O Grupo Aboio busca profissionalizar o mercado editorial independente e ajudar autores a construírem uma carreira de longo prazo.
A Fresta (https://aboio.com.br/tag/a-fresta/) é uma coluna quinzenal dedicada às realizações do movimento surrealista e seus entornos.
Quando eu ainda estava começando, considerava a mais extraordinária das empreitadas literárias a de um escritor que, como desafio, ao invés de escrever sequer uma linha de sua própria cepa, se contentaria em realizar os melhores projetos que grandes escritores do passado deixaram inacabados. Este homem teria publicado sob o pseudônimo Abwyz, formado pelas duas primeiras e as três últimas letras do alfabeto, de modo a significar que tomava a literatura ao pé da letra.
Eis aqui uma amostra daquilo que poderia ter sido a produção de Abwyz.
Enquanto romancista teria escrito vários romances a partir das indicações de Honoré de Balzac no álbum Pensamentos, enredos e fragmentos. O mais importante deles seria O Fim do mundo, desenvolvendo o seguinte tema: “Uma vez que se fixou a era do fim do mundo, aquilo que se segue a isso… Os avaros abrindo seus cofres, todas as relações sociais mudadas, gente se batendo, se matando, um tuberculoso tirando sarro de um homem saudável. — Orgia generalizada. — Não há mais máscaras”. A seguir, Abwyz faria O Duelo com o desconhecido, contando “o duelo através de meios desconhecidos” no qual se envolvem um jovem rapaz e o sedutor da irmã do primeiro. Eles decidem lutar até à morte, mas não com pistola ou espada: “Ambos conseguem matar um ao outro, um através de uma mulher, o outro com veneno”. Abwyz ainda trabalharia sobre dois projetos escabrosos de Balzac, O Amor no harém, história de uma paixão sáfica no oriente: “Uma mulher que ama outra e tudo que faz para não deixá-la se entregar ao seu senhor”; e A Mãe, já prevendo o complexo de Édipo: “Uma criança de doze anos apaixonada por sua mãe e a mãe que se mata”.
Em seguida, Abwyz se tornaria o autor de Banha de urso, romance frenético anunciado pelo lobisomem Petrus Borel nas revistas românticas de sua época e sobre o qual não sabemos nada além do título. Ele então continuaria com O Folhetim do céu, romance astronômico de Théophile Gautier que deveria ter sido publicado como folhetim no jornal Le Moniteur e por conta do qual Gautier contemplava as estrelas todas as noites com seu telescópio no terraço de Neuilly. O bom Théo renunciou ao projeto devido a dificuldade de escrevê-lo: ele conferia sentimentos humanos aos planetas Júpiter, Marte e Vênus, e supunha que eles mantinham relações siderais que reconstituíam aquelas das divindades de mesmo nome na mitologia.
Abwyz executaria diversos enredos esboçados por Gustave Flaubert: A floresta das mulheres (“Mulheres-árvores. Os braços e cabelos sendo os galhos”); As loucuras de amor, se passando numa “Ásia fantástica” e confrontando três homens apaixonados pela mesma mulher; O juramento dos amigos (tendo por herói “um comerciante fechado que faz uma grande fortuna”); e, sobretudo, A espiral, que deveria entrelaçar sonho e realidade de maneira pré-surrealista.
Excelente autor dramático, Abwyz comporia todo o teatro projetado por Stendhal a partir dos vagos roteiros deixados por este último: Os quiproquós (obra da qual Stendhal faz o plano em 1801, depois acrescentando: “Assim como está ela não vale porra nenhuma”); A descida a Quiberon, peça em três atos “absolutamente do mesmo gênero que os dramas históricos de Shakespeare” (pondo em cena Luís XVIII e Pitt[1] (#_ftn1)); suas comédias em cinco atos e em versos: O filósofo apaixonado, Pâmela, A coquette corrigida, O sedutor, A verídica, O homem do mundo, e a “bela comediazinha estilo delicada”, A mulher que se entedia; assim como os três atos em prosa de O homem que temia ser governado. Todos estes projetos apenas foram indicados por Stendhal em umas poucas linhas.
