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Historietas

por Hjalmar Söderberg (trad. Guilherme da Silva Braga)
Gradiente em tons de azul, parte da capa de Historietas, feita por Luisa Machado.

Hjalmar Söderberg (1869–1941) é até hoje um dos grandes nomes da literatura sueca. Trabalhou durante algum tempo como funcionário público antes de se tornar um jornalista e então passar a se dedicar de maneira integral à carreira de escritor. Nascido e criado em Estocolmo, a capital da Suécia serviu de cenário para muitas das histórias de Söderberg. Em várias de suas narrativas curtas, como as que compõem Historietas, os acontecimentos se desenrolam da perspectiva de um narrador flâneur com um olhar apurado para tudo que acontecia ao seu redor. Lançando mão do fluxo de consciência e de teorias psicanalíticas, recursos que inaugurou entre seus contemporâneos, Söderberg resistiu ao tempo e se tornou um clássico, relevante mesmo depois de mais de um século e do outro lado do oceano.

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2016 foi indicado ao Prêmio Jabuti pela tradução de A Ilha da Infância, romance de Karl Ove Knausgård (Companhia das Letras, 2015).


O SONHO COM A ETERNIDADE

Ainda no início da minha juventude, dominava-me a convicção absoluta de que eu tinha uma alma imortal. A meu ver, tratava-se de uma dádiva sagrada e preciosa, que me enchia de felicidade e orgulho.

Com frequência eu dizia de mim para comigo:

– A vida que vivo não passa de um sonho escuro e confuso. Um dia vou acordar para outro sonho, mais próximo da realidade e mais pleno de sentido do que esse. Desse novo sonho vou acordar para um terceiro e depois para um quarto, e cada novo sonho há de estar mais próximo da realidade que o anterior. Essa aproximação da realidade é o próprio sentido da vida, uma tarefa rica e profunda.

Na alegria de saber que minha alma imortal era proprietária de um capital que não podia ser perdido no jogo e tampouco entregue em notas promissórias, eu levava uma vida desregrada e esbanjava como um príncipe – tanto o que eu tinha como também o que eu não tinha.

Porém certo entardecer eu me encontrava com meus companheiros num salão espaçoso, que reluzia com remates dourados e lâmpadas elétricas e de cujo assoalho erguia-se um leve cheiro de podridão. Duas moças de rosto pintado e uma senhora com as rugas cheias de pó dançavam num palco, acompanhadas pelo vinho da orquestra, pelos gritos dos homens e pelo barulho de copos quebrados. Observávamos essas mulheres, bebíamos à farta e conversávamos sobre a imortalidade da alma.

– É um disparate pensar que uma alma imortal seria uma dádiva – disparou um dos meus companheiros, mais velho que eu. – Olhem para essa velha que dança no palco, com mãos que tremem assim que ela para um instante sequer! Não resta dúvida de que essa mulher é feia, miserável e totalmente inútil, e que esses problemas não fazem mais do que se agravar à medida que o tempo passa. Seria ridículo imaginar que ela tem uma alma imortal! Porém o mesmo se passa comigo, com você e com todos nós. Seria uma piada de extremo mau gosto conceder-nos a eternidade!

– O que me desagrada nesse discurso – respondi – não é que você negue a imortalidade da alma, mas que sinta prazer ao negá-la. As pessoas são como crianças que brincam num jardim rodeado por um muro alto. De vez em quando um portão se abre, e uma das crianças some por esse portão. As crianças então dizem umas para as outras que aquele colega foi para outro jardim, maior e mais bonito do que este: todos escutam durante um instante de silêncio, porém logo tornam a brincar em meio às flores. Imagine agora que um dos meninos seja mais curioso do que os outros e resolva subir no muro para descobrir aonde foram os colegas; e que, ao descer, conte para as demais crianças o que viu: no outro lado do muro há um gigante que devora as crianças levadas para fora. E todas vão ser levadas para fora do portão, uma por uma! Você é esse menino, Martin; e para mim é ridículo que você conte o que viu não tomado pelo desespero, mas feliz e orgulhoso de saber mais que os outros.

– Essa moça mais nova é muito bonita – respondeu Martin.

