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esta mentira que você me conta
esta mentira que você me conta
com a boca no meu pau
com a cabeça nos meus peitos
esta mentira que eu leio sem
pressa no seu pulso
esta mentira que eu te conto
com o dedo no cu
esta mentira que vai ganhando
corpo através das minhas pernas
esta mentira bamba que você
faz questão de jogar na minha cara
apagada acesa murcha triangular
com olheiras de quem não dorme
desde que acordou pela primeira vez
esta mentira que não contém nada
absolutamente absurdamente nada de verdade
de possibilidade de verdade
de qualquer verdade não nenhum fio de verdade
esta mentira que é apenas mentira
que você sabe que eu sei que você sabe
que eu sei que é mentiramesmo quando me deparo com as pernas abertassuadas tesas tesudas e esqueço de respirarcomo lembrar de respirar pra que lembrar de respirarse tenho o que mais me importa bem em cima do narizlambuzando o meu nariz guiando a minha línguaesta mentira que não esqueço nem agoraenquanto estou perdido entre saliva esaliva esta mentira que continuará aqui entre nós dentro de nósgerme de uma outra mentira maior ainda menor aindade outra ordem de outra categoria de outra espécieuma outra mentira igualmente pensadaigualmente ignorada esta mentiravocê conta enquanto devora os lábiosse afoga nas virilhas se perde no rabobom é bom sim é bom quando é gostoso e é gostosomesmo com esta mentira que não me deixa esquecermesmo quando não consigo pensar em outra coisaalém da língua lambendoalém do corpo cavalgando docorpo inteiro domando um outro corpo inteiromesmo quando a felicidade é mais do que apenas umapalavra apropriada pelo marketing pra vender maispra consumirmos mais as melhores tristezas personalizadasmesmo quando o prazer é prazerosoesta mentira não larga a minha mãonão saí do meu pé parece que tem mentira no colchãoque tem mentira na roupa que tem mentira no prato no copoque tem mentira atrás da orelha da minha orelhaporque atrás da sua orelha tem a minha línguaprocurando o arrepio e agora eu poderia te dizeradeus você que se vire com o pau durocom a buceta inchada com a passividade flácidaé isso que esta mentira faz comigomesmo quando estamos jantando felicidade alegria contentamentoou quando estamos vendo os heróis destruindo o mundopra salvar o mundo de coisas que não existemesses heróis super-heróis não podem nuncasalvar o mundo das coisas que existem longe bem longetão longe do mundo dissimulado delestão longe quanto rio das pedrasesta mentira que eu nunca gostaria de aceitar como realidadecomo realidade mais real do que a morte e do que a carnesangrando sangrando sangrando dentro da dorvocê sabe eu sei todo mundo sabetodo mundo vê todo santo dia nos próprios olhosque não não ficaremos bem se não colocarmos os senhorese as senhoras do poder do dinheiro num mal-estar profundopermanente indefensável irrevogável ininterrupto imediatose não deixarmos de lado nossa posição subjetiva de desvalore os delírios de condomínio que nos obrigam a ficarmos em pazsustentarmos a paz buscarmos a paz custe o que custarmesmo que custe as nossas filhas os nossos filhosas nossas almas os nossos corpos mesmo que custe oo desespero o desamparo o desalentoé esta mentira a maior mentira de todas as mentiras que nos prendeà ideia de que não não podemos não devemos não temos condiçõesde darmos o troco o tapa os golpes no mesmo idioma violento terrível raivosodos gestos violentos terríveis raivososjá é hora de superarmos esta mentira e aceitarmos que somosbarris de pólvora prontos pra explosãoagora é a hora fatal da sinceridade quando podemos devemos temos condiçõesde sufocarmos a mentira pelo colarinho e com as nossas próprias mãosrevidar
um clima como este
te ouvir foi viajar
novamente ao futuro
hoje acordei
por obrigação
(ontem também)
o clima é
bom para
quem veste
verde e amarelo
(nada está resolvido)
visto vermelho sangue
(mera coincidência)
em casa, brincávamos
I
em casa, brincávamos
de ler o silêncio, mas
nossa palidez era ruidosa
tínhamos uma tv que era
nosso quintal, mas éramos
econômicos com os canais,
como bem estabelece a
lei natural do controle:
manda quem pode,
obedece quem não tem nada
além do juízo
II
na escola, brincávamos
de dar tapas uns nas
mãos dos outros
gostávamos do vermelho
era bonito sentir que
estávamos vivos
escrevo porque quero
Feito em parceria com Gabriel Galbiatti Nunes.
a lembrança, porque quero
entrar em chamas
pelas paredes da memória
e sair de mim para me ver
estou aqui, entre as visões
e os papéis e sinto
minha boca cheia
com o sangue dos dias
viver ainda está proibido
ligo a torneira e cuspo
observo a água
levar o sangue até o esgoto
sinto o sangue da minha boca
se misturar ao sangue do mundo
na latrina do esquecimento
é o ruído, ouve?, que denuncia
o destino das palavras
quando foi isso? hoje, ontem?
veja! nos jornais, é quinta! e a glória
foi silenciada nesse mundo
o que, para além dos jornais, nos diz
que o mundo ainda existe? ou, ainda,
será que há chance de durar este mundo
que existe nos jornais?
viver ainda é proibido
se cada abraço é feito de tropeços
então, como ajustar o passo e seguir o caminho?
isto é, se os tropeços não nos fizerem
abraçar para sempre o chão com nossas bocas
cheias de areia, sono e febre
saio de casa e vou à padaria,
sozinhos às vezes acompanhado
saio de casa e vou ao passado,
busco nesse caminho encontrar outra forma
de aprender a não tropeçar
há algo vivo no passado, algo com músculos
e impulsos. lá conheço e sou conhecido.
também há ruínas ainda desabando
e atirando pedras frente ao nosso caminho.
brincamos de amarelinha, mas substituímos o céu
pela alegria, a única prova dos nove
na memória, pinço os sorrisos, ainda
sufocados pelas máscaras. na memória,
busco a narrativa dos nossos movimentos
e o lugar que a casa ocupa em mim
a memória é o fio de ariadne que prendo
a meus pés para que eu conheça a direção do futuro
e, de repente, a areia nos olhos começa
a se dissipar e vejo aquilo que faço
escrevo para reescrever a narrativa da história
para possuir a lembrança. porque possuir a lembrança
é possuir também o passado. e possuir o passado
é a única forma de inventar o presente, a única forma
de viabilizar o futuro que quero conhecer
possuir a lembrança, não pelo método conservador,
que ergue um altar ao que foi e o adora e o falseia
possuir a lembrança como quem dissipa o silêncio
com a dança, como quem vira o tempo com as mãos.
Victor Prado é leitor, escritor, diagramador e editor. Publicou Bastardo (Editora Urutau, 2016) (http://editoraurutau.com.br/titulo/bastardo) e um nome inabitável (Artefato Edições, 2017) (https://www.artefato.art.br/um-nome-inabitavel).