Ensaísta, Abwyz redigiria o Tratado do incômodo dos cômodos que o arquiteto bousingo[2] (#_ftn2) Jules Vabre jamais realizou, ainda que sempre falasse dele aos seus amigos Jeunes-France[3] (#_ftn3). Abwyz conheceria um estrondoso sucesso com Hipóteses, a série de utopias sobre a qual Renan, no prefácio aos seus Diálogos filosóficos, disse: “O meio mais enérgico de salientar a importância de uma ideia é suprimi-la e mostrar o que o mundo se torna sem ela. Espero um dia aplicar de maneira grandiosa este modo de exposição filosófica em um livro que denominarei Hipóteses e no qual esboçarei sete ou oito sistemas de mundo, sendo que em cada um deles faltará um elemento capital. Com isso o papel do elemento faltante será extraordinariamente ressaltado”.
Além disso, Abwyz escreveria o ensaio irrealizado de Paul Valéry, Gladiador ou Tratado de treinamento do espírito, mostrando como poderíamos treinar o cérebro feito um cavalo de corrida, e comportando toda a arte de “adestrar o animal Linguagem, e de levá-lo até onde ele não tem o costume de ir”; e a História e Filosofia da engenhosidade, que o mesmo Valéry catalogava “dentre os livros realmente indispensáveis e que ninguém vai fazer”.
Como poeta, Abwyz começaria compondo as Elegias e as Bucólicas em versos clássicos que André Chénier não teve tempo de escrever, embora já tivesse estabelecido seu plano em prosa, por exemplo, Que triste coisa é o amor (“Ah! como esta moça que vejo todo dia é bela! Descrição…”); Sozinho na floresta (o solitário desgostoso do mundo que, ao encontrar uma cavaleira na floresta, se apaixona por ela e cobiça seu cavalo: “Porque não sou eu quem carrega carga tão bela!”); Aquiles na beira do mar; A bela de Scio (“Seu amante morreu… ela ficou louca… ela correndo pelas montanhas”). Depois disso, Abwyz embarcaria nos grandes poemas filosóficos dos quais Alfred de Vigny, em seu Diário de um poeta, traçou os planos para si mesmo, como O ópio, no qual queria expressar a seguinte ideia: “Somos todos fumantes de ópio no âmbito moral. Nos embriagamos de crenças mentirosas”.
Além disso, Abwyz ainda iria compor uma coletânea intitulada Melancolia, comportando, impecavelmente executados, todos os “poemas por fazer” que Baudelaire listou em seus papéis, os subdividindo em “coisas parisienses”, “onirocríticas”, “poemas noturnos”, e com os respectivos títulos por ele previstos: Elegia dos chapéus, Reproches de um retrato, Autocorno ou incestuoso, Prisioneiro num farol, etc.
Abwyz teria uma obra erótica na qual estariam incluídos Os dias de Florbelle (o grande romance do Marquês de Sade queimado em Charenton, mas cujo plano foi conservado); O livro obsceno,que Edmond e Jules Goncourt queriam fazer a partir de anedotas de bordel; e A negra apaixonada, de Apollinaire (romance citado por catálogos clandestinos e que o próprio Louis Perceau[4] (#_ftn4) buscou em vão).
Enfim, ao chegar ao término da carreira, Abwyz escreveria suas Memórias, que seriam naturalmente Memórias falsas a partir da vida de um autor que não deixou as suas. Ele se basearia, por exemplo, nos Diários íntimos de Benjamin Constant, que transporia para o século XX modificando os nomes próprios. Assim, Abwyz contaria que em 1934, aos dezenove anos, foi amante da romancista Rachilde, então com sessenta e quatro anos de idade (alusão às relações do jovem Constant com a romancista Madame de Charrière[5] (#_ftn5)). A história da ligação de Abwyz com Marguerite Yourcenar[6] (#_ftn6) (que ele apelidaria de Guite) seria calcada sobre a de Benjamin Constant com Madame de Staël[7] (#_ftn7) (que ele chamava de Minette). Nosso contemporâneo evocaria ainda seu amor sem esperança por Brigitte Bardot, da mesma maneira que o escritor liberal falava do seu por Madame Récamier[8] (#_ftn8). Uma vez que a Academia Francesa preferiu eleger Viennet[9] (#_ftn9) (você sabe quem é?) ao invés de Benjamin Constant, Abwyz relataria como, de modo similar, concorreu contra Jean Mistler[10] (#_ftn10), que a Academia convidou a tomar posse em seio ao invés dele.
Francamente, não acham que, uma vez concluída sua obra, Abwyz bem que mereceria ser condecorado com a medalha de salvação das Aparências (alta honraria que o governo atual deveria inaugurar), como restaurador dos monumentos literários perdidos?
