Viver magicamente: idolatria em “The Beatles: Get Back” e “Living in the Material World”

por Yasmin Bidim
Cena da série "The Beatles: Get Back" para ilustrar a crítica "Viver magicamente: idolatria em The Beatles: Get Back e Living in the Material World" de Yasmin Bidim.

Yasmin Bidim vive na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Tem formação em cinema e é doutoranda em Estudos de Literatura pela UFSCar. Trabalha como pesquisadora e educadora de arte e cultura, artista multimídia e produtora cultural. Produz o canal Poesia em Obra, no YouTube, no qual divulga seus poemas visuais e também o blog A Terra é Plena. Em 2020 lançou pela editora Penalux seu primeiro livro de poemas, o Livro dos Interiores.


Esta semana, dia 29 de novembro, fez vinte anos da morte de George Harrison. Me lembro bem de quando ele morreu, principalmente pela reação do meu pai, muito fã dos Beatles. Lembro que a sensação era de que algo grande tinha ocorrido, um beatle tinha morrido. Eu tinha treze anos na época e acho que foi quando eu me dei conta pela primeira vez que os Beatles não era apenas uma entidade, um fenômeno solto no tempo, algo de domínio público, mas que os Beatles eram pessoas, alguns homens que se juntaram alguns anos atrás para fazer música e criaram, sem querer, esse fato histórico e cultural que foi os Beatles. 

Os Beatles fizeram parte da trilha sonora da minha infância, mas foi a morte de George que despertou em mim um interesse particular, uma escuta mais atenta, a compreensão de que aquelas músicas tinham sido feitas por pessoas, seres humanos com suas histórias e vidas que protagonizaram um evento muito importante de nossa cultura, que foi o fato Beatles. Foi a partir daí que a banda entrou no mapa pra mim e que eu, assim como meu pai décadas antes, também virei fã. E quando você se torna fã de um artista, e especialmente quando esses artistas são os Beatles, você se torna também um idólatra, um sujeito que viverá eternamente buscando imagens que alimentem a conexão mágica com o objeto de admiração. 

Para Flusser, a idolatria acontece quando “o homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função das imagens. Não mais decifra as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como conjunto de cenas” [1]. Ou seja, ser um fã dos Beatles é ser um idólatra na medida em que toda e qualquer imagem da banda não funciona como mera representação da realidade, de um fato e um tempo que foram, mas, inversamente, são vivenciadas como a própria realidade, como se a função mesma do mundo fosse refletir essas cenas. 

O idólatra é o “homem que vive magicamente” [2], que se alimenta das imagens como se fossem elas a verdade do mundo, e quando observamos o fenômeno Beatles essa operação fica particularmente evidente, a ponte de haver uma idolatria tão grande, que em determinado momento de suas carreiras os músicos decidem não mais fazer shows ao vivo, não mais se apresentar em público, reconhecendo o tamanho da dissociação produzida entre sua representação imagética e sua realidade no mundo.

Desse modo, os registros imagéticos (vídeos, fotos e áudios) que foram feitos dos Beatles enquanto eles ainda eram uma banda foram exaustivamente reproduzidos e circulam até hoje, alimentando a idolatria e remagicizando, através da imagem-técnica, a sua existência. E desse modo é possível que continue havendo, e talvez de modo cada vez mais intenso conforme o tempo avança, uma relação mítica com a banda e seus integrantes, de modo que qualquer novo material, nova filmagem, nova montagem em vídeo dos Beatles desperta nos fãs e até mesmo em quem não é assim tão fã o espírito idólatra, pelo simples prazer místico de ver essas imagens, de outro tempo histórico, de um tempo mágico – que não é o tempo histórico que as imagens representam, mas o tempo das imagens em si mesmo, o tempo do audiovisual –  desses homens míticos em momentos nunca antes vistos.

E é precisamente isso que a série documental “The Beatles: Get Back”, de Peter Jackson, que acabou de ser lançada, nos oferece. Quase oito horas de imagens inéditas dos Beatles captadas em 1969 enquanto ensaiavam e compunham músicas que posteriormente integraram os álbuns Let It Be e Abbey Road. Organizadas em três episódios de mais de duas horas cada, a série oferece material suficiente para uma boa sessão de idolatria aos fãs de Beatles ou qualquer interessado em música.

