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Alejandra Pizarnik: noite aberta, noite presença; ou como dançar na escuridão do verso

por Adriane Figueira
Foto de Luísa Machado para o texto

​Adriane Figueira é paraense, nascida e criada às margens do Tapajós, mas vive há uma década na capital carioca. Tem um gato amarelo chamado John Lennon. É licenciada em Letras (UFPA), mestra e doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas (USP). Entusiasta da escrita, pesquisadora, revisora, professora e poeta intimista. Revoada do dragão (Patuá, 2021) é seu primeiro livro. Filha do raio e da tempestade, uma lírica desassossegada. Escreve quase todos os dias para não sucumbir ao labirinto dos sonhos e das vontades.


Tomando uma frase emprestada de Gilles Deleuze, do prólogo da obra Crítica e clínica (2013), quando o filósofo francês diz que “A literatura é uma saúde”, me acomodo nas asas desse pássaro engaiolado que canta solitário nos versos de Alejandra Pizarnik, guiada tão somente pela luz lilás dançante na névoa: “Escrever é uma espécie de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de Vida que atravessa ou vivível e o vivido.” (DELEUZE, 2013, p. 11).

Iluminada pelas ideias de Deleuze, minhas palavras nascem e se lançam aqui em êxtase. A escrita de Alejandra Pizarnik se forja no delírio da linguagem, na noite que a poesia carrega e espalha. A loucura que rasga a pele, o verbo e irrompe o verso. Não pretendo com isso fetichizar a dor, muito menos reduzir o trabalho poético a diagnósticos psiquiátricos ou relatos pessoais, mas pensar como esses elementos se articulam e criam atmosferas para navegar pela escritura, pelo(s) devir(es).

O silêncio que se instaura nas entrelinhas poéticas se assenta a partir dos rastros, verbais ou não, que a leitura e a estrutura dos poemas proporcionam. A obra Os trabalhos e as noites, originalmente publicada em 1965 e editada no Brasil pela primeira vez em 2018, é um livro escrito a partir do retorno a sua terra natal — Avellaneda distrito de Buenos Aires —, ao giro existencial que promoveu sutis mudanças no estilo autoral de Alejandra Pizarnik (1936-1972) e em sua vida privada que ressoa na sua poesia de aspecto soturno e se deixa transbordar pelos “muros” — sintagma que ganha corporalidade e sentido em muitos de seus poemas.

A escrita de Alejandra Pizarnik nos encaminha por trajetos solitários e urgências existenciais, sugestões tateeis e outros recursos estilísticos numa espécie de percurso, cartografia de silêncios — uma busca constante que se insinua em cada novo verso e que abre este livro com um texto intitulado “Poema”: “Tu eleges o lugar da ferida / onde falamos nosso silêncio. / Tu fazes de minha vida / esta cerimônia demasiado pura.” (PIZARNIK, 2018, p. 19).

O silêncio da clausura — essa imagem de aprisionamento, recolhimento e encerramento ou ainda começos, seja ela imposta ou auto infligida — nos localiza dentro do universo inaudível das existências que nascem e morrem através dos versos de Pizarnik, a voz ou vozes que falam ou calam dentro desses textos: “na outra borda da noite / o amor é possível…” (PIZARNIK, 2018, p. 41).

Dividido em três partes, os poemas são curtos, em tom sombrio e melancólico e carregam quase sempre uma negatividade bastante comum na escrita de Pizarnik. Há uma referência no título que rememora às avessas o poema épico de Hesíodo, enquanto no texto clássico discorre sobre Os trabalhos e os dias, a poeta argentina se debruça sobre o labor dentro desse corpo lilás em construção intermitente — a noite e suas sombras.

Não é possível, após ler essa obra, tentar refazer cenários ou precisar contextos sociais e históricos, a poesia de Alejandra se ancora numa linha “autobiográfica” tênue. Há uma insistência nos estudos deste gênero quando tratamos da obra desta autora argentina, mas Pizarnik não se encerra numa bioescrita, sua poesia ultrapassa moldes formais e/ou confessionais.

Escrever é ser solidão, é ser infinito. A poesia de Pizarnik cintila dentro de um ritmo próprio, me perco na tentativa de organização, o verso escapa das armadilhas da razão ou da normalidade esperada.

