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cinco poemas

por Mariana Messias
gato para mariana messias

Mariana Messias escreve de maneira independente desde o final dos anos 90, tendo publicações on e offline e uma montagem para o teatro. Em 2020 publicou um ezine e participou do edital Arte como Respiro. Odeia escrever mini biografias (quem sabe tanto sobre si mesma?).


Toda realidade que alcanço
Está no olhar do gato
Nas plantas regadas
Contorcidas atrás de sol
No chão limpo
Que piso sem meias

Existir como
Atributo de
Estar só

A delicadeza de um poema
Que manda a polícia se foder
As tarefas cronometradas
Na pretensão de sanidade

Tudo mais é irrealizado
Lembrança de uma lembrança
Dentro de uma lembrança

Como respirar o ar quente
Que sai da boca de um Minotauro


Sereias

Dos 18 aos 33 fui medicada para tristeza
E não há nada de errado nisso
Tirando o fato de que dos 18 aos 33 fui profundamente triste

Nunca entendi o que aconteceu
Se o problema era comigo
Mas ainda lembro
O gosto metálico
A sensação de pensar pior
Por anos a memória aerada
E a médica perguntando, quando engordei:
Prefere ser louca e linda ou gorda e feliz
Ignorando que é possível ser louca linda gorda e feliz
E ignorando que felicidade não é menos loucura que tristeza
Era uma mulher com poros grossos e cabelos finos
Uma mulher que pensa este tipo de coisa

Também lembro do tio que me segredou
Na família somos assim
Como se a tristeza e os modos estranhos fossem minha herança
Junto do nariz grande, da hipermetropia e da mania de falar gritando

Aos 30 anos cansei e pedi para uma estrela
Quero ser solar
O que obviamente não aconteceu
[mas existem formas piores de morrer de dentro pra fora]


O gato decidiu que hoje
Excepcionalmente
Dormirá sozinho

Faz cinco graus
Estou com os pés gelados
Mas o gato decidiu

Excepcionalmente

Hoje


Minha prece para as Mulheres

Minha tristeza chega com a chuva
Mas se anuncia pelo nada
Ancestral como a solidão da minha mãe
[e da mãe dela e da mãe dela e da mãe dela]

Sento na sala
Vazia
A mulher é sua Ítaca
Uma mancha de caneta no papel
Única estrela no centro de SP

A solidão não nasce mulher
Torna-se
Como tornou-se minha tia
Como tenho me tornado
Eu ela
É o vento que me enfia
Esses pedaços de nada
Uma buceta no peito
Herança da minha vó
[e da mãe dela e da mãe dela e da mãe dela]


Acompanho de longe o último homem que amei
[Não amo mais]
Enquanto faz nossa janta
Continua triste e teimoso
É o mesmo mas parece outro

Da última vez que nos vimos
Ainda o amava
Seu cheiro ficou em mim
Atrapalhando a vida
Só de lembrar [fraquejo]
Talvez ainda ame este homem que já amei
Que tinha a pele grossa e o cheiro forte
Mas era delicado e triste

Da última vez neste mesmo lugar
Preenchemos a sala com nossas conversas
E fizemos sexo com força e delicadeza
[Como o amei]

Hoje de manhã
Ele ainda era teimoso e triste
Mas não como antes
Seu cheiro já não era tão saboroso
E tudo parecia menor

Prometemos ser amigos
[não somos]

Sentamos para jantar
Eu
O homem que amei
O homem que não amo mais
Um me serve de vinho
Enquanto o outro me sorri
Dividimos
A mesa o quarto a dúvida
Nos olhamos em silêncio
O homem que já amei pede o sal


Foto de Luísa Machado.

Comment (1)

  • As poesias são um retrato perfeito de Mariana Messias, tristes, fortes, sensíveis e transbordando interior. Fortes!

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