• 0

    Frete grátis a partir de R$ 110

2 poemas de Sérgio Ortiz de Inhaúma

por Sérgio Ortiz de Inhaúma
Arte: The Burning of the Houses of Lords and Commons de J. M. W. Turner.

Sérgio Ortiz de Inhaúma é nascido e criado na Vilarrua Acorizal, em Inhaúma, Subúrbio do Rio de Janeiro. É autor de Zona da Mata Eletrônica (Editora RBX, 2011), A guerra de plástico (Editora Oito e Meio, 2015), Dioilson (Editora CLAE, 2017), — Livro-Projeto, Criãçação, que consiste em três partes-livros: Jaína-máquina divino (Editora CLAE, 2019), Yjá,Ygê (Independente, 2020) e A’zúluà, (Independente, 2020); — Valdêniagô (Editora Urutau, 2020), Tânia Trupolina (Editora Urutau, 2021) e Cajujerê (Editora Urutau, 2023).


olhar com ifá

cabeças desgovernadas lançam fogo
contra o dia nascido invertebrado
ㅤㅤㅤ evadidos pela catástrofe proibida
que cai
cravos fugidios
canto de amontoados
ㅤㅤㅤ ㅤalumínios
ㅤㅤㅤpraias avançando ruas

dengue dendê
futuro pressentido
saturnos
seio do caroço de manga

vestidos de chita
ㅤciranda
corpo suor sinuoso
ㅤcatimbozeiravam
ㅤㅤreflexo fino ㅤ lâminas talismãs babalaôs

gota translúcida
 vazio percorrido calor das chamas
destrinchado tetos
verbos púrpuras
ㅤㅤ dendezeiros impossíveis
marmeleiros em que cai avariada
ㅤㅤ ㅤ donde pressenti
a tarde com cheiro de fogo
ㅤpelo amor que se levanta
 o estalar dos cacos sobre pedras

entresquina entremorro da mangueira
numa rua qualquer vazada
ㅤㅤdesde Radial Oeste
na quina no antro da curva
uma velha esfarrapada
belamente saturada
ㅤe ao relento da noite poça crua
sozinha em farrapos
ㅤ no eito de sua tragédia
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤcrua
em paisagem
ㅤㅤtransfigurada
gemido curto
ㅤ invisível
alguns sacos de lixo
uma cadela a tira colo
 infantil necessidade de viver
que lhe arranha os ossos
desde dentro
ㅤㅤㅤ ao topo de sua não serência

por vinte dias forniquei na praça
intestino de carne afiada
abstrata
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤviolentamente real

sou uma criatura
caçando
 boca possessa
 sentidos aguçados
 açucarados
ㅤㅤacessos
pressentindo a guerra
sinto totalmente excitada com as faíscas

vontade de apanhar o tempo em sua coisa indistinta

pela rua
 já era tarde
senti como se perdesse
ㅤㅤㅤ meus passos
aquelas ruas
as casas acesas
filas de redemoinhos
trepadeiras asfixiadas
ㅤㅤ crianças remexendo lixos
fogo queimando galhos retorcidos
fogo lambendo plástico
ㅤㅤ um episódio
chamas coloridas

menina fui
ㅤque valia bem menos
ㅤque uma estrela
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤbem menos que os tufões
arrasando a Ásia
fogo que me acende
ㅤㅤㅤfeito lâmpada de sódio
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤdepois daquela segunda-feira
dos dias depois dela
perto de casa trepada em casa
ㅤglobo de exaustor roendo
ㅤㅤtarde
empilhada nas latas
ㅤsou atingida por aquele
vento defronte
as notícias
ㅤà minha porta
televisão ricocheteada
ㅤvelhas cafungando
cheiro das fachadas
sento no quarto
ㅤaqueles olhos esmurrando os meus
nossa carne se misturando
ㅤna frequência de sua infância
menino
como te quis assim
entre
 nada do que dissemos
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤou exatamente o que queríamos
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤe já nos anunciávamos
bem antes mesmo em
 que caíam nossas partes
soçobrando no que gozávamos suadamente


sonhos na borda da luz

velha-índia costurando
funk
na borda da noite
ㅤㅤtocando incessante
curumins
ㅤlua escarlate
mênstruo
ㅤᅠsopa de lampiões sorriso esperto

bola de fogo
rasgando
bonsucesso
 bagunça forrobodó intenso

mulheres de boca aberta
rio abrindo suas águas
ㅤ ㅤ verde desperto na ausência

floresta amazônica de meus amores
ᅠㅤquando fingi
grávida
ᅠᅠseios túmidos seu olhar
de outros frutos
onde descansa
rudimentares
muito próximo da mãe Ci

onde por sua cidade hoje
nos ouvidos
um velho barbado de nuvens
ᅠᅠ canções nas lunetas
acariciavaᅠᅠᅠᅠᅠᅠᅠ o burrinho manchado de asas

a pipa caía sobre a via Light
ᅠ percorrendo besteiras
ᅠᅠ olhos em Nilópolis
ᅠ na zona das queimadas
 cinzas
e duas meninas
ᅠᅠ ᅠ brincavam com os pés
ᅠ no topo
  do cheiro de mato

campinho abandonado
meninos zombavam
ᅠᅠ ᅠ ᅠᅠesculachos entrapados
farfalhar das nuvens despendia
prazeres miúdos

quando trancafiada
me senti numa lente de contato
ᅠᅠ arranhada pelas espessuras
criança no deserto das coisas suspensas

barracos cercados
ᅠᅠ terreiros-baldios
rapazes pulando o muro do trem
ᅠᅠ camelô comendo quentinha
a menina esfaqueada
tudo
quando zelo fixo da mais profunda desordem


Você acabou de ler uma seleção de poemas de Cajujerê (Editora Urutau, 2023), livro de Sérgio Ortiz de InhaúmaGostou dos poemas? Adquira-o clicando aqui.

Mais sobre a obra

Em tempos em que os poetas vivem em miudeza e suas obras publicadas condensam-se, Cajujerê retesa os séculos e espanta o esfomeado pelo poema – aqui, nesta obra, se tem fartura. Os versos acontecem por toda a página, espalhando o corpo da palavra assim como nossa árvore genealógica fundou o Brasil. Os suburbanos, os pobres, os pretos que galgaram todo um país fundado por edificações e rodado pelos braços das máquinas. Sérgio Ortiz de Inhaúma alucina o leitor numa escrita épica onde entidades heroicas estabelecem o maior dos heroísmos do mundo: a cosmopoética. 


Arte: The Burning of the Houses of Lords and Commons de J. M. W. Turner.

Leave Your Comment

faz um PIX!

Caso dê erro na leitura do QRCode, nossa chave PIX é editora@aboio.com.br

DIAS :
HORAS :
MINUTOS :
SEGUNDOS

— pré-venda no ar! —

Literatura nórdica
10% Off