Sarane Alexandrian
Mar revolto
produz um canto —
ainda me espanto.
Felipe Moreno, RÉS | CHÃO
Com o advento e a disseminação dos computadores pessoais, da internet e, consequentemente, das plataformas online de publicação, realizar e pôr em circulação materiais impressos, como livros e revistas, deixou de ser resultado de uma exigência para se tornar fruto de uma escolha. Consequentemente, a opção pelas mídias usualmente denominadas “analógicas” passou a manifestar com frequência uma visão de mundo, cuja substância e justificação nem sempre são fáceis de apreender. Isto é: afinal de contas, por que seguimos imprimindo expressões em papel?
Com a transformação dos meios de produção e de certas estruturas sociais e de mercado que sustentavam a ampla circulação de impressos, a distribuição passou a ser um dos grandes gargalos enfrentados pelos que escolheram conservar o caráter analógico da letra, inscrevendo-a em um suporte tátil[11] (#_ftn11). Para contornar o problema, quando as bancas de revistas e livrarias entram em declínio e as distribuidoras estreitam as portas, são as feiras que assumem o protagonismo.
Hoje poderíamos seguir falando, como propunha a Biblioteca Nacional em 2011, em um “circuito de feiras” que, depois de pouco mais de uma década desde sua nítida configuração, parece ter encontrado um lugar no mercado, criando um nicho que segue capaz de atrair um público, às vezes disposto a trocar uma parcela de seu dinheiro pelo fruto de um trabalho. Depois de dividir este nicho em, por um lado, feiras de recorte mais marcadamente institucional, como a da USP e a FLIP, e por outro as voltadas sobretudo à “cultura gráfica independente”, como a Feira Plana e Miolos, caberia ainda perguntar, com o argentino Fernando de Leonardis em seus “apontamentos para voltar do futuro”[12] (#_ftn12), quais seriam os processos, fins e agentes que determinam o público, o modo de circulação e outros elementos do mercado editorial autodenominado “independente”; e, além disso, como poderíamos localizá-los em um objeto analisável e sob um conceito mais bem definido do que a etiqueta “independentes”. Pois, afinal de contas, independentes de que, e de quem[13] (#_ftn13)?
Uma vez que não disponho nem de dados nem de formação para analisar o fenômeno de um ponto de vista histórico e socioeconômico — e assim propor respostas a perguntas como: “as editoras independentes são uma expressão do neoliberalismo ou uma resposta a ele?” —, caso já não tenham sido respondidas, fica o convite para que aqueles que se sentirem interessados e autorizados a discorrer sobre o assunto, desempenhem a tarefa[14] (#_ftn14) ou sinalizem trabalhos. É possível que uma análise desta ordem contribua para abrir caminho rumo a outras relações analógicas e correspondências, inclusive aquelas que no momento são utópicas e impensáveis. Da minha parte, me limito a evocar como emblema uma anedota recente que diz respeito a uma feira: a Estopim ocorrida em Curitiba em 2023.
Foi num dia frio e chuvoso que minha namorada e eu fomos fazer parte do público da Feira Estopim. Embora não sejamos naturais de Curitiba, curiosamente aquele antigo imóvel da rua Riachuelo onde ocorria a feira foi palco de uma de minhas memórias de infância. E, de fato, meio como criança, me diverti passeando os olhos panorâmicamente pelos estandes, admirando os sucessos e fracassos dos expositores ali presentes. A princípio, tudo nos conformes, como manda o figurino e sem grandes novidades no horizonte, mas isso só até me deparar com uma casa editorial da qual jamais ouvira falar.
A Casatrês é uma pequena editora que, como a Contravento Editorial, surgiu da cumplicidade de uma dupla para, a partir de um dado momento, seguir como aventura de um homem só, assim fazendo do editor uma espécie de Dom Quixote sem Sancho Pança, ou vice-versa.
Na Casatrês o aventureiro de plantão atende pelo nome de Felipe Moreno, único membro de um corpo de funcionários inversamente proporcional à qualidade de suas realizações. Pois, se por um lado Felipe manufatura livros da mesma maneira que eles costumam ser escritos, isto é, solitariamente, por outro lado podemos afirmar sem medo que a beleza destilada por seu trabalho é multitudinária, ainda que unificada como as fibras de uma corda, ainda que potente feito flecha: cada livro que sai da Casatrês vem em arco ascendente, impulsionado pelas muitas mãos que nas de Felipe encontram seus gestos.
