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Roda da fortuna

por Rafael Meneses Miranda
Quadro do filme Botões, dos irmãos Safdie, para ilustrar o texto

Rafael Meneses Miranda é graduando em Letras na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Anda de skate e escreve sobre cinema no seu Letterboxd. É colaborador da revista Aboio.


Obs: Esses parágrafos a seguir contém spoilers de praticamente tudo que os Safdie dirigiram. Estão avisados.

Obs 2: A ideia para esse texto veio do ensaio do crítico japonês Shigehiko Hasumi John Ford, or The Eloquence of Gesture e da sua brilhante maneira de analisar o conjunto da obra de um cineasta através de um único gesto recorrente nela.

Os irmãos Safdie cultivam uma estranha relação com tecnologia. Por mais que toda a sua filmografia até agora se passe no século atual, nela os mecanismos constantemente prendem os seus personagens. Ou melhor: seus personagens sempre estão prontos para se ferrarem com os seus complicados equipamentos. E a cada novo filme, essa visão sobre a tecnologia só se amaldiçoa: o abismo entre a vida e a morte está separado por um botão.

A primeira tecla que aparece em primeiríssimo plano em uma obra dos irmãos Safdie, até onde eu tenho acesso, é no curta We’re Going to the Zoo (2006). Nesse road movie, uma irmã mais velha e seu caçula estão viajando de carro rumo a um zoológico. O som do rádio está baixo. O mais novo pede que ela aumente. Ela nega. A criança então age e mexe no equipamento. E aí está, o primeiro curtíssimo plano detalhe borrão, o gesto inaugural interativo entre homem e máquina deles:

Cena de We’re going to the Zoo (2006), curta dos Irmãos Safdie.

Logo quando o menino toca no rádio um homem que estava dormindo na rua consegue carona com eles e embarca na viagem. Essa cena, da música no carro que traz uma mudança na viagem, se repete em Traga-me Alecrim (2009):

Cena de Traga-me Alecrim (2009), dos irmãos Safdie

A música diegética é um prenúncio de mudanças. É interessante também notar, de passagem, como esse automóvel “safdiano”, ao contrário, por exemplo, da civilizada troca de experiências e filosofias que ocorrem nos carros e motos de Kiarostami, está sempre envolto numa cacofonia entre seus passageiros. Os personagens dos irmãos sempre estão gritando, como vendedores ambulantes, uns com os outros. A comunicação contém mais ruídos do que mensagens.

Inclusive, para a sorte da tentativa deste escriba de convencer o leitor, há um outro curta deles chamado – pasmem – Botões (2011), que mostra vários exemplos dessa complicada relação, num formato digital de sketches urbanas picotadas (como sempre situadas em Nova Iorque) similares ao estilo câmera escondida das palhaçadas de Sacha Baron Cohen. Nele, vários criativos cidadãos anônimos (cada um com um intertítulo próprio) são filmados sigilosamente a fim de mostrar seus experimentos de engenharia, que parecem dificultar o cotidiano em vez de facilitá-lo:

Outra comparação é tentadora: esses planos, apesar do escopo limitado inerente, focalizam tanto os aparatos como as mãos e não há como não lembrar de Robert Bresson quando se fala de mãos cinematográficas.

Close de mãos em filmes de Robert Bresson (1901-1999)

Continuando o plano geral sobre os planos detalhes safdianos, sobram O Prazer de Ser Roubado (2008) (com seus ecos de O Batedor de Carteiras (1959)) e Só o Céu Sabe (2014), ambos filmes em que uma protagonista tenta existir sem extinguir seu vício (seja ele amor, heroína ou roubar). Ai os closes focam no que elas querem consumir, as mãos à procura do prazer. Êxtase. O deleite de brincar com a mulher que você gosta em uma tenda improvisada (mecanismo arcaico, manual) no filme de 2008 substitui-se pelo barato de usar heroína em 2014 (agulha barata, alienante). Os Safdies desconfiam cada vez mais dos dispositivos, que trazem resultados progressivamente degradantes.

Cena de O Prazer de Ser Roubado (2008), dos irmãos Safdie
Cena de Só o Céu Sabe (2014), dos irmãos Safdie

Essa associação se torna especialmente maléfica nos dois longas mais recentes dos diretores. Em Bom Comportamento (2017) o primeiro plano detalhe de um botão vem logo após Connie (Robert Pattinson) roubar seu irmão de uma terapia para assaltar um banco com ele. Na saída do escritório, ao entrar no elevador, aperta um botão para descer. Algumas decisões desastrosas depois, quando acha que está novamente resgatando seu parente, dessa vez de um hospital, ele aperta outro botão para outro elevador ir para baixo. Entre esses dois exemplos e as duas quedas de Ray (Buddy Duress) ao longo do filme, primeiro de um táxi e depois de um apartamento, me parece que Bom Comportamento é um salto ornamental numa piscina vazia (Nova Iorque). Um mergulho no inferno.

