O Grupo Aboio busca profissionalizar o mercado editorial independente e ajudar autores a construírem uma carreira de longo prazo.
Kaio Phelipe (https://aboio.com.br/tag/kaio-phelipe/) é de Realengo, subúrbio do Rio de Janeiro. Estuda Ciências Políticas, colabora com o Planeta FoDA, a frente LGBTQIAP+ da Mídia Ninja e é autor dos livros Não existe pecado no lugar de onde eu vim (https://www.osexodapalavra.com/pecado#:~:text=N%C3%A3o%20existe%20pecado%20no%20lugar,1997%2C%20no%20Rio%20de%20Janeiro.) (O sexo da palavra, 2022), Para o homem descansando ao meu lado (https://www.amazon.com.br/Para-homem-descansando-meu-lado/dp/6586353017) (Editora Nua, 2020) e Como cuidar de um girassol (https://www.editorapatua.com.br/como-cuidar-de-um-girassol-de-kaio-phelipe/p) (Editora Patuá, 2019).
Passado o tempo da compreensãonós que nascemos nesse paísde berço ouvimos falar sobre as guerrasescuto que as bases garantem a democraciafinjo que entendo e suponhoo nascimento de outro lugarde outras forças armadaslá nossos meninos não precisarão dizer adeuspois de lá não se partesem as mãos de suas mãesvocê: um homem acostumado com o peso destrutivodo que vejo como instrumento sem serventiaacostumado com as dores nos ombrosassumirá de vez o seu encargode poeta mais bonito dessa naçãopassado o tempo de fumaça e esquadrilharegressará como fuzileiro inglórioe verá nisso o triunfo: a vitória é suavocê atravessa a porta de nossa casaeu procuro um lugar mais feliz para o teu regressoescolho uma vez acreditar em seu GPS falhoque vem te apontando outros finaisacendo um cigarromeu primeiro depois de certo temponão ligo mais para a longevidadejá que estou eu também em conflitonão convém te chamar de benzinho em uma guerrameu chapamas quando você atravessa a porta em sentido contrárioeu acostumado a resolver as pelejas com blasfêmiaaprendo a não resmungar contra Deus.
Os documentos e o celular
deixados em casa
te fazem um homem sem fisionomia
na noite de cavalos a galope
e tédio de cigarras
que não terão o dia de amanhã
para cantar
aqui as desobediências
conheceram as desigualdades
e no geral
todo otimismo é preguiça
de aprofundamentos
enquanto abordagens policiais
ampliam ditaduras
na rua das sombras das árvores
garotos de programa trampam
no muro da estação de trem
por vinte reais
o preço de um livro de Reinaldo Arenas
que encontrei em um sebo
sem pretensão no Largo da Carioca
ou o preço de um livro do Paulo Coelho
numa usina de reciclagem em Padre Miguel
quando estão presentes dois homens
quase tudo
envolve ganhar ou perder.
Pôr para fora o casal de leões
enjaulado em meu peito [em posição de ataque
ceder às fantasias de um rapaz mascarado
na Estação Primeira de Mangueira
dançar ao lado dele um samba com o barulho dos trilhos do trem
e jamais permitir que os sórdidos dominem o desejo:
distribuir os beijos não dados no século XX.
Ilustração: Mori (Forest) de Katayama Bokuyo (1928). (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Katayama_Bokuyo_-_Mori_(Forest)_-_Google_Art_Project_(cropped).jpg)
Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR, membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022) e La promenade de Vénus (Venus D’Ailleurs, 2022). Atualmente é responsável pela Contravento Editorial, também assinando a coluna "A Fresta" na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.