– Ser aniquilado é terrível, mas estar acima da aniquilação também é terrível – disse outro amigo meu.

Martin deu continuidade ao raciocínio anterior:

– Pois é – ele disse. – O ideal seria encontrar um meio-termo. Cinge os teus lombos, levanta-te e procura o meio-termo entre o tempo e a eternidade! Quem encontrar uma coisa dessas pode fundar uma nova religião, pois há de ter em mãos a melhor isca já encontrada por um pescador de homens.

A orquestra encerrou o número com um estrondo. Os remates dourados no salão pareciam mais opacos em meio à fumaça do tabaco, e das frestas no assoalho continuava a se erguer um leve cheiro de podridão.

Despedimo-nos e logo cada um tomou seu caminho. Comecei a vagar de um lado para o outro e entrei por ruas que eu não conhecia e que jamais tornei a ver desde então – ruas estranhas e desertas, onde as casas pareciam abrir os portões para me receber, a despeito do rumo de meus passos, e a seguir pareciam fechá-los novamente às minhas costas. Eu não sabia onde estava, mas por fim cheguei ao portão da casa onde eu morava. Estava aberto. Entrei e subi a escada. Ainda na escada, parei junto a uma das janelas e olhei para a lua; eu não havia percebido que era uma noite de luar.

Mesmo assim, nunca mais tornei a ver a lua como a vi naquele instante. Não se poderia dizer que brilhava. A lua estava pálida e cinzenta, e parecia grande demais. Passei um longo tempo a observá-la, por mais que estivesse terrivelmente cansado e quisesse muito dormir.

Eu morava no terceiro piso. Quando cheguei ao patamar do segundo, agradeci a Deus por saber que restava apenas mais um. Mas, quando subi o último lance de escada, ocorreu-me que o corredor não estava escuro, como em geral se encontrava, porém levemente iluminado, como as janelas da escada. Mas havia somente três pisos naquela casa, além do sótão; e por esse motivo o corredor do terceiro estava sempre às escuras.

– O alçapão do sótão deve estar aberto – eu disse. – A luz deve estar vindo do sótão. Mas é inadmissível que a criadagem deixe o alçapão aberto, porque assim os ladrões podem entrar!

Porém não havia alçapão. Era apenas um lance de escada comum, a exemplo dos outros.

Eu havia portanto contado mal; ainda restava subir mais um lance.

Mas, quando cheguei ao patamar desse novo lance e pude ver o corredor, precisei me conter para não soltar um grito. Pois aquele corredor também estava iluminado, e mais uma vez não havia alçapão nenhum – apenas um novo lance de escada, que mais uma vez subia, como tinha acabado de acontecer. E pela janela da escada a lua continuava a brilhar, cinzenta e opaca, parecendo grande demais.

Subi a escada correndo. Eu não conseguia mais pensar. Cambaleei por mais um lance, e depois mais um; eu já não os contava.

Eu queria gritar, queria acordar aquela casa maldita e ver pessoas ao meu redor; mas era como se houvesse um nó em minha garganta.

De repente pensei em ler os nomes afixados nas portas. Que tipo de pessoas seriam os ocupantes daquela Torre de Babel? O luar era demasiado fraco, e assim precisei acender um fósforo e segurá-lo junto à placa de latão.

Li o nome de um dos meus amigos, já falecido.

Nessa hora a minha língua soltou-se e comecei a gritar:

– Socorro! Socorro! Socorro!

Esse grito foi a minha salvação, pois me acordou desse terrível sonho com a eternidade.


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Mais sobre a obra

Historietas é uma coletânea de 20 contos do sueco Hjalmar Söderberg publicados em jornais e revistas literárias antes de ser reunido em um livro no ano de 1898.

As narrativas giram em torno de situações banais do cotidiano, mas, brincando com duplos sentidos e simbolismos, o autor se mostra um mestre da ambiguidade. Apesar de curtos, até mesmo simples à primeira vista, os contos aqui reunidos fogem do óbvio, ganhando uma profundidade inesperada.

Não à toa, Historietas é um marco na literatura da Suécia, reverenciado até hoje por outros escritores escandinavos. 

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