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Uirapuru, romance de Febraro de Oliveira

por Febraro de Oliveira
Foto de Luísa Machado para ilustrar

Febraro de Oliveira nasceu em 1998, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. É escritor, poeta e ator. Publicou os livros de poesia: “Poesia Não Existe ou ensaiodoquenãoédito”, “Tødavia”, “Planos incríveis para situações mirabolantes” e “Uma festa para o fim do mundo”, este último vencedor do Prêmio Leia MS. Uirapuru é seu romance de estreia.


Acordo gritando, mas tapam a boca minha. Entendo que falar é um risco, então me apoio em silêncio, deitados em lona, uns montes de gente, sussurro sobre meu pai e me dizem fica quieto que a polícia tá acabando com tudo se der bobeira eles te. Os microgramas de poeira entram nos poros. Eu os respiro, também quero ser micrograma para alguém respirar. O medo invade a unha dos pés. Há no corpo um excesso de líquido que vaza, as coisas emergem em um jeito de ir, tudo na rua nossa encontra uma partida.

Partilha de líquido, me sustento no outro, e não posso dormir por conta da polícia, penso em papai enquanto escuto um grito aqui e outro acolá. Não sei também se queremos sair daqui, ver as casas, ter que recomeçar, ter que acumular ódio para uma revolta. O que me passa é que não soube defender a casa, mas também a casa não soube me defender, estamos quites, isso papai não sabe. Beijo a terra da rua nossa, eu a perdoo e espero também que ela me perdoe, a boca mexida com terra vermelha, também sou eu a rua e lambo os lábios, engulo-a. Desejo que tudo seja um sonho, desejo que tudo se finde. Posso acabar na rua, o homem da cruz vai me receber de braços abertos. A vida e o sonho são muito próximos, mas nos sonhos posso encontrar alguma outra coisa que aqui escapa.

Morrer também é uma forma de sonhar? Eu pergunto ao vizinho e ele me vê. Ele me vê, os olhos ligados, ele me vê como papai não vê, ele me vê de igual para igual, ele me vê e parece que não há segredos. Eu o olho, ele me vê. O olhar de morte invade, é o olhar de morte que nos iguala. Aprendo que morrer é um tema de silêncio e que a adversidade não se dá apenas na morte, mas em viver com o prenúncio de fim. Eu me sustento no seu tapa, eu me sustento nele, ele me bate, entendo que calar também é uma forma de morte. Pudera entrar na barriga dele, ficar ali junto com o intestino, o fígado, abafado no prenúncio de vida. Apoio minha cabeça nele, durmo, sonho com mamãe.

Quando acordar, se acordar, verei retalhos de uma ocupação. Choraremos, contaremos nossos mortos, no sonho não me escapo, a rua persiste no sonho.


Você acabou de ler um trecho de Uirapuru, romance de estreia do sul-matogrossense Febraro de Oliveira. Gostou da passagem? Adquira-o completo clicando aqui e falando diretamente com o autor.

Mais sobre a obra

Uirapuru, romance de estreia do sul-matogrossense Febraro de Oliveira, conta a história de Léo, um menino que cresce no contexto de uma ocupação. Ao longo do livro, aparecem temas como a ausência materna, a descoberta de uma identidade LGBT+, trauma e violência policial. O texto se destaca por sua experimentação híbrida, abarcando elementos poéticos e uma ruptura da estrutura convencional romanesca.


Foto de Luísa Machado.

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