1 / 2Rita de Podestá
Continuar a existir. Essa parece ser a mirada central deste Parapeito, primeiro e belo romance de Rita de Podestá, após sua estreia com o livro de contos Zaranza. A certa altura da trama, Clara, a protagonista, tem uma fala reveladora de sua angústia: “Talvez eu me torne um fantasma de mim mesma e me acabe num susto”. Diante das perdas de pessoas queridas, ou demais partes de seu mundo, ela vê despedaçar-se também a própria identidade. Como continuar a existir, quando nem se sabe direito quem é esse Eu a ser continuado?
A despedida desencadeadora da história é a partida repentina de Bernardo, com quem Clara manteve um romance por treze anos. Esse processo de luto soma-se a outros, fantasmagorias acumuladas. Com habilidade e sem proselitismos, Podestá mostra que mesmo em uma época de respostas padronizadas para feridas amorosas, elas ainda se abrem e fogem ao controle, ou à expectativa de sobrepujá-las de forma racionalizada.
Clara se perguntará não só sobre a continuidade de sua própria existência, como também da de Bernardo, depois desse término. Ele estará morto? Ou mais feliz? Nesse estado de suspensão – ou de multiplicação – das possibilidades, seu olhar se voltará para uma das janelas do prédio vizinho, onde encontrará uma mulher misteriosa, que todos os dias escreve em um caderno e à qual dará, a princípio, o apelido de “chinesinha”.
Sobre essa mulher sem identidade projetará grande parte de seu tempo, de sua solidão e de suas perguntas a respeito da continuidade da existência. Quem é a “chinesinha” e o que ela escreve? De onde vem e para onde vai quando não está no apartamento? Vista do parapeito, recortada pela janela e pela distância, a outra mulher magnetiza a atenção de Clara com a força daquilo que é tão desconhecido quanto inegável.
Em uma espécie de jogo de espelhos, no qual sua vida recairá, Clara buscará formular qual será a continuidade da existência da “chinesinha”, enquanto busca também um caminho – ou descaminho – para si. Uma chance de continuar a existir quando tudo o mais parece ter deixado de fazê-lo.
Rafael Gallo
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Rita de Podestá
Rita de Podestá nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1985. Sua formação acadêmica é diversificada, com graduação em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Complementou seus estudos com uma pós-graduação em Literatura Comparada pela Universidade Nova de Lisboa. Ao longo de sua trajetória, morou em diferentes cidades, incluindo São Paulo e Salvador, e atualmente reside no Rio de Janeiro.
Além de sua atuação como escritora, Rita de Podestá também trabalha como redatora e roteirista. Sua voz literária tem sido reconhecida por explorar com sensibilidade a complexidade das relações humanas e as nuances da existência contemporânea. Ela é conhecida por sua prosa habilidosa e despojada, que mergulha nas inquietações femininas e nas realidades fragmentadas, buscando encontrar sentido em um mundo multifacetado.
Trecho
Tem algo nela. Algo que eu deveria saber. Quando olho para o seu apartamento, meu campo de visão se restringe, ganha foco. Entro na sua sala sem nenhum esforço. Tem algo nela que faz com que tudo seja simples. Basta comer, beber e escrever. As mesmas roupas sem cor marcando uma repetição morna. Pode ser que o algo seja isso. A raridade do que é simples. Pode ser que seja a constância. É isso, a constância do simples. Fazer dos biscoitos um banquete. Da caneca, uma taça. Da escrita, uma extensão do corpo que bebe e come. Gosto de pensar que ela vai para o apartamento todos os dias por minha causa, ainda que eu prefira que ela ignore que eu existo. Também gosto de imaginar que ela não se importa, que já sabe tudo o que precisa saber, apenas registra.
Recepção
Destaque
Ao oscilar entre realidade (qual?) e ficção, o livro é um convite às possibilidades. Ele te convoca a fantasiar sobre multiversos (dos personagens e, quem sabe, o seu). Especificamente sobre o de Rong, eu vou aceitar o criado por Rita
— Leia mais jornalistas, 2025-08-23T14:09:57.000Z