
por Gabriele Rosa
24 de setembro de 2024
Gabriele Rosa (https://aboio.com.br/tag/gabriele-rosa) é natural do Rio de Janeiro. Historiadora e dramaturga de processos, assinou o dramaturgismo da peça Memórias de uma Manicure (https://www.bonecasquebradas.com.br/memoriasdeumamanicure) (Bonecas Quebradas Teatro, 2023 – Projeto contemplado no Edital Eletrobrás 2021). Publicou Dias medidos em xícaras de café (https://editoraurutau.com/titulo/dias-medidos-em-xicaras-de-cafe) (Editora Urutau, 2023), Não consigo me desvencilhar desse óbito (https://www.editoraprimata.com/nao-consigo-me-desvencilhar-desse-obito-de-gabriele-rosa/p) (Editora Primata, 2023), entre outros livros. É aluna do CLIPE Poesia 2023 (Casa das Rosas).
estou cansada. quando o vento é de sudoeste sinto o cheiro da sua cidade ainda nos poros. detesto. em algumas semanas volto ao objeto encantador dos teus sentidos. você bem aí do outro lado do oceano. bom para nós dois — o desencontro. Vênus em trígono com Lua em Áries, Mercúrio conjunto a Netuno e Plutão… ah! nem queira saber sobre ele. o céu não está para jogos flébeis. vento de sudoeste. 7h, caminho até a feira, sacola e lista na bolsa. liguei para o meu astrólogo e ele segue confuso: 2h33 ou 2h38? gosto de atravessar ruas lotadas de gente. levo as vozes para casa, deixo-as no teto, ouço antes de dormir. você nunca mais disse o meu nome. cinco batatas-doces, dois inhames, couve, três tangerinas, uma dúzia de laranjas-pêra, dois litros de água de coco, bananas…, não estão maduras, cancela. morango, coentro, cominho, caminho… seríamos um casal que…, alecrins dourados fazem feira? exatamente o que pensei, próximo! as telas infinitas me aguardam para mais uma aula. estou envolvida agora com gente perigosa, muito perigosa: poetas. sim, poetas. lembra do Fernando? pois é, escancarado em todos os versos, afinal tudo o que leva consigo um nome retalhou o alecrim dourado, me lembrou você, e o que não fiz [ainda] com você. disparei o mailing para os teus dois mil duzentos e noventa e três seguidores: mascarilla ou beijos de gratiluz. cinco minutos de diferença não vão mudar minha vida inteira. astrólogo dramático. um mapa natal não passa de uma fotografia borrada de combinações exuberantes e enlouquecedoras. uma cartografia dos afetos primevos. me lembrou você, e o que não fiz [ainda] com você. não comprei todas as frutas da estação e esqueci das flores. acho que corri por duas horas. uma daquelas perseguições recorrentes durante a vigília. antes de acordar, no frame final vi tua escápula de frutas frágeis. devorei o osso inteiro.
tinha medo de sentir o gosto do
corpo de Cristo
— não mastigar cuspir engolir
elas disseram
usei botas marrons na Eucaristia e as pupilas
alheias decalcaram minha ossatura frágil
as boas meninas usaram sandálias brancas
mas não sabiam nada sobre os Mistérios Gloriosos
Fotografia: Remadores na Praia de Fora em direção ao Forte São José; ao fundo, o Morro do Corcovado – Marc Ferrez (Acervo Instituto Moreira Salles (https://acervos.ims.com.br/)).
Gabriele Rosa é natural do Rio de Janeiro. Historiadora e dramaturga de processos, é autora de Dias medidos em xícaras de café (Urutau, 2023), Lavínia é mais rosa que espinho (Motta, Carla, Libertinagem, 2022) e Fendas extraordinárias (Patuá, 2019). Colabora mensalmente com a coluna “memórias táteis, intempéries e outras derivas“, na Revista Ruído Manifesto.
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