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Ser admirada, jamais amada

Ser admirada, jamais amada

por Natan Schäfer

25 de agosto de 2023

Pâmela Filipini (https://aboio.com.br/tag/pamela-filipini) nasceu em Rolim de Moura, interior de Rondônia, 1994. Publicou 3 livros: Folhas dos ossos ou o tratado das coisas insignificantes (https://www.amazon.com.br/Folhas-ossos-tratado-coisas-insignificantes/dp/8582974256) (Editora Patuá, SP, 2017); Ensaio sobre a Geografia dos Cernes (Portugal/São Paulo, 2017/2018); Pôr a Prumo o Tempo (https://www.skoob.com.br/por-a-prumo-o-tempo-1027673ed1029989.html) (Temática Editora, Porto Velho, 2019). Também lançou quase uma dezena de álbuns com composições voltadas à Música Clássica.

SER ADMIRADA, JAMAIS AMADA

Ser admirada, jamais tocada
― como um vaso de flores vazio
ilustrando a pouca pertença.
Ser lida, jamais beijada
― como uma Ártemis:
interessante e, no entanto, perigosa.
Ser amiga, jamais pensada
― como matéria além-amizade.
Raiz nula, o fruto devorado em silêncio.
Ser invariavelmente a Mulher
Solitária que mora somente no aceno,
no conselho, na sabedoria fundada
no coração do exílio interior.
Ser ainda mais admirada, como se não
existisse um corpo, como se não
existisse braços e afeto, como se não
existisse uma Mulher Real com costas
sofridas e mãos prontas para amar,
como se a Poesia fizesse dela
uma igreja em chamas na qual todas
as pessoas já estão condenadas.
Ela, o espécime feminino que não pode
ser amado nem queimado.
Ela, fadada à morte sem ao menos
poder morrer.

Ser admirada, jamais amada.
Esta é toda Maldição.

TENS O CAMPO

Tens o campo, o rebanho, as águas.
Tens o leite, o fermento, o trigo.
Tens o pão e o silêncio.
Tens o rumorejo entre a brisa
e a sombra que faz teu sofrimento
folgar-lhe o estômago
terminando-se com olhos
em azul e fome.
Tens nas mãos funções que não
cabem às mãos.
Estes gestos te possuem.
Tu amas.
As mulheres estão salvas
em teu tapume.

Meditei sobre estas coisas quando
ainda não havia eu a meditar sobre
estas coisas, quando não havia tu
a meditar sobre mim.
E agora, neste Tempo Irrequieto
de Interior, meditamos uma à outra
secretamente para que ninguém
invada a pequena revisão que a
Vida nos cumpre quando ao olhar
as Estrelas fazemos o Amor Invisível
somente disponível aos Seres Livres.

Olhes como o acontecimento
ainda não te terminou.

Tens a sorte de tocar em coisas
que só posso imaginar.

Fotografia: Rochas na Avenida Niemeyer – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles (https://acervos.ims.com.br/portals/#/detailpage/80383)).

Natan Schäfer

Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR, membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022) e La promenade de Vénus (Venus D’Ailleurs, 2022). Atualmente é responsável pela Contravento Editorial, também assinando a coluna "A Fresta" na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.

O Grupo Aboio busca profissionalizar o mercado editorial independente e ajudar autores a construírem uma carreira de longo prazo.