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Os andaimes de Hogwarts

por Gustavo Duarte
Cena do teaser de

Gustavo Duarte, 28 anos, nascido em São Paulo. Como poeta, uma passagem fracassada pelo largo São Francisco e o livro “Lar de Orates“, editora Giostri. Professor autônomo há oito anos, atuante em projetos de educação popular e redação pré-vestibular.


Quando recebi a notícia de que seria lançado um special reunion de Harry Potter, por ocasião dos 20 anos da estreia da saga nos cinemas do mundo, torci o nariz. Em geral, sou avesso ao gênero, que vem crescendo nos últimos anos, liderado pelas plataformas de streaming e suas sitcoms de maior sucesso (Friends, 2021; The Fresh Prince of Bel-Air, 2020; Parks and Recreation, 2020). Por sorte, mesmo contrariado, assisti e me revirei de alegria.

Atendendo à demanda de nossa cultura midiática de hipercomunicação em massa, ávida por intimidade, o reencontro tardio entre atores, diretores, produtores e demais profissionais do audiovisual acompanha a diluição das fronteiras que separava ídolos e fãs, tendência que marca as relações instituídas pelas redes sociais. Se antes um ator era adorado ou odiado por extensão de seu personagem, atualmente o sucesso de um herói ou de um vilão é dado já na escolha de seu intérprete. Celebridades e público estreitaram laços, passaram a conviver diariamente, interagindo e compartilhando cada mínimo aspecto de suas rotinas. Nesse cenário, o gênero reunion ganha força, na medida em que recicla antigas histórias, curiosidades e cenas de bastidores, oferecendo versões refinadas da forma predominante do conteúdo digital, renovando assim o interesse pela obra original e por quem a ela deu vida.

Há quem prefira ainda a arte ao artista. Afinal, resume Pessoa, “a literatura, como toda forma de arte, é uma confissão de que a vida não basta”; confissão de quem escreve e de quem lê. Todavia, o estado de onipresença promovido pelas redes invade o refúgio, sufoca suspiro, silencia a confissão. Faz lembrar a lição de Bilac: “Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! […] Mas que na força se disfarce o emprego do esforço […] E natural, o efeito agrade sem lembrar os andaimes do edifício”. É sob o véu da estética que se revela a face do mundo que gira além do que se vê, mundo que pode ser. Lugar de consolo que acomoda o peso do mundo que é. Desfeito esse encanto, morre a beleza. Outros tempos, outros olhares. O turbilhão da rua agora é visto da palma da mão; artificial, nenhum efeito é o bastante. Mais do que agradar, é preciso chocar. Quanto maior a exposição, maior o choque, maior a propagação pela fibra óptica.

Preservar a aura de uma obra de arte, sua essência, seu potencial de afeto, passa não somente pelo grau de reprodutibilidade técnica, como apontou Walter Benjamim, mas também pelo mistério de sua produção originária. Desvendado o método, compreendida a intenção, impera a razão, não há mais o que descobrir através dos sentidos, não há mais gozo pela vida.

Tensão acentuada ao se tratar de magia. Debate estético à parte, é ponto comum que um mágico nunca revela seus segredos. E talvez não exista estraga prazeres mais despropositado que um sabichão num espetáculo de mágica. Um adulto que não conhece seu lugar de adulto, incapaz de desfrutar do que não domina, sugando a alegria alheia como um autêntico dementador. 

Toda a razão de ser da magia fundamenta-se na manipulação do real pelo artifício, o que naturalmente pressupõe certa dose de técnica, mas que não passa de condutora. O combustível é a imaginação. Esta quem tem o poder de conduzir a consciência pelas experiências que transcendem os limites da realidade material. O que se espera de um mágico, como de todo artista, é o dom de iludir. 

Diante disso, o gênero reunion concentra, por si só, perigosos fatores de desencantamento. A combinação com Harry Potter parece então letal. Contudo, o improvável se fez. Caminhar pelos andaimes de Hogwarts, conhecer em detalhes o processo de seleção dos atores, a identificação destes com suas respectivas personagens, a construção dos cenários, as relações cultivadas ao longo dos anos, a evolução de todo o processo, fez da realidade fonte de magia mais potente do que os próprios filmes. 

Como explicar relatos como os de Jason Isaacs, que inicialmente ambicionava o papel de Gilderoy LockHart mas, preterido, cheio de amargura, fez outro teste e acabou interpretando Lúcio Malfoy, cuja essência é justamente essa? Ou de Evanna Lynch, uma simples fã que enviava seguidas cartas para J.K. Rowling até que, correspondida, recebeu a chance de uma audição. No dia do teste, estava tão fascinada por contracenar com Daniel Radcliffe, o Harry Potter em pessoa, que performou com excelência a expressão avoada de quem vive um sonho, tão característica de sua personagem Luna Lovegood; e tantos outros encontros entre ator e personagem que sugerem, aos mais céticos, no mínimo, sincronicidade. Aos mais emocionados, predestinação. Mas há que ser miseravelmente cínico para reduzir todos às coincidências do acaso. 

Como não se encantar com o salão principal, perfeitamente recriado sem efeitos especiais, com milhares de velas acesas penduradas no teto por linhas de pesca e seu piso fundado em genuínas pedras York? Como não renovar a inocência diante de Richard Harris, que passou as filmagens de Harry Potter e a câmara secreta acreditando que o robô que simulava a fênix Fox era uma ave de verdade? Apesar dos microfones, cabos e fundos verde, o mergulho no set de filmagem que dá fundo ao reunion traz aqui uma outra dimensão da atmosfera tecnológica, fundamental para realização da magia.

Mais do que tudo, como negar a conexão instantânea entre Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint? Essa reação química tão específica entre sujeitos que nenhuma fórmula é capaz de reproduzir e que todos, em raro momento, já sentiram ou ainda hão de sentir. Sem falar no tempo, coisa misteriosa, que particularmente protagoniza este reunion. Acompanhar a trajetória completa, da infância à vida adulta, de quem recebeu do destino o privilégio de uma experiência tão intensa e fora da curva, oferece uma perspectiva arrebatadora sobre a realidade, que às vezes pode ser tão mágica quanto a magia existe.


Imagem: Cena do teaser oficial da HBO Harry Potter 20th Anniversary: Return to Hogwarts – Official First Look Teaser Trailer

Comment (1)

  • O trailer deste reunion não tinha despertado meu interesse em assistir justamente por achar que a magia deveria ficar nas coisas que ainda não sabia. Mas se o encontro for tão encantado quanto esse relato acho que vale o gasto da minha fibra óptica #partiuver #harrypotter

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