No entanto, há manuscritos biográficos e autobiográficos incorporados pelos estudiosos de Alejandra, no tocante a seus diários e cartas — que ganharam edições e foram publicados pela editora espanhola Lumén, bem como toda a sua obra em prosa e poesia — que apontam para incidências que iluminam interpretações e leituras do ponto de vista estético.

Em Os trabalhos e as noites temos múltiplas vozes, quase todas pautadas por um feminino encenado ou ainda um ausente que não pode ser nominado: um uso constante do pronome “tu”. O trabalho é diário e a noite carrega o desconhecido, a ausência de luz e o silêncio do espaço compartilhado. A poeta subverte a ordem, descansa e se recolhe durante o dia para “ressurgir” em potência através da noite e suas cintilações lunares.

Fragmentos de sonhos, desejos e conversas travadas com o ser ausente que se faz presente por meio de sons e palavras. O uso constante da segunda pessoa do singular, este “tu” que navega misterioso(?) pelos versos, sublinha o contato poético, se abre para a outridade e funciona como um espelho embaçado que reflete ad infinitum o silêncio que é por excelência
invisível, inaudível: “(…) Que teu corpo seja sempre / um amado espaço de revelações.” (PIZARNIK, 2018, p. 21). O corpo como linguagem que se insinua, meio pelo qual a voz poética se ergue e comunica o incomunicável.

A presença do prefixo “in” marca a leitura que faço desta obra de Pizarnik, pois a falta de pertencimento e a ideia do “sem” que pode ser ausência ou desmesura, se apresenta a cada nova virada de página. Silêncio que é falta; o desenho que se esboça e se apaga diante do olhar do outro; a linguagem que se ergue no rastro do vazio, do lilás da noite aberta, presença; a mulher que aguarda impávida o escurecer dos sentidos todos, observa atenta a corrida do tempo que corrói a memória, o desejo, o afeto e o sono: “(…) Há, na espera, / um rumor de lilás rompendo-se…” (PIZARNIK, 2018, p. 65).

O que me fascina na escrita de Alejandra é o que escapa das retinas, da pena. É a noite com sua escuridão — espectros lilases — que nos põe a todos em alerta: no sono, no sonho, no delírio: “Alguém entra no silêncio e me abandona. / Agora a solidão não está a sós. / Tu falas como a noite. / Te anuncias como a sede.” (PIZARNIK, 2018, p.35).

Escrever é ser solidão, é ser infinito. A poesia de Pizarnik cintila dentro de um ritmo próprio, me perco na tentativa de organização, o verso escapa das armadilhas da razão ou da normalidade esperada. O que é a loucura, afinal? O que é sucumbir dentro da realidade que nos cabe? Há pegadas deixadas na inscrição da palavra poética, essas migalhas devoradas pelos pássaros que carregam os sentidos para longe. Ou como escreve Jean-Luc Nancy, em Resistência da poesia (2005, p. 16): “(…) <Poesia> diz o dizer-mais de um mais-que-dizer. E diz também, por conseguinte, o não-mais-dizê-lo.”.

As imagens fragmentadas de aprisionamento, recolhimento e encerramento ou ainda começos, nos localizam dentro do universo inaudível das existências que nascem e morrem através dos versos de Pizarnik. Um sussurro nascente no devir errático, no movimento engendrado pela dormência. A cabeça da poeta gira e se desalinha, desenhando para nós — os leitores — as (im)possibilidades: “E ainda me atrevo a amar / o som da luz em uma hora morta, / a cor do tempo em um muro abandonado. / Em meu olhar eu perdi tudo. / É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.” (PIZARNIK, 2018, p. 115).


Referências


DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. 2a ed. 1a reimp. São Paulo: 34, 2013.

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Lisboa: Vendaval, 2005.

PIZARNIK, Alejandra. Os trabalhos e as noites. Belo Horizonte: Relicário, 2018.


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Mais sobre a obra

“Eu nunca escrevi diários! Isto aqui é um extravasamento, um inventário estilhaçado, sem datas fixas no calendário, sem horários demarcados — guiado por Kairós”. Assim escreve no preâmbulo a autora de cacos retidos na margem, nomeando Kairós como preceptor de sua jornada entre a prosa e a poesia e, nesse simples ato, recusando a medida, a exatidão e a linearidade.

O tempo da palavra de Adriane Figueira é o do extravasamento. Os textos desse livro são desenhos sutis, quase oníricos, de um labirinto de memórias e vertigens que, solitário e vigilante, assoma como possibilidade de um contágio verbal que desoculta as tempestades da nossa experiência.

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