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Imitação da crônica

por Ubiratan Costa
Foto de Leopoldo Cavalcante para ilustrar o poema "Imitação da crônica", de Ubiratan Costa.

Ubiratan Costa é poeta e compositor natural de Goiânia – GO. É formado em Composição pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor do livro As Notações do Azul (2021, edição do autor). Integra o grupo Música Íntima, fundado em 2017, e que reúne jovens compositores residentes em Goiânia, junto aos quais lançou o álbum Jackhes, meus amores (2019) e o EP Reverdecente (2020), disponíveis nas plataformas de streaming de música. 


Imitação da crônica  

Ela eu sei que me quisera vender,  
certa vez, ovos de Páscoa caseiros 
que eu fantasiaria, por gosto,  
serem feitos à tarde.  
E dela eu sei que,  
não fosse agora a chuva,  
é certo que ao seu portão se veria, 
como sempre, em cartolina:  
VENDE-SE GELADINHO  
ou outra coisa anunciada à mão,  
cursivamente, em canetinhas coloridas.  

Qualquer outra coisa,  
mas feita à tarde, é claro  
(assim arbitro, assim fantasio),  
alguma outra iguaria que eu levasse 
no engano de auscultar  
– nos sulcos do chocolate,  
na calda da fruta,  
ou no crocante da castanha –  
o tilintar da louça que se lava após o almoço, 
uma conversa de cozinha,  
um café que goteja no coador  
e outros rumores de uma tarde inventada.  

Mas o que dela  
de fato eu ouvi  
foi sem preparo,  
não foi buscado,  
não foi tarde inventada  
nem mesmo ouvi no chocolate,  

mas disse ela própria  
à amiga com quem bebia  
quase à hora do almoço,  
entre malandros aposentados  
e alcoolistas jogando cartas  
num boteco de má fama.  

Passei à calçada no justo instante  
de recolher o que dissera  
depois talvez de muito evitá-lo. 

E foi num português  
quiçá moldado por anos  
ao lirismo nulo de dizer do leite,  
da carne e da farinha em promoção, 
com este português  
dando suas voltas  
de celofane e teflon,  
numa súbita incumbência  
de lirismo é que disse:  

“… ninguém entende o amor 
que eu sinto por minha mãe. 
Nem ela sabe o amor  
que eu tenho por ela.”  

Ouviu-lhe a amiga,  
mas também eu  
e quiçá os quitutes,  
as salsichinhas mini,  
os feijõezinhos enlatados  
expostos nas prateleiras.  
O jogo de cartas  
dos malandros velhos  
nem se doeu,  
mas recolheram as paredes  
(assim enfeito)  
a ternurinha suada daquela confissão. 
Ficou nelas feito o cigarro,  
a pinga  
e o cheiro dos homens  
que se encostam ali.  

E assim me fui, satisfeito  
em reter finalmente 
– feito as paredes,  
os chocolates 
e os geladinhos –  
um rabicho de vida  
que não é minha.


Bem cedo aos sábados, uma doidinha  
reincidente (como o carro do lixo)  
e ligeira (feito ambulância)  
passa à rua.  

À beira do rio de asfalto  
que a suponho cruzar  
sozinha em zigue-zague  
(apenas suponho,  
pois que nunca a vi),  
esse timbre antigo de lavadeira  
(voz de café fresco  
e de folhagem seca)  
talha o ar quase palpável  
da manhã mal começada.  

São seis, são  
seis e meia,  
e que um certo vagabundo trabalhe  
ela ordena berrando  
seu refrão insistente  
(ao filho morto talvez,  
ao filho ausente,  
quem sabe ao traste  
assassinado do marido).  

No entanto,  
não acolherá ninguém  
a sua ordem,  
pelo menos  
não agora:  

o furor de periquitos  
nas folhagens  
não lhe sente,  
o sono sem sonho  
dos prédios  
nem se atina  

que é sábado,  
é cedo,  
e que uma voz ferida de lavadeira  
rasga a manhã 
com o metal da loucura. 


Foto de Leopoldo Cavalcante.

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