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5 poemas de Leopoldo Cavalcante

por Leopoldo Cavalcante
praia do mucuripe em 1944

A mão mais mansa

Afagava os poros dos braços desnudos
com a mão mais mansa
A mão de adestrar os cães da rua
A mão com as unhas crescidas,
cortando o suor das noites,
amansando os rebanhos da cidade,
penteando os cabelos dos postes
A mão mais mansa
A mão de adestrar os cães da rua.


Sob a lua materna

Corta minha mão
com a unha
e deposita no corte
um punhado de areia

Diz que me ama enquanto
houver areia em mim

O sangue agita-se
coagula uma cicatriz
e transforma aquelas pedrinhas dispersas
em rocha ensanguentada,
repousando em minha palma
até o próximo amor.


O desmatamento de uma selva pop

Desfilava pela cozinha com um Band-Aid da Turma da Mônica no
/ calcanhar
Passava pelo corredor, ia no quarto e voltava com uma girafa azul
depois um Hora da Aventura
outra vez com o Cascão

A última que eu percebi foi da Dora, a aventureira

Tentei não pensar no desperdício
daquele amontoado de papel colante e
colorido adornando o chão do banheiro,
alguns desbotados no tapete do banheiro,
tampando os ácaros e sufocando o planeta.


Coração pronto para o roubo

p/ Gabriel, o Moraes

Cardiopatas embriagados nos leitos da UTI
jogam truco conectados aos monitores:
“Onde é o inferno? Quero saber onde é o inferno.
Não quero saber de corações defeituosos amenizando
o peso da vida. Quem vai me julgar
por ter enforcado bebês nas catedrais? Quem
vai tirar meu sossego eterno?” E já era a quadragésima
quinta vez que os convalescentes ouviam aquela lamúria.
“Aqui é o inferno. Aqui terá teu julgamento
pelo sangue coagulado entupindo as veias do
coração. Aqui os espíritos enforcados perseguirão
os cateteres e sorverão a urina podre de álcool.
Aqui o sonho será da cor do silêncio. Aqui tombar as
cartas será a única lei e o único dever.” E entrou
o enfermeiro acompanhado da mariposa negra
abrindo suas asas, asfixiando os bêbados em
seus leitos. Os sinos dobraram ao compasso
do monitor. E os corações pararam ao mesmo tempo:
quando o lamurioso pediu truco.


Carranca

Quando os escafandristas
acharem a carranca
no fundo do armário, tentarão
– em vão – decifrar
minhas superstições

Talvez,
quando os escafandristas
chegarem em seus escafandros
no fundo da gaveta de meias coloridas,
nem imaginarão a minha dificuldade de
acertar a meia direita no pé direito
e a meia esquerda no pé esquerdo
Uma diferença milimétrica na gravura,
uma diferença que fazia toda a diferença
no meu dia

Quando os escafandristas acharem
a carranca
no fundo
do armário,
o rio São Francisco talvez não exista mais,
nem sua fauna marinha em constante orgia,
nem as lavadeiras às margens do rio,
nem os segredos dos mitos,
nem os ritos de proteção

Quando os escafandristas acharem
a carranca no fundo do armário,
não saberão do que eu.  fugia,
nem pensarão que, agora,
devo estar são e salvo

Quando os escafandristas acharem
a carranca no fundo do armário,
meus remédios para o coração flutuarão
como uma papa gosmenta
junto aos remédios de calvície,
todos diluídos pela água ao redor

Quando os escafandristas acharem
a carranca no fundo do armário,
as línguas ensinadas às minhas camisas
já terão seguido o caminho natural de todas as línguas

Quando os escafandristas acharem a
carranca no fundo do armário,
minha premonição terá se cumprido
e Fortaleza não passará de um
recife de misérias.


Leopoldo Cavalcante nasceu em Fortaleza, Ceará. É editor da revista Aboio. Foi colunista de cultura no jornal Focus. Escreve sem compromisso no @resenhador_, Instagram literário – ou diário irregular de leituras.

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