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Mais do que reunir narrativas e vozes com o apelo da multiplicidade, os contos de Carne Marcada flagram a ambiguidade de personagens em tensão com a própria existência prosaica. Da nadadora trans de “Malcolm Diva X” ao humorista decadente de “Respeitável Púbico”, não há subjetividade construída sem o crivo da ambivalência, do equívoco, da indeterminação nos contos de Cássio Goné.
Se a prosa brasileira contemporânea, no exercício de transplantar uma suposta essência da humanidade para a ficção, tem deixado de lado as contradições – talvez em busca de consensos em torno da ideia de dor –, Carne Marcada convida leitores a ingressar no alçapão da dúvida. As imagens desse subsolo, em regra pouco agradáveis, oferecem uma oportunidade para experimentar o vir a ser humano, permitindo que as dores existam em sua complexidade indefinível.
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Cássio Goné
Cássio Goné nasceu no Brasil em 1976. Com formação em jornalismo e publicidade, atua profissionalmente como sócio de uma agência de marketing. Posteriormente, iniciou sua atuação na escrita literária. Em 2023, seu conto 'Malcolm Diva X' foi premiado no Concurso Nacional Ignácio de Loyola Brandão, realizado em Araraquara. No mesmo ano, teve trabalhos publicados em antologias do Prêmio Off-Flip. Em 2024, publicou narrativas curtas e crônicas na revista Toma Aí Um Poema (TAUP) e lançou seu primeiro livro, 'Carne Marcada', pela Editora Cachalote. Reside no município de Ribeirão Pires, no estado de São Paulo, onde participou de eventos locais, como a 4ª edição da Feira Literária de Ribeirão Pires (FLIRP), realizada em setembro de 2025.
Trecho
O Ambrósio tem três olhos. Dois são os que ele traz na cara, os manifestados,
os da vigia; desses, o que não tava na faca tava no couro, em cima do boi ali mortinho, já sem os cascos e os chambaris, as quatro patonas decepadas apontando pras nuvens: o bicho mesmo já tinha chegado no céu dos bois, passeando nas nuvens pretas e paradas que teimavam em segurar o chumbo. Quem acha que é desses olhos que precisa se defender é porque não sabe que o Ambrósio tem um terceiro, escondido ali no cantinho branco dos outros
dois, o olho que não tem pupila: era esse aí que tava firme no Bartolomeu.