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Godard est mort

por Yasmin Bidim
Foto de Luísa Machado para ilustrar o texto

Yasmin Bidim vive na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Tem formação em cinema e é doutoranda em Estudos de Literatura pela UFSCar. Trabalha como pesquisadora e educadora de arte e cultura, artista multimídia e produtora cultural. Produz o canal Poesia em Obra, no YouTube, no qual divulga seus poemas visuais e também o blog A Terra é Plena. Em 2020 lançou pela editora Penalux seu primeiro livro de poemas, o Livro dos Interiores.


Eu descobri Godard muito tarde. Mesmo tendo estudado cinema na graduação, fui descobrir seus filmes muito depois, já no doutorado. Foi lendo os livros de Deleuze sobre cinema e Um teste de resistores de Marília Garcia que Godard entrou no meu radar. Lembro que na graduação eu sentia uma antipatia por Godard e seus filmes. De algum modo a obsessão que todos tinham com sua obra e sua figura me fazia achá-lo muito batido. Não fazia sentido gostar de algo que todo mundo gostava. Godard pra mim soava como o clichê do alternativo, o mainstrean da vanguarda, o que pode parecer muito absurdo, mas nem tanto, se pensarmos que sua fama e sua contribuição essencial para o cinema dito moderno (todo cinema é, na prática, moderno) o colocaram em um lugar de destaque – e até mesmo de popularidade. 

Talvez Godard tenha sido mesmo o mais popular dentre os alternativos, mas isso não o fez menos alternativo. Pelo contrário, seu poder de iconoclastia e de mover as peças do cinema, tal qual o século XX conhecia até então, talvez tenham sido tão grandes que por isso mesmo sua figura e seus filmes povoam até hoje um vasto imaginário da cultura popular.

Godard não tem receio de expor o cinema, mesmo que corra o risco de tirá-lo de seu status de representação do real. Pelo contrário, é precisamente isso que ele busca fazer (…)

Foi bom que eu tenha me encontrado com Godard tardiamente, depois dos trinta. Assistir a seus filmes com uma certa maturidade certamente me fez apreciá-los muito mais. Me fez uma espectadora muito menos exigente quanto a necessidade de entender algo, de tirar, necessariamente, algum significado da sua obra. Aliás, se tem algum significado que os filmes de Godard podem assumir é justamente que o cinema não precisa significar nada. Ele não precisa, como até então mostrava o cinema clássico hollywoodiano, ir em alguma direção, ter um sentido. A montagem no cinema não precisa operar, como nos ensina Deleuze, uma síntese de um todo cujo significado busca afirmar alguma visão de mundo – uma moral, uma ideologia, um dogma. Godard nos ensina que o cinema, e sobretudo a montagem, não são uma síntese do mundo. O cinema de Godard é tudo menos sintético. É caótico, saturado, iconoclasta e contraditório. Tem a brilhante capacidade de não se levar totalmente a sério. De duvidar (e rir) de si mesmo. 

Por isso o cinema é constantemente um tema e um personagem em seus filmes. Godard não tem receio de expor o cinema, mesmo que corra o risco de tirá-lo de seu status de representação do real. Pelo contrário, é precisamente isso que ele busca fazer, expor “o fato moderno [de] que já não acreditamos nesse mundo. Nem mesmo nos acontecimentos que nos acontecem, o amor, a morte, como se nos dissessem respeito apenas pela metade”1. Seu metacinema trata de inverter a equação da representatividade: “Não somos nós que fazemos cinema, é o mundo que nos aparece como um filme ruim”2. Para Deleuze, o poder do cinema moderno, e em Godard especialmente, seria “restituir-nos a crença no mundo”3 tal qual ele é, e isso implica em “crer no corpo. Restituir o discurso ao corpo, e, para tanto, atingir o corpo antes dos discursos, antes das palavras, antes de as coisas serem nomeadas”4. Não é uma surpresa que, assim como Deleuze, seu fã, Godard tenha decidido pelo suicídio (assistido, no caso do cineasta). Tanto para o filósofo como para o cineasta o suicídio coincide com sua crença, sua fé no mundo e acontece como um último ato de crença no corpo, uma escolha tanto ética quanto estética.


1 DELEUZE, Gilles. Cinema 2 – A imagem-tempo. São Paulo: Editora 34, 2018. Pag. 249.
2 Ibidem.
3 Idem, p. 249.
4 Idem, p. 251


Foto de Luísa Machado.

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