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“Nós, as esquecidas” – a irmandade travesti em Camila Sosa Villada

por Adriane Figueira
Foto de Luísa Machado para ilustrar o texto

​Adriane Figueira é paraense, nascida e criada às margens do Tapajós, mas vive há mais de uma década na capital carioca. Entusiasta da escrita e pesquisadora. Revoada do dragão (Patuá, 2021) é seu primeiro livro.


“Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite.”
(Dante Alighieri)

Quando um livro é capaz de nos tirar de órbita? Estourar a bolha que parece cada vez mais alienada e menos humana? Não sou capaz de oferecer respostas. São questões difíceis com desdobramentos complexos. Ainda estamos rastejando quando se trata de olhar para o outro e respeitar o seu espaço e a sua subjetividade. Não escrevo aqui para dar lição para marmanjos, mas se tem algo que acredito com todas as minhas forças é no poder de transformação e movimento que a Literatura, com maiúscula mesmo, oferece. 

“Meu primeiro ato oficial de travestismo foi escrever, antes de sair na rua vestida de mulher”. Essa é uma fala de Camila Sosa Villada reproduzida no prefácio do romance O parque das irmãs magníficas (Planeta, 2021), assinado por Juan Forn. As palavras encerradas entre as aspas, demonstram o movimento libertador que a escrita proporciona e o modo como o sujeito que escreve ergue a voz dentro do texto e transforma sua realidade, adentrando por espaços que lhe são negados. Foi assim com Villada — se ela não podia entrar, arrombou a porta e criou suas personagens.

‘Todas as noites, as travestis sobem desse inferno sobre o qual ninguém escreve para devolver a primavera ao mundo’.

Li O parque das irmãs magníficas, de Camilla Sosa Villada, atriz e escritora argentina, pela capa maravilhosa — pernas glamurosas, pés calçados em sapatos de salto cor de rosa e meias de onde brotam flores — e por esse título tão poético. Fiquei curiosa para entender a escolha editorial brasileira, pois que a obra no original chama-se “Las Malas” que em tradução livre poderia ser lida como “As malvadas” ou “As más”. Gosto mais do efeito que o título brasileiro recria, o de irmandade.

​A narrativa conta as muitas histórias de um grupo de prostitutas travestis do Parque Sarmiento — um parque que “se encontra no coração da cidade” — pelo olhar de Camila, a narradora e protagonista. Há uma mistura de estilos que emociona quem lê, um misto de realidade dura, poesia, memórias e fantasia. Ou como muitos leitores e críticos enquadram — com pés fincados na literatura fantástica, muy latina: “Todas as noites, as travestis sobem desse inferno sobre o qual ninguém escreve para devolver a primavera ao mundo”.

Não é possível passar sem ser tocada pelos detalhes às vezes tão brutais, às vezes tão ternos e amorosos. É muito dura a vida das pessoas que precisam vender ou alugar os seus corpos e seus afetos por tão pouco. Elas, as travestis, invisíveis diante da manutenção de seus direitos e das garantias de bem-estar; e um escárnio perante uma sociedade suja, hipócrita e violenta.

“Todas seríamos rainhas”, proclama a poeta chilena Gabriela Mistral na epígrafe de O parque das irmãs magníficas. E entre lágrimas de dor e emoção, eu como leitora, constato: Rainhas, todas as mulheres que cruzam o espaço dessa narrativa tão cuidadosamente disposta e oferecida. A escrita de Camila Villada é mesmo um assombro, um respiro deslumbrante num mundo tão difícil e injusto. 

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Ritos iniciáticos, ciclos, amadurecimento e muitas perdas, seja por violência ou descaso, seja por consequências do HIV/AIDS, já que este relato/romance/fantasia se passa durante fins da década de 1990, e o espectro do vírus da imunodeficiência humana era uma sentença de morte aos que tinham um comportamento “transgressivo”. A obra de Villada cruza por caminhos tortuosos de salto alto e de sorriso no rosto. Sim, há alguma alegria mesmo que entorpecida, alucinada. Há também a doçura e o cuidado. Percorremos o labirinto da noite fria entre mulheres de todos os formatos: idosas, muito jovens, pobres, pássaras, bruxas, cachorronas, lobicastes, uma grávida — “a única nascida mulher entre todas” — e até duas irmãs ricas, as urubus, que gozam das frequentadoras da zona vermelha do Parque.

‘Desde esse dia, meu corpo assumiu um valor diferente. O corpo deixou de ser importante. Uma catedral de nada’. A dor e a vergonha cederam lugar ao silêncio da vergonha, ao segredo, a performance e ao sorriso. 

Tia Encarna, a dona da pensão “mais marica do mundo”, é a mãezona que cuida de todas. Ela tem 178 anos, é ranzinza. Esquecida, por tanta violência sofrida, anota tudo em cadernos. Sua vida pregressa é um mistério, mas está sempre disposta a se doar e proteger suas meninas e o Brilho dos Olhos dos perigos do mundo e da maldade dos vizinhos: “O instinto materno dela era teatral, porém dominava seu caráter como se fosse autêntico. Exagerava como uma mãe, controlava como uma mãe, era cruel como uma mãe. Tinha o limite da ofensa muito baixo e se ressentia com facilidade”.

