olhe: eu não preciso contar mais;
só confie que chegarei armado até os dentes,
quando for preciso; nem sempre é;
veja: eu não preciso defender
nem minhas próprias convicções:
as coisas se impõem tesas, sem escape;
eu não preciso traduzir nada; esqueça,
eu nunca afirmaria que eu já sou eu;
mas gosto que vejam em meu rosto
a minha mais profunda sinceridade,
não meu décimo pedido de perdão;
uma madrugada assim não caberia em mim nunca,
se os quarenta anos de insônia
que atravessei nos últimos dois anos,
não me tivessem dado
um coração que bate;
que realmente bate; até derrubar;
deitei, sentindo ainda
teu corpo;
como quando criança trazia
pra cama,
os avanços delicados
da água;
e a inocência, de chamar
um rio de mar;
não me importa nada te ver assim cercado
da matilha de teus amores;
desde que seja eu, esse cachorro mais altivo;
de entre eles, o mais perto & possível;
desde que seja eu
o cachorro mais bravo a morder teu rabo;
‘quanto fosse necessário,
eu te deixaria ganhar;
de cima parece jogo,
de longe parece corrida,
eu te deixaria ganhar;
eu te deixaria ganhar,
pra te ver se afastar,
correndo frente à vitória:
me esconderia na sombra,
de algo mais bonito,
que a minha vitória;
quantas vezes fosse;
se fosse, necessário;
tantas vezes seria bom:
me esconder na sombra,
de algo mais bonito,
que qualquer vitória;
Maiky da Silva nasceu em Cansanção, interior da Bahia, em 1996. Em 2019, publicou Ave, Eva! Ecce Homo e em 2021 lançou Corpo-Cátedra, ambos pela Editora Urutau. Atualmente reside em Feira de Santana, Bahia, onde cursa Letras na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).