A paralaxe de Alejandro Zambra em Poeta Chileno

por Pedro Torreão
Alejandro Zambra Poeta Chileno (uma gata)

Pedro Torreão é cientista social, mestre em sociologia e poeta. Nascido em Recife, reside em São Paulo – desde 2017 -, onde escreveu Pão Só, seu primeiro livro que recebeu menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2019. Tem poemas publicados pela Quatrocincoum, Aboio, Ruído Manifesto, entre outros.


A cada dia me pareço mais com minha gata

“Te pido perdón, te doy un riñón”
Poeta Chileno – Alejandro Zambra

Na astronomia, a paralaxe ajuda a medir longas distâncias e a entender a relação aparente entre nós e os corpos celestes, tendo em vista diferentes movimentos dos observadores. Na literatura de Alejandro Zambra, o livro Poeta Chileno (Editorial Anagrama, 2020) tem como ponto especial sua capacidade de colocar em perspectiva a obra construída até hoje, mudando o nosso ponto de vista como observadores, nos proporcionando um novo ângulo, construindo eixos que guiam nossa experiência como leitores.

Ao construir uma obra que se debruça sobre a paternalidade, identidade nacional, subjetividade literárias e expectativas de educação formal, Zambra nos mostra que somente podemos dar aquilo que nos pertence. Talvez esse seja o maior ensinamento que podemos tirar de Poeta Chileno. Não que livros devam trazer ensinamentos, nem para leitores nem para escritores. Mesmo assim, é irrefreável pressentir e ressentir o que carregamos, o que trazemos dos outros em nossa vida ao lê-lo. Pressentir, como que em intuição, aquilo que nem sabemos ao certo que levamos e ressentir aquilo que nos deixa pistas.

Gonzalo e Vicente caminham na narrativa de Zambra como pai e filho, padrasto e enteado (hijastro, em um espanhol muito mais assertivamente poético) e como amigos, passeando por supermercados povoados por viejos pascualeros disfarçados em moletons a comprar seu uísque cotidiano. Um jogo de similaridade e diferença é construído e desenvolvido a partir do tempo, lugar por excelência dos erros de julgamento e dos erros objetivos. Tempo que tem valor fundamental na obra de Zambra.

 Em A Vida Privada das Árvores (Tusquets, 2018), o curto espaço de uma noite se materializa na conjuntura e imaginação de uma vida inteira, organizada pelo acordo com o leitor desde o princípio da premissa da espera que não se resolverá: “Quando ela voltar, o romance acaba. Mas enquanto não volta, o livro continua. O livro segue em frente até ela voltar ou até Julián ter certeza de que ela não voltará mais”.

Acordo também traçado conosco em Bonsai (Tusquets, 2018), sobre a incapacidade de deter a morte que acontecerá e acontece, assim como na nossa vida, valendo-se, ainda mais, do sadismo objetivo da literatura: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já estivesse sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emília”.

Enquanto nessas obras o autor entra em acordo com seu público na delimitação das fronteiras do tempo logo na partida – seja sobre a morte em Bonsai, seja sobre a ausência em A Vida Privada das Árvores -, aqui ele se propõe a estar em acordo com as suas personagens, ao não nos revelar o futuro, mas abrindo espaço para os limites das suas possibilidades criativas, ou seja, dando-lhes agência. Zambra se movimenta em Poeta Chileno como quem caminha por sua antologia, assim como as personagens fluem em suas próprias memórias, vivências e presságios. É um trabalho que caminha pelo tempo, levando essa temática, já antes tão presente, para um novo nível. 

O exercício de imaginação do futuro já tinha sido tema na obra de Zambra, em A Vida Privada das Árvores, no qual a espera e o afeto andam de mão dadas no desenvolvimento de uma história a partir do medo real do não retorno e do exercício de futuro atrelado a ele. Imagina-se o futuro, tendo como condição fundamental a premissa de não vivê-lo. A morte, em Bonsai, por sua vez, é tratada como o futuro que não se remedia, como algo que já o é, não importando a vida ao redor ou o desenvolvimento das personagens, ela se apresenta como protagonista entre coadjuvantes que povoam as páginas, como cortina, que se abre e que se fecha. Sendo sempre a mesma, mas trazendo significados diferentes a partir do momento que a observamos: seja na apreensão do início, na constatação do final ou na realização dos aplausos. 

