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À margem

por Thais Guerra
Foto de Luísa Machado para ilustrar a crônica

Thais Guerra é formada em direito e mestre em desenvolvimento internacional; se interessa por teoria da democracia e sociologia da violência, direitos humanos e igualdade de gênero. Escreve para tentar compreender o mundo e, talvez, ajudar a escrever novas histórias. 


Maria não ligou o som, não lavou a louça ouvindo podcasts, não ouviu rádio. O ouvido precisava ficar livre, como o do seu gato, sempre atento e preparado pra reagir a um ataque. Agora observava os passos do corredor que davam pra porta de entrada. O silêncio talvez seja o mais marcante. Não é de paz, não é tranquilo, é sempre tenso e carregado de medo. Estado de alerta constante. Aquele dia, no dia seguinte, e no outro, e no outro…

Desceu do ônibus, olhou pra um lado, pro outro, e pra trás, e seguiu em frente com passadas largas no ritmo do coração que se acelerava numa pressa crescente, até os passos emendarem numa corrida apressada tentando ir mais rápido, mais rápido, mais rápido. Corre, corre, corre, corre. De quê?

O dia estava acabando, precisava chegar em casa. Respiração ofegante, passada, mas de olhos atentos à frente, de um lado, do outro, atrás; “ai meu pescoço, meus ombros”, exclamou pra si mesma. Recuperou o fôlego e meteu as mãos nos bolsos apertando ainda mais os passos, a direita tateava encontrando a chave da porta de entrada e já a colocava na posição certa de encaixar na fechadura; seguiu todo o caminho com a mão apertando as chaves, como se aquele objeto lhe trouxesse alguma segurança… subiu num pulo os lances
de escada, atravessou numa passada todo o corredor, abriu e fechou a porta no mesmo movimento, girou duas vezes a chave, mais duas vezes a tetra, encaixou a barreira e o pega ladrão que mandara instalar depois que tudo aconteceu. Naquele dia dormira na casa de uma amiga, longe dali, e conseguiu fechar os olhos um pouco. Nos dias que se seguiram ia revezando, de sofá em sofá, não ficava tranquila sozinha, e o medo sempre apertava mais à noite, prisão das mulheres.

Mas uma hora tinha que voltar. Pra sua casa, seu gato, sua rotina, sua vida. Respirou profundamente, acendeu a luz expirando lentamente, conseguiu chegar em casa. Alívio. Abriu os olhos e ainda com as costas coladas na parede ao lado da porta de entrada, mapeava todos os cômodos pra ter a “certeza” de que estava sozinha. “ Mas como ter certeza? Como parar de pensar que algo pode acontecer a qualquer instante?”, essas ideias vinham automaticamente. “Queria um botão delete”, pensava. O telefone tocou de novo, e mais uma vez. Na terceira, atendeu. Era propaganda. Ufa. Pela primeira vez não ficava irritada com ligações comerciais fora do horário. Ao fechar a porta, sentiu o peso nos
ombros, que descia pras pernas e desequilibrava os joelhos. Perdeu o chão e se deixou desabar no sofá. A luz permanecia acesa, sempre.

Voltava da delegacia de mulheres. Contar, recontar e contar de novo a mesma história, com todos os detalhes, devendo pensar em datas, provas, fatos, se aconteceu, o que aconteceu, revivendo, a cada vez, tudo de novo, sendo colocada à prova, à cada vez. Nem mexeu no prato de comida. Lembrava do relato na delegacia, pra família, amigos próximos, psicólogos, advogados, colegas do trabalho, segurança do trabalho. Contava tentando entender o que se passava, buscando orientação de como proceder, buscando segurança.
A cada escuta atenta, amparo. A cada indiferença, uma barreira se erguia e a deixava ainda mais isolada num vazio que era preenchido por um sentimento de solidão enorme, agudo, doido. Depois de um tempo, as palavras já não saiam mais do mesmo jeito, saiam embargadas, vagarosas, e não tinha bebido nada. Exaustão.

Respiração ainda pesada, se rende ao cansaço, embora a mente permanecesse em alerta e agitada. A violência do “amor romântico” bate. “Estou exagerando? Sendo injusta?”, pensava. Grito surdo que não alcança ninguém e fica preso no peito. Respirava, mas faltava ar. Na delegacia, não havia nada que pudessem fazer diante daqueles fatos, nenhuma medida de proteção possível enquanto não se configurasse uma sucessão de “ameaças”. Tem uma lei nova, mais específica, mas o entendimento que está se formando parece que
precisa de fatos recorrentes e ameaças concretas. “Como medir essa concretude?”, se perguntava. Por que sua tranquilidade e a liberdade na sua rotina já estavam reviradas e limitadas pelo medo de ter sempre alguém ali, a observando. “Não seria isso a tal violência psicológica? Precisavam de fatos mais concretos? E recorrentes? Deveria, então, torcer pra receber uma próxima mensagem abusiva?”, se indignava. “As mensagens já demonstravam um comportamento desequilibrado”, tentava falar, mas parece que o som já não saia, enquanto seu corpo se diluía a cada negativa que recebia naquela cadeira no guichê nove.

