Carregando...
lojacomo publicarrevistacontatoquem faz?
® 2020 – 2025 Aboio. Todos os direitos reservados.

Feito pela Aboio.

Todos os produtos editoriais produzidos sob a marca Aboio® são publicados pela empresa Aboio Editora LTDA, inscrita sob o CNPJ: 41.629.306/0001-99.

O Grupo Aboio busca profissionalizar o mercado editorial independente e ajudar autores a construírem uma carreira de longo prazo.

Pisando na jaca, por Yvonne Miller

Pisando na jaca, por Yvonne Miller

por Yvonne Miller

12 de fevereiro de 2023

Quando me mudei para Pernambuco, fiz uma promessa: aprenderia a brincar carnaval.

— Pois, bora! No sábado tem um bloco tradicional que vocês vão A-DO-RAR — assegura nossa nova amiga pernambucana.

Tenho lá minhas dúvidas, mas sábado estamos no lugar combinado. A praça já está lotada, e nossa amiga acena do meio da multidão. Respiro fundo e mergulho no mar de glitter e sombrinhas coloridas. Emerjo ao lado de um grupo de mulheres com chapéus pontiagudos e cartazes nas mãos: “Na atual conjuntura medieval, estamos do lado das bruxas.” Eu acho é justo e já começo a me sentir mais à vontade quando, de repente, o bloco se põe em marcha. Nossa amiga-conhecedora-de-carnaval recomenda ficarmos bem pertinho da banda para curtir ao máximo. 80% dos foliões tiveram a mesma ideia, mas aí vamos. Prensada entre minha esposa de um lado e a amiga do outro, peitos desconhecidos grudados nas minhas escápulas e minha barriga se esfregando involuntariamente na costa do homem suado à minha frente, flutuo pela rua, os trompetes gritando no meu ouvido. Um carro faz questão de abrir caminho entre os foliões. Os da frente param, os de trás empurram, a banda toca. Meus pés nem encostam no chão, mas tem pessoas que ainda assim conseguem dançar. Finalmente, o carro passou. Ganho um mínimo de ar à minha volta, meus pés descem ao chão e retomo a respiração. Consigo até sorrir um pouco. Nossa amiga acha que ficamos longe da banda e nos puxa de novo pro meio da brincadeira.

São só dois quilômetros de trajeto, penso, e nas próximas horas esse será meu mantra de salvação. Alguém pisa na minha chinela e continuo semi descalça – dois quilômetros. Quase tenho um olho furado por uma sombrinha colorida – dois quilômetros. A banda canta dos coqueirais de Olinda, enquanto um senhor barrigudo com uma jaca na cabeça termina sua coreografia no meu pé – dois quilômetros (mancando). Após uma hora, percebo que mal saímos da praça. Finalizo os dois quilômetros na calçada.

— Não gostou? — pergunta nossa amiga depois, suada, radiante e incrédula.

— Adorei — respondo. — Só que prefiro respirar.

Recife, fevereiro de 2020

Yvonne Miller

Yvonne Miller nasceu em 1985 na Alemanha, mas prefere o calor do Nordeste brasileiro, onde mora desde 2017. Cronista e contista, tem textos publicados em várias antologias e é uma das organizadoras e coautoras da coletânea de contos cearenses Quando a maré encher (Mirada, 2021). Pela Aboio, publicou Deus criou primeiro um tatu – Crônicas da Mata.