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24 de setembro de 2024
Vitor Cei (https://aboio.com.br/tag/vitor-cei/) é doutor em Estudos Literários pela UFMG, com doutorado sanduíche em Estudos Latino-americanos na Universidade Livre de Berlim. Trabalha como professor de literatura nos cursos de graduação, mestrado e doutorado em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. Publicou dez livros acadêmicos. Café com Paul Celan (fuga da morte brasileira) é seu primeiro poema publicado.
café preto do alvorada nós o bebemos no ocaso
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite
nós bebemos e bebemos
nós abrimos covas no ar e não ficamos confinados
um genocida mora no palácio brinca com emas escreve ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ sua caneta funciona
escreve quando escurece na pátria amada teu cabelo pretoㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤLuana
ele escreve sai para o cercadinho as estrelas brilham ele tange seu gado
assobia para a esquerda ordena que cave a própria cova na terra
dança funk em passeio de lancha no litoral
café preto do alvorada nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos no ocaso
nós bebemos e bebemosum genocida mora no palácio brinca com emas receita cloroquinaescreve quando escurece na pátria amada teu cabelo preto Luanateu cabelo cacheado Luana Gabrielanós abrimos covas no ar e não ficamos confinados
ele berra não sou coveiro todos nós vamos morrer um dia tem que deixar de ser um país de maricas
temos que enfrentá-lo de peito aberto, lutar
mas cavamos mais fundo
ele agarra a arma na cintura saca e mira com seus olhos azuis
nós cavamos mais fundo e continuamos a cavar
café preto do alvorada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos no ocaso
nós bebemos e bebemos
um homem mora no palácio teu cabelo preto Luana
teu cabelo cacheado Luana Gabriela ele brinca com emas
ele tange mais docemente a morte a morte é uma mestra da pátria amada
ele tange mais gravemente estradão rebatedouro depois a gente esfumaça
abrimos covas no ar e não ficamos confinados
café preto do alvorada nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é a mestra da pátria amada
nós te bebemos no ocaso e de manhã nós bebemos e bebemos
a morte é a mestra da pátria amada seus olhos são azuis
ela nos fuzila com balas de chumbo
um genocida mora no palácio teu cabelo preto Luana
ele tange seu gado contra nós e oferece uma cova no ar
nós cavamos uma cova no ar e não ficamos confinados
ele brinca com emas e sonha – a morte é uma mestra da pátria amada brasil
teu cabelo preto Luana
teu cabelo cacheado Luana Gabriela
nosso açaí roxo da transformação
Foto de Luísa Machado (https://aboio.com.br/tag/luisa-machado/).