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Em Xamãs e Robôs, o antropólogo Roger Bartra lança um olhar original sobre a consciência, questionando se a inteligência artificial será capaz, um dia, de adquiri-la. Para isso, Bartra articula saberes antropológicos, neurológicos e tecnológicos, com uma proposta ousada: a consciência humana é um fenômeno cultural, que não acontece apenas dentro do cérebro, mas fora dele, na rede simbólica que nos cerca (linguagem, gestos, artefatos, rituais). É o que ele chama de exocérebro, conceito central na sua obra, que desafia as concepções tradicionais de mente e subjetividade. Para Bartra, as máquinas precisarão de mais do que algoritmos e circuitos mecânicos para desenvolverem consciência: será necessário a construção de vínculos externos com um ambiente cultural e sensorial.
Partindo de uma abordagem antropológica que vê continuidades onde outros enxergam rupturas, Bartra constrói uma ponte inesperada entre práticas espirituais ancestrais e tecnologias de ponta. Como resume o professor e pesquisador Luli Radfahrer, na orelha do livro, xamãs e robôs “ocupam posições equivalentes como intermediários entre mundos, tradutores de realidades inacessíveis”, e o fascínio contemporâneo pela inteligência artificial não representa uma ruptura, mas “a continuidade de uma necessidade humana fundamental: a criação de mediadores para lidar com o incompreensível”.
Com clareza e sem concessões ao misticismo ou à tecnofilia, Xamãs e Robôs propõe que, do ritual ao cibernético, o que está em jogo é a tentativa de expandir os limites da consciência por meio de ferramentas externas. Trata-se de uma leitura essencial para quem intui que “as fronteiras entre natureza, cultura e tecnologia são muito mais permeáveis do que supomos”, como bem assinala Radfahrer.
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Roger Bartra
Roger Bartra é um antropólogo e sociólogo mexicano, nascido na Cidade do México em 1942. Filho dos escritores catalães exilados Agustí Bartra e Anna Murià, construiu uma trajetória acadêmica marcada por investigações sobre identidade, cultura e consciência. Formado em antropologia no México, doutorou-se em sociologia pela Sorbonne e é pesquisador emérito da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde atua desde 1971. Reconhecido como um dos principais cientistas sociais da América Latina, Bartra é autor de obras influentes como La jaula de la melancolía e desenvolveu a teoria do exocérebro, que propõe que a mente humana se completa por meio de próteses culturais externas. Recebeu, entre outras distinções, a Bolsa Guggenheim em 1985.
Trecho
Há dois temas que permitem relacionar o fenômeno xamânico com a robótica: o sofrimento e o prazer. Os rituais de cura de médicos e xamãs estão destinados a diminuir ou eliminar a dor e os tormentos que padecem os humanos, e a proporcionar-lhes prazer e bem-estar. Por sua vez, a inteligência artificial e os robôs são construídos, ao menos a princípio, com o objetivo de reduzir as fadigas e as penas que afligem os humanos quando/enquanto trabalham. O trabalho, como a doença, é uma fonte de dor e penúria. Não quero dizer que o trabalho seja uma doença, mas sem dúvida ambos são condições que geram sofrimento. O problema que enfrentam os construtores de robôs é que suas máquinas carecem de sensibilidade, e sem ela parece difícil que possa existir a consciência. Estamos diante de um paradoxo: a consciência está sustentada no sofrimento, mas os humanos estão empenhados em aliviá-lo ou até mesmo eliminá-lo. Os robôs que conhecemos hoje são máquinas insensíveis que não sofrem, e por isso mesmo não parece que possam ter consciência.