A solidão é uma personagem que atravessa o livro da primeira à última página, o medo é também uma presença sempre sentida: “O mundo da solidão, o raro prazer da contemplação”. Não há consolo que baste, não há maquiagem que esconda o estigma e a pobreza, o efeito das drogas acaba e a realidade é perversa. Elas querem se divertir, sim, mas querem permanecer vivas e subverter a “profecia” que escancara um fim sempre trágico de uma vida curta e sofrida.

Camila é a mais jovem entre as moças que frequentam a pensão da Tia Encarna. Vinda de um lugar afastado, ela descobre o Parque e é acolhida nessa nova vida na cidade de Córdoba. Durante o dia frequenta a faculdade e durante a noite é prostituta. Conhecemos a vida da protagonista antes de se travestir, ainda na infância quando assiste seu pai alcoólatra espancar a sua mãe frequentemente e disparar ofensas e sentenças infames. Uma criança tímida que se tranca no quarto e se veste de mulher: “(…) quando ninguém me via, colava no meu palácio de tijolos sem reboco e começava a me converter em Camila”.

Espiamos por dentro a vida dela se transformando a partir do furto de objetos esquecidos das mulheres que a cercavam: “Camila foi feita de pequenos delitos”. Um “menino veado” perseguido na escola, “travesti precoce” estuprada por 3 homens dentro de uma viatura de polícia e que sangra por dias devido a tamanha violência — era virgem: “Desde esse dia, meu corpo assumiu um valor diferente. O corpo deixou de ser importante. Uma catedral de nada”. A dor e a vergonha cederam lugar ao silêncio da vergonha, ao segredo, a performance e ao sorriso. 

Os corpos dissidentes insurgem e abrem os espaços: se não há silêncio, persiste o grito; se não há calmaria, persiste o atrito; se não há escuta, persiste a luta, a voz, a escrita e a alegria.

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É para a rua chamada Dante, onde o Parque Sarmiento está localizado, que descemos todas as noites ao Inferno de braços dados com as travestis em ronda. O espectro literário da Divina Comédia circunda essas existências fora das margens, o ambiente infernal confunde: “O que a natureza não dá, o inferno empresta. Ali, naquele Parque próximo ao centro da cidade, o corpo das travestis toma emprestado do inferno a substância do seu feitiço”, apesar do frio da noite. Lá estão elas todas juntas, uma corrente de cuidado num mundo devorador de gentes, se protegem e se entendem, elas — as musas do Parque e o prazer, muitas vezes fetichista, dos clientes.

Este romance escancara as existências que transbordam e se movimentam pelas margens do mundo. Faz com que o discurso dominante e opressor seja reduzido a pó, pois expande os olhares e o próprio ato de escrever, criar e transcender. Os corpos dissidentes insurgem e abrem os espaços: se não há silêncio, persiste o grito; se não há calmaria, persiste o atrito; se não há escuta, persiste a luta, a voz, a escrita e a alegria.

​Mas você pode estar se perguntando: como o clássico de Alighieri se relaciona com uma obra contemporânea publicada na América do Sul? Bem, a associação é uma tirada da autora que estabelece no seu romance paralelos entre o Parque e o Inferno (dantesco) por conta do nome da rua onde esse espaço está localizado e do contexto do trabalho executado. As prostitutas também vagam pela noite densa, sem rumo e sem consolo, mas persistem no trajeto como Dante — o herói da Divina Comédia (humana). Neste conto de fadas sinistro, divinas são elas — as prostitutas travestis — que se equilibram em sapatos de salto altíssimo e conduzem os seus espetáculos, nem sempre trágicos.

O parque das irmãs magníficas é uma obra que precisa ser semeada, lida e celebrada. O que Camila Sosa Villada nos entrega é um documento poético para além de um simples sentido estético. É um manifesto, uma reivindicação de existência e persistência. Os corpos travestis resistem às intempéries do mundo, mas até quando precisarão brigar por direitos e respeito? Até quando serão tratados como descartáveis ou escondidos por trás das cortinas sujas da vergonha e da violência? Ou como disse a própria autora em uma palestra citada no prefácio desta obra: “Alguma vez chegaram a pensar que a poesia poderia ter forma tão concreta?”


Foto de Luísa Machado.


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Mais sobre a obra

“Eu nunca escrevi diários! Isto aqui é um extravasamento, um inventário estilhaçado, sem datas fixas no calendário, sem horários demarcados — guiado por Kairós”. Assim escreve no preâmbulo a autora de cacos retidos na margem, nomeando Kairós como preceptor de sua jornada entre a prosa e a poesia e, nesse simples ato, recusando a medida, a exatidão e a linearidade.

O tempo da palavra de Adriane Figueira é o do extravasamento. Os textos desse livro são desenhos sutis, quase oníricos, de um labirinto de memórias e vertigens que, solitário e vigilante, assoma como possibilidade de um contágio verbal que desoculta as tempestades da nossa experiência.

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