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A filha primitiva, romance de Vanessa Passos

por Vanessa Passos
Foto de Luísa Machado para ilustrar

Vanessa Passos é doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e cursa pós-doutorado em Escrita Criativa na PUCRS, sob orientação do Luiz Antonio de Assis Brasil. Autora de A mulher mais amada do mundo (Luazul, 2020), seus contos já venceram diversos concursos literários e foram selecionados para participar de antologias. É idealizadora do Programa Formação de Escritores e do Curso 321escreva, além de produzir eventos literários. Pintura das Palavras, sua rede social de promoção de escrita criativa, alcança milhares de pessoas, desde profissionais até aspirantes a escritores. A filha primitiva, ganhador da 6ª edição do Prêmio Kindle, agora publicado pela Editora José Olympio, é o seu romance de estreia. Nas redes, pode ser encontrada nos perfis: @vanessapassos.escritora e @pinturadaspalavras.


Andamos até a mercearia do zé, minha mãe queria ser a primeira a pegar as frutas recém-chegadas, carregava a menina encaixada no quadril direito. Foi bonito ver as duas assim, feito bicho, coladas, como se a carne de uma fosse o prolongamento da outra. Minha mãe tinha escoliose e vez ou outra reclamava da dor. Mas quando estava com a menina, esquecia. A dor ia embora e eu via que estavam felizes, as duas.

Não me olhe desse jeito, filha. Isso não é jeito de encarar mãe. Hoje não tá doendo tanto. A culpa não é da menina, o trabalho arregaçou minhas costas, esgarçou meu lombo. Depois de tanto tempo trabalhando como empregada, agora eu só cuido dela.

Apressou o passo pra não ouvir minha reclamação, tombando na rua mal asfaltada, tropeçando na própria saia longa com a menina no braço.

Entrou na mercearia.

Vou ficar aqui fora, não gosto desse homem.

Mas que implicância a sua. Vem com a gente. Dia de quarta quem fica lá é a mulher dele.

Entrei e peguei logo a banana madura. Cheirei antes de colocar na sacola, meu ritual onde quer que eu esteja. Veio a lembrança do Otton cortando as frutas pra gente no café da manhã. Banana, maçã, manga, kiwi. Suco de laranja.

Perguntei se ele sempre tinha sido esse homem fitness ou se era pra compensar a bebida e aliviar a consciência. É difícil manter a compostura comigo, mas ele se limitou a responder que há alguns anos tinha mudado os hábitos alimentares e corria todas as manhãs no calçadão, depois que tomava banho no mar.

A bebida era apenas um hobby de final de semana. Incrível como o ser humano gosta de se enganar. O Rui, da secretaria, me contou que na autópsia, além do derrame, deu princípio de cirrose. Uma pena. A gente podia ter curtido junto se ele não tivesse vindo com essa história de filho. Deus me livre. Bati na boca três vezes. Que droga! Esse negócio de enfiar Deus em qualquer frase pega.

Foi quando tirei o olho das bananas e afastei o pensamento de Otton que vi aquelas mãos segurando a menina. Ela, do lado, ingênua demais pra enxergar o diabo na frente. Era o Zé em carne e osso, nada da mulher, era ele mesmo tocando as perninhas roliças da menina, babando feito bicho-papão, fingia brincar com ela, pra acostumá-la com a mão quente, gerar confiança, mesmo a avó por perto, espreitando e provando o gosto pra, no futuro, tocar seu corpo crescido como fez comigo.

Arranquei a menina dali, muito mais do que transtornada. Ah, com ela, não, ele não ia fazer isso! Se fosse preciso eu tocava fogo naquela bodega maldita e mostrava com quem ele estava mexendo. Não tinha mais cordão umbilical, a menina não mamava mais. Era a raiva agora que passava pra ela, de mãe pra filha. Não foi o parto, não; não foi a contração, não; não foi dar o peito, não; foi a raiva que me tornou mãe.


Você acabou de ler um trecho de A Filha Primitiva, da cearense Vanessa Passos, vencedora da 6º edição do Prêmio Kindle de Literatura. Gostou da passagem? Adquira-o completo clicando aqui!

Mais sobre a obra

A filha primitiva é uma história sobre amor e raiva, futuro e ancestralidade, violência e perdão. A cearense Vanessa Passos, que já publicou um volume de contos, reflete em seu primeiro romance sobre a ideia romantizada da maternidade, mas também fala em violência contra a mulher e racismo. O livro curto, com uma linguagem crua, concisa e impactante, tem como protagonista uma mulher que não consegue acessar seu passado.


Foto de Luísa Machado.

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