Além do apelo óbvio de trazer oito horas de imagens inéditas dos Beatles compondo e ensaiando, a série oferece a oportunidade de assistirmos a imagens dos músicos feitas pouquíssimo tempo antes do rompimento da banda. Ou seja, estamos diante das últimas imagens feitas do quarteto enquanto grupo musical. Também contribui para a sensação de estarmos diante de imagens históricas o fato de essas imagens registrarem os instantes nos quais grandes hits do grupo foram compostos.

Num determinado momento da série, ainda no primeiro episódio, Paul, Ringo e George estão sentados no estúdio aguardando John, que está atrasado. Enquanto aguardam, Paul começa a improvisar uma melodia no violão que aos poucos vai tomando a forma de Get Back. Ainda nesse mesmo episódio, dessa vez sentado ao piano, Paul começa a tocar as primeiras notas do que depois se tornaria Let It Be. É de fato uma sensação extraordinária a de ver e ouvir várias dessas canções consagradas antes se serem o que são. 

A constatação de que elas já foram outra coisa antes de ser o que são, testemunhar seu ponto de origem, é uma experiência de fato mágica, que talvez caracterize o que Flusser quis dizer ao afirmar que “o caráter mágico das imagens” [3] reside no seu poder de serem “códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas” [4]. Pois que as canções passam sempre por um processo de composição até se tornarem o que são é um fato conhecido, mas o simples conhecimento desse fato não o torna, necessariamente, um evento mágico, uma experiência mítica. Mas a transformação desse processo em cena, por meio da imagem-técnica e os artifícios da montagem cinematográfica, que pode ser vista e testemunhada repetidamente, deslocada no tempo de seu ponto de origem, é o que converte na prática essa experiência num acontecimento mágico, num fato histórico, num evento mítico e simbólico. Não é o fato em si, mas sua conversão em imagem-técnica que pode ser reverberada e reiterada eternamente a ponto de tornar-se ela mesma o fato, ela mesmo o significado daquilo que representa.

E ainda orbitando no universo dos Beatles, e particularizando o recorte para um único Beatle, há também o filme documentário de Martin Scorsese, George Harrison: Living in the Material World (2011), que se concentra na vida do beatle George Harrison, que, junto com Ringo Starr, era um protagonista menor da idolatria em torno da banda. E talvez justamente por essa aura meio desconhecida, meio mística de George, pouco explorada, que o filme, com mais de três horas de duração divididas em duas partes, produz uma sensação muito semelhante à da série de Peter Jackson, de estarmos diante da vida de alguém cuja existência foi de fato mágica e mítica. 

De todos os Beatles, George foi quem mais se aproximou do movimento Hare Krishna e da cultura hindu, o que talvez contribua diretamente para a criação dessa aura mística em torno do músico, fato que o documentário aborda de maneira bastante potente no sentido de criar uma imagem mágica em torno de George.

Dois momentos, nesse sentido, se destacam em duas sequências do filme. A primeira é quando, já bastante próximo de Ravi Shankar, George se volta para a música indiana e tenta aprender a tocar cítara. Ele diz que “Ravi e a cítara foram apenas uma desculpa para que ele encontrasse uma conexão espiritual”. Essa declaração de George demarca um momento de ruptura e mudança de sentido da música em sua vida, em relação à fase Beatles. Não que caiba interpretar que a música no contexto dos Beatles era pouco espiritualizada, mas que para ele, George, a experiência da música precisava de um novo sentido que talvez ele sendo integrante dos Beatles não permitisse alcançar.