Foi ali, no estande da Casatrês, que me encontrei não só com magníficos livros de haicais aproximadamente do tamanho da mão de um recém-nascido, elegantes plaquetes reunindo críticas à tecnologia e outras criaturas. Ali também descobri o Corra magrelinho, corra, assinado por um tal Marcos Reigota, nome diante do qual não pude conter uma expressão de surpresa e que nos conduz a outra anedota que, espero, possa iluminar os projetos de Abwyz, assim como as intricadas maranhas do mercado editorial independente.
Durante um bom tempo, Reigota foi um dos mais fiéis e calorosos leitores d’A Fresta impressa, versão física e gratuita desta coluna, que agora você provavelmente está lendo no Portal da Aboio, quando ela ainda era publicada pela editora Sobinfluência. Periodicamente, aquele desconhecido selecionava e enviava cartões postais de sua coleção sinalizando o recebimento d’A Fresta. Assim, ele se tornou um dos únicos interlocutores efetivos que não apenas agradecia pelo presente recebido, como também se dedicava a tecer breves comentários sobre os textos publicados. Da minha parte, fazia questão de responder à gentileza dele também por escrito. Porém, sem jamais, como se diz, “jogar o nome no Google” para dissolver o mistério e descobrir afinal quem era o simpático misterioso. Pelo contrário, me interessava conservar o enigma, não só por preciosismo, mas como experiência. E eis que então, alguns depois, naquele 8 de outubro de 2023 me encontrava com o Corra magrelinho, corra, do Marcos Reigota no estande da Casatrês na Feira Estopim.
A partir daquele acaso a conversa com Felipe engrenou e nos permitiu alinhavar outras linhas e balizas, inclusive as que viriam desaguar em um projeto hoje no prelo: o terceiro volume da coleção As frutas das samambaias, intitulado Pois estamos vivendo um período, que reúne relatos de sonhos de Marceli Mengarda, posfaciados por Bolívar Escobar, e para cuja publicação a Casatrês e a Contravento Editorial somam esforços. Além disso, foi também naquela conversa em volta dos livros da Casatrês que surgiu, muito de passagem e espontaneamente, o nome de Sarane Alexandrian.
Se bem me lembro, foi em Retalhos (Casatrês, 2022)que Felipe Moreno estabeleceu uma lista dos livros que não escreveu, com assuntos para romances e dos quais o único do qual lembro vagamente é o que contaria uma história que se passa dentro de um elevador. Provavelmente, a dúbia memória se deve ao fato de eu mesmo ter um dia ter escrito um poema de amor no qual um jardim ficava subindo e descendo no interior de um elevador; e também por ouvido alguém contar que leu — não tenho certeza se num livro do diretor de cinema Alejandro Jodorowsky, evocado numa conversa nas ruas de La Plata em 2013 —, algo sobre um elevador pendular. Elevadores à parte, enquanto folheava os Retalhos, manifestando uma certa mania citacional, comentei com seu autor e editor que um iraquiano chamado Sarane Alexandrian publicara um livro chamado justamente Sessenta enredos de romances bem na moda hoje em dia e noite (Fayard, 2000). Diante da curiosidade de Felipe que, sendo ele um rapaz gentil, é bem possível que fosse na verdade pura simpatia e bons modos, passei-lhe a referência, assumindo os riscos de soar preceptoral e, consequentemente, naquele contexto, chato. Entretanto, já no caminho de volta para casa, senti que aquilo era insuficiente — não soar preceptoral e chato, mas lançar no ar um título, bater o pó das mãos e ir embora chuva afora.
Por algum motivo que sigo desconhecendo, me senti instado a de fato apresentar um trecho do livro do Sarane para o Felipe. Ora, como nada do volume em questão se encontrava disponível em português, me pareceu conveniente e simpático dedicar algumas horas de trabalho ao assunto e traduzir um trecho para enviá-lo como presente, de modo a celebrar o encontro e os projetos vindouros. Afinal, por que seguir enfrentando o meio literário e suas agruras se não para isso, para permitir e celebrar encontros e lançar-se rumo ao desconhecido?
