutando contra o sistema? São algumas das hipóteses apontadas pelos homens do exército para explicar a insubordinação debochada que marca a personalidade de Bozz. Seus superiores temem o poder de sua postura, os soldados se dividem entre admiração, raiva e incompreensão. 

O santo caipira, soldado assim apelidado por Bozz, é quem primeiro descama uma das respostas. Durante uma noite de luar intenso, descascando batatas – punição provocada por Bozz – e jogando conversa fora, conhecemos a história de Cantwell (Thomas John Guiry). Jovem de apenas 19 anos, casado aos 15, pai de quatro filhos que já se cuidam sozinhos, pois a mãe tem transtornos mentais. Bozz se desfaz em lágrimas com os relatos reflexivos e sinceros de Cantwell. 

Enquanto todos estão empenhados em esconder o próprio desespero, como verdadeiros homens, sedados pela brutalidade, em estado de negação e autodestruição, o anti-herói encontra força e sanidade na sinceridade diante dos afetos.

Inteligência não somente sensível, mas racional, Bozz domina as leis e conhece as lacunas que podem salvar soldados de um destino até então inevitável. Ele então decide instruir Cantwell a fundamentar seu pedido de dispensa, que envia o santo caipira para os braços de sua família. 

Em seguida, é a vez do açougueiro. Um jovem ingênuo que amava cortar carne e era bom no que fazia. Humilhado pelo pai militar, usado e traído pela esposa. Novamente, Bozz se emociona com a história de vida de seu camarada e decide ajudá-lo. Mais um de volta para casa, salvo da morte. 

A fama de salvador dos soldados vai crescendo a ponto de Bozz ser comparado a Jesus. Nesse ritmo, vai ficando claro que a luta de Bozz é pela preservação do que resta de humanidade em meio à guerra. Ao mesmo tempo em que distrai o batalhão do medo da morte com suas piadas insubordinadas, Bozz canaliza para si a sanha dos autoritários e dos desequilibrados. 

Enquanto todos estão empenhados em esconder o próprio desespero, como verdadeiros homens, sedados pela brutalidade, em estado de negação e autodestruição, o anti-herói encontra força e sanidade na sinceridade diante dos afetos. Bozz tem consciência dos que o cercam, dos que sente, de quem é e de seu destino. 

Numa cena marcante de bravura e hombridade, Bozz se retira de forma abrupta durante lições práticas sobre métodos de interrogação e tortura. “Por que eu faria isso com outro ser humano?”, ele questiona. Uma pergunta óbvia no coração de todos, porém silenciada nos momentos em que avança o autoritarismo, como já demonstrou o psicólogo social americano Stanley Milgram, em seu conhecido experimento de 1964, que mais tarde serviu de amparo para o livro Obedience to Autorithy (1974). Nele, Milgram desenvolve a tese de que o indivíduo transfere a responsabilidade de seus próprios atos hediondos quando mediados por diversas formas de autoridade.

É tempo de ressurreição contra o homem. Não contra o homem espécie humana. Mas contra esse homem macho, o homem das certezas, o homem branco cartesiano, o homem mascarado que vive para agradar o outro para conseguir o que quer, o homem injusto, o homem que traiu Jesus. O homem que não chora.

Apesar da insurgência contra a autoridade militar, não são todas as responsabilidades que Bozz assume. Por trás da última camada de sua subjetividade, a qual ele prontamente admite assim que revelada, reside uma ponta de covardia. Na última semana de treinamento, já evidenciada a fonte sensível de sua força e sua postura destemida, um de seus superiores o confronta, afirmando que Bozz nasceu um líder nato e que foge do peso dessa responsabilidade. Com efeito, em diversos momentos, a sensibilidade de Bozz faz dele antes um amante da vida, um mulherengo, um bon vivant, do que um grande líder, mas é esse o destino que o tempo lhe impôs.

Uma última vez, Bozz tenta fugir. Um dos soldados acorda no meio da noite e flagra seu plano. Johnson (Russell Richardson) pede que ele não abandone o batalhão, pois seus companheiros estarão perdidos sem ele, que vira as costas. Todavia, ressurge ao amanhecer. Dessa vez, para ficar e enfrentar seu destino. Num último ato de salvação, atira “acidentalmente” em Jim, que assim escapa da guerra e sobrevive para nos contar a história. 

O prêmio da guerra, portanto, não é morrer como um homem, é descobrir-se o tipo de homem que escolheu ser em seu tempo. O Vietnã passou, mas a guerra segue seu curso. A luta é diária contra o homem covarde que goza com a guerra, mas não vai à luta. Aquela meia dúzia de psicopatas fardados de terno ocupando o poder, justificando a competição desumana através do padrão ideológico da masculinidade tóxica, esse campo minado que nos leva ora à implosão, ora à explosão. Pressão por desempenho absoluto, consequente impotência, fúria, alcoolismo, autodestruição, fragilidade enrustida, incompreensão, violência doméstica contra crianças e mulheres. É esse o retrato da autoridade patriarcal do homem branco. Um ciclo vicioso que contagia a maioria, promovido por uma minoria que vive bem resolvida com sua condição usurpadora de recursos naturais e subjetividades alheias.

É tempo de ressurreição contra o homem. Não contra o homem espécie humana. Mas contra esse homem macho, o homem das certezas, o homem branco cartesiano, o homem mascarado que vive para agradar o outro para conseguir o que quer, o homem injusto, o homem que traiu Jesus. O homem que não chora. É tempo para novos homens, homens que não amarelem diante da responsabilidade de definir e lutar pela própria masculinidade, formada inexoravelmente pela fragilidade – matéria da vida – pela multidimensionalidade da condição humana – racional, sensível, espiritual. É tempo de reinventar a subjetividade. Tempo de Tigerland. 

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