O cigarro balançava entre os dedos que se mexiam rápido, de um lado pro outro. Tentando equilibrá-lo, quase caiu. Esticou o braço e o passou rapidamente pra um amigo. Ao contar novamente o que tinha acontecido sempre era tomada por um tremor, que vinha de dentro, “de onde vinha?”, e que tomava o corpo inteiro; quando se deu conta, o café tinha derramado e os amigos a olhavam. Largou a xícara e pressionou as duas mãos nas pernas,
numa tentativa de se livrar daquela sensação que a dominava, respirou e retomou a história. “Sim, é o que vou fazer”, informar a segurança do condomínio, criar uma rede de contatos de acesso rápido no celular e também do telefone do batalhão do bairro, sempre compartilhar viagens de aplicativo, sempre informar a alguém onde estou indo, evitar sair sozinha, principalmente à noite; a trava, a tetra e o pega ladrão já foram instalados.

Dois dias depois uma amiga foi visitá-la. Subiu num pulo os lances de escada, atravessou numa passada todo o corredor. Maria abriu e fechou a porta no mesmo movimento, girou duas vezes a chave, mais duas vezes a tetra, encaixou a barreira e o pega ladrão. Ufa, respirou a amiga que tinha as mãos que tremiam. “Tinha um cara parado lá na porta, deu medo, imaginei que pudesse ser ele, e o hall de entrada estava com acesso livre, é sempre assim?”.

Na semana seguinte voltou mais uma vez pra juntar fatos novos. As mensagens delirantes, persecutórias, obsessivas e insistentes tinham recomeçado. Dessa vez foi acompanhada. Aceitou ajuda apesar do medo de envolver pessoas queridas naquele pesadelo. Por outro lado, a rede de amigos era o mais tangível naquilo tudo. Foi ouvida com um olhar reticente e solto no ar. Às vezes ouvia um murmúrio que parecia concordar com o que relatava, “pode ser que se configure”, dizia a voz; mas, logo vinha uma ponderação, “ele é somente um homem com problemas no trabalho que quer conversar, se coloca no lugar dele, deveria compreender a situação”. Diante da insistência, repensa, se coloca em questão, a insegurança aumenta, “sou mesmo vítima ou estaria exagerando?”, tenta argumentar, mas a voz na sua frente volta a divagar, “realmente, olhando por esse lado”… porém, a nuance vinha logo em seguida, “ele pede desculpas, veja só, deve ser somente um homem apaixonado que veio trazer flores, tente ver por esse lado”. Emudece.

De volta em sua casa, depois de saltar do ônibus, de olhar atenta pra um lado, pro outro, pra trás, andar apressado, apertar as chaves no bolso, subir num pulo os lances de escada, atravessar numa passada o longo corredor, abrir e fechar a fechadura, tetra, barreira e pega ladrão e acender a luz, se abraça, e fica assim um momento até ir se encolhendo e ceder ao cansaço deixando o corpo cair no chão. Busca proteção, busca se sentir segura de novo, sente frio.

Voltou de novo à delegacia especializada. Mais fatos novos, mais mensagens delirantes, persecutórias e obsessivas. “E vou insistir”, dizia a última mensagem. Dessa vez ficou configurado. Alívio imediato, porém instantâneo. “Mas, me explica mais uma vez, com todos os detalhes, pra não dar margem pra entrar com denúncia de difamação contra você”. O alívio se dissipa dando lugar à mais angústia e medo que tomam tudo. “O que aquelas palavras significavam? Qual o alcance elas poderiam ter?”, tentava raciocinar e calcular nos segundos que tinha até a próxima pergunta. Sentada na cadeira de depoimento, era seu short jeans, camiseta de malha e chinelos diante daquela instituição que parecia tão grande… Pensava somente que queria se sentir segura de novo, poder caminhar nas ruas sozinha e se distrair olhando as árvores tranquilamente de novo; fazer as coisas triviais da vida sozinha de novo, ir à farmácia, ao supermercado, sem que o coração e os passos ficassem acelerados pela tensão e o medo constantes; porque afinal, até ali, era ela quem estava presa.

Decidiu prosseguir. O telefonema de amigos apoiando foi fundamental pra criar coragem. E a partir de agora? “Não. O apoio psicológico é somente às vítimas”, disse a voz.

Contou pra uma amiga que a ouviu atenta e que relatou sua própria história revivendo, por sua vez, todo o medo e a angústia que emergiam de um passado distante, mas que ainda estaria vivo? Se emocionaram. Contou pra um amigo gay e sentiu vergonha porque ele respondeu relatando a presença constante do medo da perseguição em seu cotidiano, e despejou numa mesma sequência sem respirar todo um protocolo de segurança que tinha sempre que saia de casa e que ela negligenciava até então (em que mundo ela vivia?); ela o conhecia há tanto tempo e estava à margem de tudo aquilo que agora ela também enfrentava de forma tão presente e urgente em seu cotidiano. Se sentiu culpada, omissiva. “Somos sonsos”, como disse Clarice, e essa ignorância parece nos “proteger” em nosso narcisismo ao passo em que é tão violenta…

Contou pra mais uma colega e a história se repetiu mais uma vez. E com outra amiga, e com a amiga da amiga, a tia, a sobrinha… Até aquele momento tudo acontecia somente com Maria que era o centro do mundo. Contou pra outra e outra. Todas, sem exceção, tinham uma história de violência pra contar. A partir daquele momento não era mais somente ela, Maria não estava mais sozinha. Maria agora era todas as mulheres.


Foto de Luísa Machado.

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