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A fonte

A fonte

por Leonardo Simões

04 de junho de 2024

A fonte

No poema em forma de notícia,
Gilbués é um deserto encurralado pela Bahia e o Maranhão,
ou
uma “gigantesca folha amassada de papel-lixa cor de tijolo”.

No poema em forma de notícia,
o verso seguinte é a manchete.
“Desertificação faz área do Piauí parecer Marte e desafia agricultores”.
O repórter,
um estrangeiro,
traduz
os fatos,
os ratos,
e os atos destes exploradores marcianos.

Daí,
esse poema entalado no caderno Cotidiano,
esgoela não ser preciso foguete para descer em Gilbués,
o lugar cujas
fendas vermelhas remetem a Marte, o planeta das
Voçorocas.

No deserto em forma de poema
Voçorocas são
linhas finas
ou
rugas?

Nossa terra envelhece.
A pele fraca,
brasileira é vil.
Mas serviu de nascente de diamantes e cana.
Agora
a soja engorda o olho do boi.

Neste cara amarga,
desordeira e gentil,
o deserto de Gilbués anoiteceu silencioso:

a areia marca o tempo e mancha as barras das saias:

só gira a ampulheta quem é dono da areia.

Em forma de perícia,

os p o e t a s
ventam teorias, balançam as crianças nos anos que v i r ão
enquanto os cânions devoram as fazendas e o mato morre antes do gado pastar.

os espec i a l i s t a s
batizaram a terra sem palmeiras de

zona de dese r t i f i c a ç ão.
Quem entende a nossa hora
nos relógios de sol,
só sabe escrever notícia?

Notícia ruim anda devagar.
Caso chovesse, corria.

só gira a ampulheta quem é dono da areia.

Não alimento esperança.
só gira a ampulheta quem é dono da areia.

“No meu tempo” é uma lembrança triste, entende repórter?
só gira a ampulheta quem é dono da areia.

E no dia seguinte,
o poema valerá menos que o jornal.
Se não embrulhar peixe, tampouco vai noticiar o pão.

Eleição

Respirar todo o ar do mundo até o pulmão estourar como
uma bexiga de festa.

E as balas e doces

vão chover sobre as cabeças das crianças,
até elas se molharem com aquela infância que vai e volta,

vai e

volta
numa corrente de oxigênio,

alívio e memória.

Isso é o que chamam

de tomar fôlego.

Poema originalmente publicado no livro Folha de Rosto (Mondru, 2023)

Leonardo Simões

Leonardo Simões nasceu em Patrocínio, Minas Gerais, mora em São Paulo desde 2010. Cursou Jornalismo e trabalha com redação publicitária. É mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O Grupo Aboio busca profissionalizar o mercado editorial independente e ajudar autores a construírem uma carreira de longo prazo.