Mas nas duas obras o que se sobrepõe é a impossibilidade da escrita, a frustração de não conseguir construir em palavras – sobretudo de maneira desejada – o que se sente e o que se vive. A quebra de uma simbiose romantizada entre o escritor e a sua pretensão de representar o real, o vivido. Essa esfera do desencanto do ofício literário aparece na dialética entre o representar e o representar-se, impossibilidade ontológica em um campo que a imaginação tiraniza a realidade. E geralmente vence.

Tal impossibilidade se mantém como tema central em Poeta Chileno, porém, dessa vez, ligada ao sentimento nacional – tema construído em Formas de Voltar para Casa (Tusquets, 2019) – e desvelando a educação sentimental de um povo latino-americano. A poesia e os poetas não surgem nem como cenários nem como objeto no livro, mas como forma de expressão de diversas gerações que se heroicizam e se digladiam, batalhando em um campo que vai muito além do simbólico e que acaba em combos y patadas; pero ¡Que siga la fiesta! 

A poesia é no livro, sobretudo, construção de identidade. A força da criação e diferenciação de cada poeta é soterrada pela identidade única e irrevogável de poeta chileno. Poesia gay, queer, indígena, estudantil, poetas homens, poetas mulheres e poetas anônimos são sobretudo Poetas Chilenos. Não há para onde fugir. A única sublevação possível é exatamente fora da arte, na subjetividade do dia a dia, nos versos livres de ser quem se é.

Para Zambra, só se é quem se é nas linhas tortas desses versos livres que traçamos no dia a dia. Soa banal exatamente por ser banal, não há vida sem repetir nossos erros e os erros de quem errou conosco. E isso se constrói no romance em uma paternalidade torta, na paternidade possível de quem inventa esse papel, como quem inventa nome de árvores que não conhece. Pai, avô, padrasto se misturam tendo como única possibilidade o erro que recebemos como filhos, netos e enteados, e repetiremos como amantes, maridos e, já pela nossa vez, pais.

Essa paternalidade se dilata no tempo de Poeta Chileno. Ela não fica presa no espaço do presente e continua carregada de passado. O futuro é realizável e podemos conjecturar, nesse momento, algo ainda difícil na obra do autor chileno: a relação entre a expectativa de futuros possíveis e a sua realização. Podemos perceber que levamos conosco aquilo que nos deram para carregar e da inviabilidade em dar algo que não levamos conosco. Isso se reflete na relação das personagens, nas héxis de um corpo que imita e repete movimentos, na identidade morena chilena que não é vista como fenótipo ou genótipo, mas como similaridade de quem se percebe nos olhos dos outros.

O escrever passa pelo mesmo movimento, só conseguimos colocá-lo em prática a partir de referências que nos constroem e nos embasam. Assim, o tema do plágio e do reconhecimento sempre entram em jogo na obra do autor. A beleza de bonsais interpostos, professores, sistema educacional e paternalidades encontra seu ponto alto nesse livro em que Zambra constitui uma antologia de si mesmo. O conjunto da obra de Alejandro Zambra deve ser percebida como um exercício de paralaxe, no qual  corpos se movimentam em torno do autor e, pela primeira vez, talvez, em toda a sua obra, conseguimos ter uma imagem geral, com distâncias bem medidas.

Descobrir-se, nos conta o autor, é descobrir os que andam ao nosso lado. É querer ser poeta único em um país de poetas ou buscar a parentalidade da convivência. É sentir Criseida, minha gata, que me acompanha nas leituras às seis horas da manhã, em mim. Com todos os dentes e pedindo minha comida – ainda não ao contrário. Mas nem minha posso afirmar que ela é, já que estava com Natália, minha esposa, antes da minha chegada neste lar. Talvez seja minha gatastra. Talvez.

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