Finalmente, em Jóias Brutas (2019), a danação ao apertar um botão é elevada à potência máxima. Ela se manifesta ao Howard ter que destravar o grande e inconstante portão de segurança da sua loja. Esse boxe de vidro protege o judeu novaiorquino de ameaças externas até o momento em que ele resolve subverter essa função para prender seus credores ali. Quando ele ganha as apostas, aperta o botão para soltá-los, mas na prática o que o botão faz é puxar o gatilho que dispara uma bala no seu rosto. Mais do que nunca, a tecnologia castiga.

Cena em que Howard aperta um botão para abrir a porta. Jóias Brutas (2019), Irmãos Safdie.
Cena em que Howard leva um tiro na cara. Jóias Brutas (2019), Irmãos Safdie.

Pelo que tudo indica o próximo passo na carreira dos Safdie é uma série de TV, chamada The Curse, comédia sobre uma rede de televisão amaldiçoada que atrapalha a relação do casal recém casado que trabalha nela. Não é difícil supor, por essa sinopse, o quão negativa será a relação homem-máquina nesse futuro projeto.

Essa conexão entre homem e tecnologias deles não é como a de Cronenberg (a maquinização do corpo) e tampouco é similar a de John Woo (a humanização das pistolas). Parece ser algo mais irônico e cruel: o homem, entupido até a cabeça em dificuldades que ele mesmo criou, tenta usar essas tecnologias para tentar solucionar parte da sua existência, sem perceber como isso só acelera a sua perdição. Não existem mais “olhos nos olhos”, como Annie (Gladys Mathon) em Bom Comportamento reclama com a neta (Taliah Webster).

A partir daí seria fácil argumentar que os apetrechos safdianos tomam uma dimensão “helenística”: os vários exemplos de protagonistas gregos que tomam conhecimento da sua profecia e aí tentam ao máximo possível evitá-las, não percebendo que seus atos, tentando contornar o destino, são as próprias tortas veredas que o levarão a ele.

Como disse (sempre) melhor, Oscar Wilde:

Havia certa vez um ímã e na vizinhança viviam umas limalhas de aço. Um dia, a duas limalhas ocorreu subitamente visitar o ímã e começaram a falar do agradável que seria esta visita. Outras limalhas próximas apanharam a conversa a meio e o mesmo desejo as tomou. Se juntaram outras e ao fim todas as limalhas começaram a discutir o assunto e gradualmente o vago desejo se transformou em impulso. Por que não ir hoje?, disseram algumas, mas outras opinaram que seria melhor esperar até o dia seguinte. Enquanto isso, sem perceber, foram se aproximando do ímã, que estava muito tranquilo, como se não se houvesse dado conta de nada. Assim prosseguiram discutindo, sempre se aproximando do ímã, e quanto mais falavam, mais forte era o impulso, até que as mais impacientes declararam que iriam nesse mesmo dia, o que quer que fizessem as demais. Ouviu-se dizer a algumas que seu dever era visitar o ímã e que fazia já tempo que lhe deviam esta visita. Enquanto falavam, seguiam inconscientemente se aproximando.

Ao fim, prevaleceram as impacientes, e, em um impulso irresistível, a comunidade inteira gritou:

— É inútil esperar. Iremos hoje. Iremos agora. Iremos no ato.

A massa unânime se precipitou e ficou agarrada ao ímã por todos os lados. O ímã sorriu, porque as limalhas de aço estavam convencidas de que sua visita era voluntária.

Mas qual dessas duas é a filosofia safdiana? Em outras palavras, o ato de apertar botões indica um livre arbítrio do homem que controla a sua vida (romantismo) ou os indivíduos são meras marionetes, limalhas de aço envoltas pelo destino (determinismo, realismo)? Eu apostaria numa combinação.

Admito que essa solução pode parecer contraditória (destino e vontade própria são ideias mutuamente excludentes), mas, segundo os helenos, diferentemente do que muitos interpretam ao ler a mitologia deles, o ser humano tinha tanto influência interna como externa. Aquiles, na Ilíada, sabendo que se matar Heitor como vingança pelo assassinato do seu grande amigo Pátroclo, vai morrer, mesmo assim se revolta. Tanto a profecia quanto o seu ato irado importam.

A História, com “H” maiúsculo, é o processo das duas coisas. Muito antes de Ortega y Gasset, eles já sabiam que “eu e as minhas circunstâncias” é o que importa. Afinal, as Moiras, tecendo as linhas dos destinos alheios, não parecem a síntese visual das figuras safdianas, presas entre o ato manual de tecer e o seu famoso tear, a roda da fortuna, que auxilia ou pune os fios? Só eu que consigo imaginar as três irmãs como personagens dos irmãos, falando ao mesmo tempo, enquanto num plano detalhe, vemos as mãos delas agindo febrilmente?

Todo dia eu penso em distorcer e desamarrar esses laços nos quais estou
E levar uma vida pura
Eu olho pra um céu limpo na minha frente
Não vou chegar lá
Mas é um belo sonho, é um belo sonho

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