Tudo no Crepúsculo, de Vinicius Bandeira

por Vinicius Bandeira
Ilustração: "White Wyandottes to Date" de Franklane L. Sewell (1902).

Vinicius Bandeira nasceu em Teresina em 1999. É estudante do curso de Música na Universidade Federal do Piauí. Participou de exposições coletivas na cidade de Teresina nos anos de 2016, 2017 e 2018 e no ano de 2022 inaugurou a exposição individual SEQUENZE no Museu do Piauí. Em 2022 publicou a novela O Cabeça de Cuia, pela Kotter Editorial.


Tu acordas coberta de suor e teu pescoço arde. Tu coças teu pescoço. Ele arde. Tu levantas e olhas para o quadro de Jesus apontando para o coração com a mão esquerda; a outra mão se encontra levantada, meio aberta, assim, desse jeito. Teu pescoço arde, embaixo do teu peito também arde e teu cabelo preto, cada vez mais ralo, gruda na tua testa úmida e aperta teu pescoço que arde. Tua casa não tem ar. Ele deve estar lá fora, tu consegues ouvir algum barulho de enxada misturado com o barulho das galinhas e tu pensas Eu nunca quis vir pra Teresina, mas ele me fez vir. Vá para fora, pegue a galinha que passa perto de ti. Ela te olha no fundo dos teus olhos e tu pensas Consigo sentir a respiração dela, consigo sentir o coração acelerado, pois eu sei que ela já sabe o que vai acontecer, eu sei que ela já viu acontecer, todos os dias ela sabe que algum dia ela iria morrer e seria eu que mataria, e sabendo que eu mataria o que ela fazia? andava pra lá e pra cá pra lá e pra cá, pensando no que fazer e no que não fazer, pensando que talvez fosse melhor ficar, mesmo se morresse, mesmo se eu matasse, talvez porque talvez ela, talvez ela, talvez ela, talvez ela, talvez Ela te olha no fundo dos teus olhos, Cecília, olha-a de volta, tu sabes que ela sabe, tu sabes que ela já viu acontecer, ambos sabemos que ela irá morrer pelas tuas mãos, agora veja, do lado de fora já tem uma faca. Ponha a galinha bem firme na tábua — ela te olha no fundo dos teus olhos — e num golpe só — ela te olha no fundo dos teus olhos — arranca o pescoço. Agora aquela cabeça sem vida te olha no fundo dos teus olhos, olha-a de volta, olha o corpo, que antes pertencia àquela cabeça que agora está em tuas mãos, correndo pelo quintal, olha como corre sem rumo, fugindo de uma morte que já chegou, olha para essa cabeça em tuas mãos, olha, e olhando tu pensas Eu nunca quis vir pra Teresina, mas ele me fez vir. Não sabendo o que pensar tu ages sem pensar, preparando a comida como um operário, como se prepara um operário. Mas tu irás desfrutar do banquete? Não, irás comer as migalhas que o homem que vive contigo deixará. Mas por que ele te trata assim? Porque tu és uma vagabunda, uma puta inútil, pelo menos é o que te dizem. Mas quem é este homem? É um rapaz sem nome, trabalha do momento que acorda até o momento que dorme, se não trabalha a fome mata e se trabalha o corpo fraco morre e morre sem nada, porque durante toda a vida de trabalho ele nunca viu nada daquilo que trabalhou, ele sofre e maltrata, ele morre e mata, vai, ferve a água.

Acende o fogo e ilumina essa cozinha.

Lava teu rosto com a água que pegaste ontem à noite.

Agora que o fogo apagou, olha as sombras, que antes dançavam na parede, cobrirem toda a casa. Olha a sombra.

No escuro ele pegava no teu peito, tu fingias que dormia e ele pegava no teu peito enquanto dormias. Tu ficavas parada e fingia que dormia enquanto ele te usava.

Tu deste um filho para ele.

Quando o filho dele chorava tu te levantavas para amamentar. Tu olhavas o filho dele e não o reconhecia. Era uma criança estranha que tinha te roubado a vida que já tinhas dificuldades de segurar. O filho dele te olhava no fundo dos teus olhos e tu não queria fazer coisa alguma. Sem interrupção o filho dele chorava de noite enquanto tu querias dormir; sem interrupção tu sonhavas em te enforcar. O filho dele ficara adoentado, uma febre ou algo assim, e morreu depois de uma semana, e tu agradeceste a Deus porque pela primeira vez na vida tu havias sido abençoada, depois tu choraste sem saber o
porquê.

“Eu conheci ele no bambuzal, perto do rio.
Ele falou comigo, era bonito,
e eu gostei dele, até.“

Olha para ele.

Ele está lá, de costas, tirando o mato do terreno. Olha para ele, de costas, a enxada batendo na terra. Pegue a faca, saia da casa, espante os bichos. Vá, rápido, enfiando os pés na terra preta, vá, corra, apertando a faca com força, ainda suja com o sangue da galinha, restos do corpo já não mais vivo, ande com raiva, aperte os dentes, se revolte.

Quando tu chegas perto ele se volta, ele te olha no fundo dos teus olhos, e tu paras e paras de se mover. Ele olha a faca, vê o sangue, e te pergunta:

— Já fez a comida, Cecília?

E tu, com a cabeça baixa, respondes:

— Sim.


Ilustração: White Wyandottes to Date de Franklane L. Sewell (1902).

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