Foi graças a mais este desconhecido que, ao longo dos trabalhos, algum ímpeto fez com que aquilo que era para ser a tradução de um excerto incluído em um email viesse a se configurar como esta série que vêm sendo publicada n’A Fresta. Portanto, o que inicialmente não passaria de um documento de circulação interna, logo se tornou um “Argumento” seguido de um breve comentário para, a seguir, estender-se até se impor como quinteto, logo rebatizado de “quina”, e cuja quarta parte é essa, na qual até parece que entrego o jogo, mas não as pontas, as quais aliás têm de seguir soltas para formar nós.
Lembro que, ao longo do breve percurso percorrido até agora, além de apresentar um par de textos e um fragmento escritos por Alexandrian, tivemos a oportunidade de suplementá-los com alguns de seus dados biográficos (https://aboio.com.br/a-fresta-9-alexandrian-em-cinco-duplas/) e de criticar muito rápida e superficialmente algo de suas realizações; isso não sem render homenagens, além de abordar e praticar (https://aboio.com.br/a-fresta-10-alexandrian-em-cinco-duplas-pt-ii/?relatedposts_hit=1&relatedposts_origin=8147&relatedposts_position=1) métodos pouco convencionais de escrita.
Dito isso, podemos observar que o interesse inopinado de alguém sobre um autor, que até então era para aquele alguém mais um nome próprio do que um sujeito, revela o acontecimento de algo da ordem do inesperado da vida. Assim, agora até parece lógico que, antes de concluir a quina, voltemos ao sentimento que lhe deu origem: isto é, ao mesmo tempo celebrando o ressurgimento de Marcos Reigota e a busca de Felipe pelos fragmentos com uma tradução de um escrito extraído de um caderno de fragmentos de juventude do próprio Sarane Alexandrian. Frente a isso, não poderíamos deixar de notar que, em “Como tentar o impossível em literatura”, o autor sonha em assumir livros que outros deixaram pelo caminho, meio como um dia tanto o Felipe quanto eu tivemos de fazer para continuar publicando e assim nos encontrarmos de modo a, juntos, assumir a edição de sonhos alheios.
Cabe ainda anotar que “Como tentar o impossível em literatura”, que acabamos de apresentar nest’A Fresta, novamente pela primeira vez em português, foi publicado no primeiro número da revista Supérieur Inconnu em 1995 e, segundo Sarane Alexandrian, faz parte de um de seus “cadernos de reflexão”, intitulado O espectro da linguagem (1953-1995).
E não poderíamos encerrar este breve comentário sem observar que, estranhamente, e num primeiro momento, o corpus das letras brasileiras parece incrivelmente menos pródigo em projetos inacabados do que o das letras francesas, o que a meu ver não quer dizer que os brasileiros sejam especialmente engajados ou não-procrastinadores.
Portanto, como um primeiro esforço visando possibilitar um texto que pudesse responder aos esforços de Abwyz, imitando no contexto brasileiro a tarefa que ele teria levado à cabo no contexto francês, renderam a não exaustiva lista que apresento abaixo. Cumpre notar que, diferentemente da maior parte do material reunido por Abwyz, a maioria dos itens da lista dizem respeito a inacabados, mais do que a alusões, esboços ou breves linhas de ideias. Também sublinho que os primeiros quatro itens, que não dizem respeito a “grande escritores do passado”, foram obtidos graças ao artigo “Teoria geral do abandono literário”, publicado por Luisa Geisler em 2018 (https://blogdoims.com.br/teoria-geral-e-incompleta-do-abandono-literario/), ela que parece partilhar do interesse manifestado por Sarane e Abwyz no texto que traduzimos acima. A estes, acrescentamos duas exceções.
Natan Schäfer
Notas preliminares para tentar o impossível na literatura brasileira
NOTAS
[1] (#_ftnref1) N. do t.: Luís XVIII, que se torna rei da França quando Napoleão deixa o poder em 1815 e, provavelmente, William Pitt, o Novo, primeiro-ministro do Reino Unido de 1783 a 1801 e, depois, de 1804 até sua morte em 1806.
[2] (#_ftnref2) N. do t.: A princípio os bousingos, termo supostamente derivado do inglês “bowsing ken”, consistiram em um grupo político de tendência republicana que contribuiu para a deposição de Carlos X e cujos membros usavam bousingot, um chapéu de couro de abas largas. Posteriormente, a crítica da época passou a denominar bousingots os “pequenos românticos” que se reuniam no ateliê do escultor Jehan Duseigneur, onde se constituiu o “Pequeno cenáculo”, segundo Théophile Gautier liderado pelo “lobisomem” Pétrus Borel. Os bousingos reunidos em torno de Borel praticavam uma espécie de extremismo romântico, se destacando pelo comportamento excêntrico e arruaceiro, que acentuava os valores mais transgressivos do romantismo francês.
