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Fortunato Poeira , o protagonista ausente deste romance, é um “trecheiro” - um homem que vive entre a Terra e a comunidade Bertha Lutz, em uma lua agrícola, fazendo trabalhos braçais para sobreviver. Quando ele morre, seu amigo Antônio, fazendeiro em Bertha Lutz, encarrega-se de preparar seu funeral. O problema é que a burocracia não permite que a cremação aconteça antes que os familiares do falecido sejam avisados. E é quando Antônio, o narrador, e seus colegas se põem a buscar esses familiares que o verdadeiro drama da vida de Fortunato se desenha - e começa uma árida disputa não só pelo funeral, mas pela memória e narrativa da vida do trecheiro.
A estreia de Anna Martino na Cachalote é uma dessas obras sempre bem-vindas que escapam das amarras do gênero. O universo da ficção científica é apenas o pano de fundo de uma história que vai muito além da descrição de utopias, distopias e afins. É mais um dado da realidade da narrativa. E como toda boa obra do gênero, fala mais sobre a experiência humana do que sobre traquitanas tecnológicas. Mais do que um livro sobre um futuro imaginário, Fortunato Poeira é um romance sobre um futuro possível que carrega as angústias e os anseios do presente. E, acima de tudo, uma boa história contada em um texto ágil, esperto e bem-humorado.
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Anna Martino
Anna Martino nasceu em 1981. Seus trabalhos já foram interpretados na Radio BBC World e publicados em revistas e coletâneas em inglês e em português, com destaque para "Senhor tempo bom" (Plutão, 2020) e "Prosérpina" (Noveletter, 2023). Vive em São Paulo. "Fortunato Poeira" é seu primeiro livro pela ed. Cachalote
Trecho
Enfim. Esse troço todo ainda me incomoda um bocado. Já faz um ano dessa história e sabe que ainda tem dia que fico esperando o Fortunato aparecer na estrada? Especialmente agora que é época de colheita. Ele sempre vinha para as colônias nessa época — pegava carona em um cargueiro ou em alguma nave particular e aparecia aqui em Bertha Lutz com aquela mochila ridícula, perguntando se tinha alguma fazenda precisando de mão de obra para a temporada.
O Fortunato era parte da vida dessa nossa lua agrícola, como os ventos lá fora do domo, sabe? Cresci vendo-o trabalhar na plantação da minha família, ou então nas plantações dos nossos amigos pela estrada afora. Como dizia meu pai, era batata – assim que os tomateiros começavam a florir, ele me dizia: daqui a pouco, chegam as frutas e os trecheiros. Daqui a pouco, chega o Fortunato por aqui, ele vem nos ajudar.