E no mesmo primeiro episódio de Get Back é possível observar na dinâmica dos quatro músicos que George desenvolve com a música uma relação bastante interiorizada e individualizada. Num dado momento do episódio os músicos acabam de chegar ao estúdio e estão se preparando para começar a ensaiar, George está sentado com o violão no colo, ao lado de Ringo, que ainda nem sentou à bateria, Paul, John e Yoko estão de pé e George fala “querem ver a música que eu compus ontem à noite?” e começa a tocar no violão “I Me Mine”. Diferente da dinâmica de parceria entre Paul e John, que compõem juntos, George chega já com a música pronta, que ele fez sozinho, em casa, num contexto íntimo e privado. E enquanto ele toca a música, os outros três músicos não parecem dar muita atenção a ele, o que me faz pensar que não é que George fosse preterido musicalmente por John e Paul, mas que talvez houvesse já uma distância entre como cada um deles se relacionava com a música em si. Mais que uma diferença estética ou formal havia uma diferença conceitual, na origem do que era a música para cada um deles.

Por isso talvez George tenha encontrado na música indiana, em Ravi, na cultura Hare Krishna uma identificação não com o tipo de música que ele queria fazer, mas na maneira como a qual ele queria fazer música, que tipo de relação ele queria estabelecer com a música. Nos primeiros minutos da segunda parte do documentário de Scorsese, George conta como Ravi o fez voltar a fazer música pop, dizendo a ele que buscasse sempre suas raízes. E num encontro com Jimi Hendrix e Eric Clapton num hotel em Los Angeles ele decide nunca mais tocar cítara e ser apenas um guitarrista e compositor, pois ele percebe que jamais seria um tocador de cítara, ou pelo menos um bom tocador de cítara, pois ele havia visto milhares de tocadores de cítaras melhores que ele na Índia. 

É nesse momento que George percebe que fazer música em conexão com suas raízes, que experienciar a música de modo verdadeiro e espiritual, não significava reproduzir a música indiana, ser um tocador de cítara. Então sua declaração de que Ravi e a cítara eram apenas uma desculpa para ele entrar em conexão com sua espiritualidade fazem sentido. Ele descobre que a relação que ele queria estabelecer com a música não dependiam de nenhuma forma ou estética específica, e ele então se liberta para ser ele mesmo e fazer a música que sabe fazer, que faz sentido para ele fazer.

A construção do filme de Scorsese é bastante potente no sentido de, ao mesmo tempo que constrói uma linha do tempo regular da biografia de George, também estabelece um percurso não linear que narra a busca de George por uma existência espiritualizada que está totalmente colada a sua experiência com a música, evidenciando um percurso íntimo, uma busca interna que não é de modo algum regular. Num sentido teleológico, a música foi o meio pelo qual ele buscou e construiu sua verdade espiritual. Terminamos de assistir ao filme com a sensação de que George realmente viveu uma vida mágica, mística. E isso acontece não por que a espiritualidade e os misticismo são temas do filme, mas porque a construção imagética da vida do ex-beatle produz o esquema idólatra. Não é George que vive magicamente, somos nós que vivemos magicamente por meio de sua representação imagética. Idolatria pura. 

Nesse ponto, o leitor que no início da leitura se deparou com uma crítica à idolatria em torno dos Beatles, agora lê uma crônica idólatra em torno da figura de George Harrison. Esse procedimento vacilante entre estar consciente da idolatria e estar imerso nela é inevitável. E, por mais que aqui tenhamos reconhecido o modo idólatra que dá o tom do universo imagético dos Beatles, não há de modo algum um julgamento dessa operação, apenas uma constatação do fato e o reconhecimento de que, na prática, nos beneficiamos do esquema, que possibilita a existência de obras audiovisuais como a série de Peter Jackson e o documentário de Martin Scorsese. 

No fim este texto é um apelo idólatra para que os leitores assistam à série e ao filme. E é particularmente interessante combinar as duas, principalmente se, assim como eu, seu beatle favorito também for George Harrison, pois The Beatles: Get Back nos permite observar de perto como George se movimentava enquanto ainda era um beatle, e Living in the Material World cria um recorte muito sensível e atento que destaca George do todo dos Beatles, dando ao espectador a oportunidade de um olhar generoso a altura do grande músico que George foi.


[1]: Vilém Flusser, em Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia, 2009, p. 9. 

[2]: Idem

[3]:  Vilém Flusser, em Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia, 2009, p. 8

[4]: Idem


Imagem: Cena do primeiro episódio da série “The Beatles: Get Back” (2021).

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