[3] (#_ftnref3) N. do t.: No século XIX “jeune-France” era uma espécie de sinônimo de bousingo.
[4] (#_ftnref4) N. do t.: Louis Perceau foi, além de amigo e colaborador de Guillaume Apollinaire, um notório bibliógrafo da primeira metade do século XX.
[5] (#_ftnref5) N. do t.: Isabelle de Charrière, também conhecida como Belle de Zuylen, foi uma escritora e compositora suíço-holandesa atuante sobretudo na segunda metade do século XVIII. Diferentemente de Abwyz e Rachilde, Isabelle tinha na verdade 46 anos quando conheceu Benjamin Constant, este sim então com 19 anos.
[6] (#_ftnref6) N. do t.: Em 1980 a escritora belga Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras. Seu romance Memórias de Adriano atualmente se encontra em sua 25ª edição no Brasil, pela Nova Fronteira, que o apresenta como “uma das mais fascinantes obras de ficção do século XX (…) espécie de autobiografia imaginária” onde “Yourcenar recria a notável vida do imperador Adriano”.
[7] (#_ftnref7) N. do t.: Germaine de Staël foi uma grande intelectual francesa que, embora tenha sido favorável à Revolução Francesa, posteriormente se opôs a Napoleão. Foi grande defensora de uma certa “germanofilia”, expressa em Da Alemanha, decisiva para abrir as vias francesas ao Romantismo alemão.
[8] (#_ftnref8) N. do t.: Juliette Récamier, em cujo salon se reuniam as maiores celebridades da França de sua época. Além disso, sua figura se tornou famosa a partir de retratos realizados por eminentes pintores do século, como Jacques-Louis David e Fragonard.
[9] (#_ftnref9) N. do t.: Jean-Pons-Guillaume Viennet fez carreira militar sob o Império de Napoleão. Opositor ferrenho do romantismo, foi eleito para a Academia Francesa em 1830.
[10] (#_ftnref10) N. do t.: Conhecido como o “naufragador da República” por sua participação como presidente da comissão que outorgou plenos poderes ao Marechal Pétain em 1940 — Pétain que, vale lembrar, instauraria o Regime de Vichy e estabeleceria a colaboração da França com a ocupação nazista —, Jean Mistler foi eleito para a Academia Francesa em 1966.
[11] (#_ftnref11) Preferimos “tátil” a “material” pois, segundo Lênin, a “matéria é o que, atuando sobre nossos órgãos dos sentidos, produz a sensação; a matéria é a realidade objetiva, que nos é dada nas sensações”. Consideramos esta definição demasiadamente distante do idealismo que, a nosso ver, parece ter um papel decisivo na constituição disso que denominamos realidade.
[12] (#_ftnref12) Cf. “Sin utopía no hay realidad: apuntes para volver del futuro”, publicado por Fernando De Leonardis na coletânea Sin utopía no hay realidad. A propósito de Karl Marx, organizada por ele mesmo e por Carla Imbrogno (TNA, 2018).
[13] (#_ftnref13) A definição oferecida peEditora independente é uma editora sem vínculo com grupos de investidores ou grandes grupos econômicos e empresariais
[14] (#_ftnref14) Após a conclusão do presente texto descobrimos o Como nasce uma editora (Entretantas, 2023), de Ana Elisa Ribeiro, onde a autora parece se propor a uma reflexão do tipo.
[15] (#_ftnref15) Para mais informações, vide o artigo de Dainis Karepovs, “Benjamin Péret: um audacioso indesejado”, disponível em: < http://legacy.anpuh.org/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/Autores%20e%20Artigos/Dainis%20Karepovs.pdf (http://legacy.anpuh.org/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/Autores%20e%20Artigos/Dainis%20Karepovs.pdf) >; acesso em 2 de abril de 2024.
[16] (#_ftnref16) Para maiores informações, vide o artigo “Jazigos e covas rasas: o livro que Gilberto Freyre não escreveu?”, de Solange de Aragão.
Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR, membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022) e La promenade de Vénus (Venus D’Ailleurs, 2022). Atualmente é responsável pela Contravento Editorial, também assinando a coluna "A Fresta" na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.